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CRÔNICA, UMA TEORIA

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Por Francisco Perna Filho Hoje, no período da manhã, fiz uma palestra para os alunos do 2º período do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins, atendendo ao convite do amigo e professor Dr. Fábio Dabadia. Falei da minha experiência como escritor, poeta e cronista. Mais especificamente como cronista, já que a aula tratava desse assunto. Foi uma experiência encantadora: pude conhecer o pensamento e os anseios dos alunos que ali estavam. Vi o quanto o tema é apaixonante e desperta tanto interesse. Por ser tão instigante e fazer parte do nosso cotidiano, resolvi teorizar sobre o assunto.     CRÔNICA     O que é crônica? Existe uma estrutura para escrever uma crônica? Como se escreve uma crônica? Crônica: jornalismo ou literatura? Crônica: razão ou emoção? O que inspira uma crônica?     1.O próprio nome já nos remete para um significado, porquanto crônica vem de Cronus deus do tempo, chegando para nós como uma modalidade narrativa curta, de ca...

Primeiras leituras, relatos de reconhecimento

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                                                          Francisco Perna Filho       Como em todo campo artístico, a literatura também tem o seu período de formação, sofre e exerce influências, carrega marcas do tempo em que foi gerada, modifica vidas, reflete tendências, ultrapassa fronteiras. Portanto, muitas são as fontes formadoras; muitos são os pais, inúmeros são os filhos.     A literatura universal está cheia de relatos das mais diversas "experiências iniciáticas" como foi o caso de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, François Mauriac, todos eles, de alguma maneira, trazem lembranças agradáveis das primeiras leituras, quase sempre adquiridas na infância, ao passo que avaliam o quanto elas foram fundamentais para que eles chegassem onde chegaram.   Todos têm uma história para contar, apoiados que estão nas suas experiência vividas e lidas, como é o caso do Escritor e Jornalista Inglês Graham Greene (Pontos de Fuga, Record, 1980), ao relatar magistralmente as sua...

TOCANTINS

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Francisco Perna Filho Um rio sereno corre nos meus dias, há tanto que eu o persigo, desde suas nascentes, quando é apenas um fio, passando por  transformações, nas corredeiras, nos montes de areia e cachoeiras. Vejo-o indo, sempre indo. Às vezes, terno; às vezes, retumbante, muitas vezes rompe o próprio leito. O rio que corre em mim é ancestral, é pura simbologia, retrato de épocas, de lutas, e de sonhos. O rio da minha infância ainda corre tímido, em alguns pontos,  segregado, aborrecido. Da margem de cá, da margem de lá, é sempre rio. E assim me rio dos inavegáveis trechos, santificado em águas profundas. Rolam águas, rolam sonhos, rolam peregrinos. Bem-te-vi, bem te vejo, benfazejo, como um estirão, um grito longo precipitando-se em sonhos repercutindo em tessituras. O rio da minha infância é maior do que os meus braços, do que os meus olhos, do que o meu mundo. Foto by Francisco Perna Filho

Francisco Perna Filho

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       Aboio Oh, Jerusalém! A palestina sangra na menina dos teus olhos. E pálida fica a tarde aturdida pelos canhões amortecidos nos corpos espalhados pelo rio dos meus sentimentos. Sentir o arranque do carro, a distância da bala consumida pelo peito inocente da menina que vende flores em Copacabana. Praga se faz aqui, E em toda primavera nos sentimos invadidos pelos soldados da incompreensão, que marcham enraivecidos como os canhões na praça vermelha; como os pássaros nas torres gêmeas; quando as suas caras pálidas transbordam incertezas, soldados que estão na própria máquina que conduzem. Deuses do próprio umbigo, amaldiçoados em rastros de ferro e fogo. Famintos, Os governantes desconhecem as águas na quais se banham. Infelizes, não se comovem com o aboio da terra maltratada, estriada, ressequida. Infames, são a pura erva que mata o gado que somos. Muitas outras dores passam a largo, E não há remédio que possa acalmá-las. Muito...

O Rio Tocantins engoliu meu Avô

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Francisco Perna Filho Os rios, naturalmente, correm. É da natureza deles o livre curso. Não tem nada que os impeça, rompem qualquer obstáculo que se lhes apresente. Não fazem distinção de tempo e leito, não consideram castas nem poder, retumbam os gritos ancestrais; não param nunca, mesmo quando lhes desviam o curso, mesmo quando desembocam no mar. Pelos rios, os homens descobriram outras terras, alimentaram descobertas e distâncias. Neles, depositaram esperanças, viram-se refletidos e morreram inúmeras vezes, como o meu avô, Manoel de Sales Perna, um exímio nadador, a quem o rio não deu guarida, engolido pelo Tocantins ao salvar a minha prima, Maria Úrsula, bem próximo à cidade de Carolina, no Maranhão.   As pessoas morrem, os rios são perenes. A qualquer tempo, estão em movimento. Nunca se repetem, sempre impressionam, seduzem e devoram. Água não tem cabelo, professam os antigos, e se tivesse, sem hesitar, diria que o meu avô teria vivido um pouco mais, a tempo de me conhecer e...

Cafarnaum

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Francisco Perna Filho velhos armários,  guardando nas suas gavetas o cheiro aveludado de tantos invernos, esculpidos em retratos sonâmbulos, carpidos no ranger de redes e no murmúrio oblongo de potes de barro. Nada há de velho que não enterneça. nem o mofo, nem o lodo, nem os anos embotados no imaginário humano. Nada passa que não nos faça avançar para antes, para uma anterioridade lírica, sob a luz das lamparinas talhadas em ausências e muita solidão. Nada há de novo que não nos mostre o velho, o passado, o que fomos nós, nos passos tênues dos nossos avós,                                no lastimoso grito memorial                                dos nossos corpos na dança secular; dos nossos corações empedernidos pelas inúmeras cicatrizes que clamam refeição. O   que há em nós é um imenso desejo de reconstituição de refazimento. Um desejo de saciar a nossa fome ancestral, agora, no presente futuro. Fonte da imagem: http://www.eliz...

INSONE

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                Francisco Perna Filho As ruas nunca dormem. Não há tempo para isso, guardam os prédios que se esvaem em sono vertical. Os porteiros não dormem nunca. Não há tempo para isso, guardam os donos nidificados em sonhos de existência. As mães nunca dormem, velam os filhos errantes em bares e becos obscuros. Os famintos, os guardas, as prostitutas, assim como os cães, exercem a insônia da sobrevivência. Pelos olhos insones de todos estes meus olhos vêem o inominado, o imaterializável. E, por muito ver, meus olhos nunca dormem.    F onte da  imagem: http://www.baixaki.com.br/imagens/wpapers/BXK1757__4161-edificios-em-s.paulo-sp-brazil800.jpg