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Mostrando postagens de março, 2011

Olavo Bilac - Poema

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Tenho frio e ardo em febre! "E tremo à mezza state, ardendo inverno" Petrarca Tenho frio e ardo em febre! O amor me acalma e endouda! O amor me eleva e abate! Quem há que os laços, que me prendem, quebre? Que singular, que desigual combate! Não sei que ervada flecha Mão certeira e falaz me cravou com tal jeito, Que, sem que eu a sentisse, a estreita brecha Abriu, por onde o amor entrou meu peito. O amor me entrou tão cauto O incauto coração, que eu nem cuidei que estava, Ao recebê-lo, recebendo o arauto Desta loucura desvairada e brava. Entrou. E, apenas dentro, Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno... E hoje... ai de mim!, que dentro em mim concentro Dores e gostos num lutar eterno! In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: rosa

Olavo Bilac - Poema

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Remorso Às vezes uma dor me desespera... Nestas ânsias e dúvidas em que ando, Cismo e padeço, neste outono, quando Calculo o que perdi na primavera. Versos e amores sufoquei calando, Sem os gozar numa explosão sincera... Ah ! Mais cem vidas ! com que ardor quisera Mais viver, mais penar e amar cantando ! Sinto o que desperdicei na juventude; Choro neste começo de velhice, Mártir da hipocrisia ou da virtude. Os beijos que não tive por tolice, Por timidez o que sofrer não pude, E por pudor os versos que não disse ! In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: φθινόπωρο  

Olavo Bilac - Poema

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A um poeta Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego, Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua! Mas que na forma se disfarce o emprego Do esforço: e trama viva se construa De tal modo, que a imagem fique nua Rica mas sóbria, como um templo grego Não se mostre na fábrica o suplicio Do mestre. E natural, o efeito agrade Sem lembrar os andaimes do edifício: Porque a Beleza, gêmea da Verdade Arte pura, inimiga do artifício, É a força e a graça na simplicidade. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: Mosteiro de São Bento - SP

Olavo Bilac - Poema

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"Benedicite" Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo; E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto, Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo; E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo; E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto; E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo; E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano, E o que inventou o canto e o que criou a lira, E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano... Mas bendito entre os mais o que no dó profundo, Descobriu a Esperança, a divina mentira, Dando ao homem o dom de suportar o mundo! In. Jornal de Poesia Imagemretirada da Internet: aeroplano

Brasigóis Felício - Ensaio curto

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A burrice da bomba                                                                                                 Cada um sabe onde é mar ou onde é sertão na paisagem da sua solidão. A memória de ter sido é a mais recôndita e difícil lembrança. O fato de esquecermos passagens de nossa vida tem uma explicação: é que, quando as vivemos, não estivemos conscientes, ou estávamos mergulhados em sono profundo, a dormir pesadamente. O homem só sabe que não sabia depois que aprendeu. Mas quase nunca aprendemos, pelo simples fat...

Castro Alves - Poema

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                                                                  Foto by Maldivas A Tarde Era a hora em que a tarde se debruça Lá da crista das serras mais remotas... E d'araponga o canto, que soluça, Acorda os ecos nas sombrias grotas; Quando sobre a lagoa, que s'embuça, Passa o bando selvagem das gaivotas... E a onça sobre as lapas salta urrando, Da cordilheira os visos abalando. Era a hora em que os cardos rumorejam Como um abrir de bocas inspiradas, E os angicos as comas espanejam Pelos dedos das auras perfumadas... A hora em que as gardênias, que se beijam, São tímidas, medrosas desposadas; E a pedra... a flor... as selvas... os condores Gaguejam... falam... cantam seus amores! Hora meiga da Tarde! Como és bela Quando surges do azul da zona ardente! ,Tu és do céu a pálida donzela ......

Castro Alves - Poema

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A uma estrangeira Lembrança de uma noite no mar Sens-tu mon coeur, comme U palpite? Le tien comme il battait gaiement! Je m'en vais pourtant, ma petite, Bien loin, bien vite, Toujours t'aimant. (Chanson) Inês! nas terras distantes, Aonde vives talvez, Inda lembram-te os instantes Daquela noite divina?... Estrangeira, peregrina, Quem sabes?-Lembras-te, Inês? Branda noite! A noite imensa Não era um ninho?-Talvez!... Do Atlântico a vaga extensa Não era um berço? — Oh! Se o era... Berço e ninho... ai, primavera! O ninho, o berço de Inês. Às vezes estremecias... Era de febre? Talvez... Eu pegava-te as mãos frias P'ra aquentá-las em meus beijos... Oh! palidez! Oh! desejos! Oh! longos cílios de Inês. Na proa os nautas cantavam; Eram saudades?... Talvez! Nossos beijos estalavam Como estala a castanhola.:. Lembras-te acaso, espanhola? Acaso lembras-te, Inês? Meus olhos nos teus morriam... Seria vida?-Talvez! E meus prantos te diziam: "Tu...

Castro Alves - Poema

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A duas flores São duas flores unidas, São duas rosas nascidas Talvez no mesmo arrebol, Vivendo no mesmo galho, Da mesma gota de orvalho, Do mesmo raio de sol. Unidas, bem como as penas Das duas asas pequenas De um passarinho do céu... Como um casal de rolinhas, Como a tribo de andorinhas Da tarde no frouxo véu. Unidas, bem como os prantos, Que em parelha descem tantos Das profundezas do olhar... Como o suspiro e o desgosto, Como as covinhas do rosto, Como as estrelas do mar. Unidas... Ai quem pudera Numa eterna primavera Viver, qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida Na rama verde e florida, Na verde rama do amor! In. Domínio Público Imagem: vida sol e mar

Castro Alves - Poema

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Amante "Basta, criança! Não soluces tanto... Enxuga os olhos, meu amor, enxuga! Que culpa tem a clícia descaída Se abelha envenenada o mel lhe suga? "Basta! Esta faca já contou mil gotas De lágrimas de dor nos teus olhares. Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas No sangue dele em gotas aos milhares. "Por que volves os olhos desvairados? Por que tremes assim, frágil criança? Est'alma é como o braço, o braço é ferro, E o ferro sabe o trilho da vingança. "Se a justiça da terra te abandona, Se a justiça do céu de ti se esquece, A justiça do escravo está na força... E quem tem um punhal nada carece!... "Vamos! Acaba a história... Lança a presa... Não vês meu coração, que sente fome? Amanhã chorarás; mas de alegria! Hoje é preciso me dizer — seu nome!" In .Domínio Público Imagem retirada da Internet: flôr

Castro Alves - Poema

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Não quero outro amor "Eu não quero outro amor; não quer a abelha Um novo cetro se o primeiro cai; Iramaia viúva nos desertos, Peregrina chorando — a morte atrai. Eu não quero outro amor; sou como o cervo Que a raiz encontrou no jibatã; Ali se abriga na floresta escura, Lá viu-o a noite, e vê-lo-á a manhã. Eu não quero outro amor; não quer a paca Mais de um caminho, procurando o rio, Ali a espera o caçador malvado, Ali ferida, soluçou, caiu. Eu não quero outro amor — sou como o índio Que caminha buscando o Taracuá: Afeito ao fogo da escolhida planta Vai andando e rejeita o Biribá. Eu não quero outro amor — não quer a planta Outra seiva, outro sol, estranho chão: Não cresce longe, mas definha e prende Amando o sol que encubara o grão. Eu não quero outro amor; sou como a seta Que num vôo somente corta o ar; Se perde o golpe tomba logo inerte Entra o índio sem caça o tijupar. Eu a vítima fui da seta ervada, De plumas verdes, venenoso fio; Ma...

Castro Alves - Poema

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O "adeus" de Teresa A vez primeira que eu fitei Teresa, Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus E amamos juntos E depois na sala "Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala E ela, corando, murmurou-me: "adeus." Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . . E da alcova saía um cavaleiro Inda beijando uma mulher sem véus Era eu Era a pálida Teresa! "Adeus" lhe disse conservando-a presa E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!" Passaram tempos sec'los de delírio Prazeres divinais gozos do Empíreo ... Mas um dia volvi aos lares meus. Partindo eu disse - "Voltarei! descansa!. . . " Ela, chorando mais que uma criança, Ela em soluços murmurou-me: "adeus!" Quando voltei era o palácio em festa! E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta Preenchiam de amor o azul dos céus. Entrei! Ela me olhou branca surpresa! Foi a última vez que eu vi Teresa! ...

Bruno Tolentino - Poema

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Via Crucis A Via Crucis foi uma selvageria, a Crucifixão uma brutalidade; mas em três, quatro horas, acabou a agonia, baixou a eternidade. Eu vivo aqui, crucificada noite e dia, carrego da manhã à tarde o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia, lenta, fria, covarde. Ah, como eu preferia que me crucificassem de uma vez, sem o alarde de algum terceiro dia! Mas toca-me seguir nessa monotonia, a agonia de alçar-me do catre e abrir de novo os braços, vazia. In.As Horas de Katharina Imagem retirada da Internet: Crucificação

Bruno Tolentino - Poema

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O Cristo não é um belo episódio da história ou da fé: nem o clavicórdio nos dedos da luz, nem o monocórdio chamado da Cruz. O crucificado chamado Jesus é o encontro marcado entre a solidão e o significado do teu coração: de um lado teu medo, teu ódio, teu não; de outro o segredo com seu cofre aberto, onde o teu degredo, onde o teu deserto, vão morrer, mas vão morrer muito perto da ressurreição. In. As horas de Katharina . São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p.180  Imagem retirada da Internet: Bruno Tolentino

Bruno Tolentino - Poema

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Os Deuses de Hoje ihil obstat    II É preciso que a música aparente no vaso harmonizado pelo oleiro seja perfeitamente consistente com o gesto interior, seu companheiro e fazedor. O vaso encerra o cheiro e os ritmos da terra e da semente porque antes de ser forma foi primeiro humildade de barro paciente. Deus, que concebe o cântaro e o separa da argila lentamente, foi fazendo do meu aprendizado o Seu compêndio de opacidades cada vez mais claras, e com silêncios sempre mais esplêndidos foi limando, aguçando o que escutara In. Plataforma para a poesia Imagem retirada da Internet: Oleiro

Bruno Tolentino - Poema

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MECANISMOS Havia um azul sereno naquele roxo florindo, o jardim dava no tempo e o tempo passava rindo. É tudo de que me lembro. Quase nada do que sinto. Deu-se a flor ao pensamento entre a memória e o instinto. O mais é aquilo que invento, as músicas que mal digo, orvalhos que ficam sendo daquele jardim antigo.

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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A UM AUSENTE Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste Imagem retirada da Interne...

Francisco Soares Feitosa - Poema

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A rchitectura                                                                                               U m dia,  Ela   desenhará em chãos longínquos a casa só nossa,  que eu farei com estas mãos. O s tijolos, eu os amassarei com os meus pés. À s telhas — hei de aprontar o barro mais macio, e as formas serão por mim, uma a uma, completadas; E la  as alisará longamente —  seus dedos molhados de um profundo silêncio: só os pássaros. Fortaleza, manhã de 19.11.1998 In. Jornal de Poesia Im...

Francisco Soares Feitosa - Poema

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Foto by Gustavo Penteado O que digo entre as flores? Meus olhos se consomem pela tua promessa" (Salmo 119, 82)     O resto foi travo e mel     que não se disse mais nada —     em um      ali:   rubro o tempo, as faces. — Seu Francisco — indagou, aflito,     mestre Antônio (vaqueiro): —     o senhor mandou matar todos os novilhos,   foi assim mesmo que entendi,     e botar a melhor veste nos caminhos?   — Como ficará então esta fazenda?   Sem os bois que morrerem,   o que digo entre as flores?   Diga nada não, mestre Antônio,     os novilhos ressurgirão  da terra,     nos passos largos das minhas sandálias. E os caminhos ficarão de perfume,     diga nada não, mestre Antônio,     que ela estava morta,     as flores sabem, outra vez,     agora vive.          ...

JJ Leandro - Poema

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O tempo produz poesia   Se o tempo parasse, Teria início um inquestionável Dilema. O poeta se transformaria em estátua E nunca terminaria o poema. Isso jamais acontecerá. É verdade que o poeta Reclama do tempo todo dia, Mas somente para transformar Seu lamento Em imorredoura poesia. Imagem retirada da Internet: Dal i

Lygia Fagundes Teles - Conto

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As Cerejas  Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de crochê com um anjinho a esvoaçar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estrábicos, "vocês não viram onde deixei meus óculos?" A preta Dionísia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz ácida contrastando com a doçura dos cremes, "esta receita é nova..." Tia Olívia enfastiada e lânguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, "fico exausta no calor..." Marcelo muito louro - por que não me lembro da voz dele? - agarrado à crina do cavalo, agarrado à cabeleira de tia Olívia, os dois tombando lividamente azuis sobre o divã. "Você levou as velas à tia Olívia?", perguntou Madrinha lá embaixo. O relâmpago apagou-se. E no escuro que se fez, veio como resposta o ruído das cerejas se despencando no chão. A casa em meio do arvoredo, o rio, as tardes como que suspensas na poeira do ar - desa...

Dora Ferreira da Silva - Poema

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Elegia dos Golfinhos Viu (porque só ver podia) sem interferir: eles feriam o cardume denso dos golfinhos, armadura azulada protegendo atuns. Eram estes o alvo cobiçado para as latarias de consumo. Tudo servia aos velhacos: matemática, um navio branco — noivo da Morte —, redes atiradas em círculo perfeito e nefasto perto do cardume. Tiros ecoavam no ar, encapelando a ordem bela dos golfinhos no caos turbilhonante. Aprisionados, eles se contorciam em desespero. Lamentem-se os coros sagrados de Netuno acorram Nereidas, Anfitrite em lágrimas com seus cavalos marinhos em torno das malévolas mandalas de redes sobre o mar. Ó Nova Idade, não vês tantas formas desfeitas, não vês que o rei Midas tudo transforma agora no ouro do negócio? Os golfinhos tranqüilos começam a morder. Ah, cascata iridiscente no limiar da morte em dança fúnebre! É o anti-Cristo no coração dos homens, o usurpador, o peixe voltado para a esquerda, involutivo. Mercância vil contaminando cab...

Francisco Perna Filho - Poema

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Comida Caseira Cansado de aventuras extraconjugais, lembrou-se da mulher e voltou para casa. Imagem retirada da Internet: Cinta-liga

Francisco Perna Filho - Poema

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Criação Na quarta, eu recolho as cinzas, dissipo as cismas, enceto a rima, sem olhar para trás. Na quarta, retomo a messe, componho a prece, celebro a vida. Imagem: Michelângelo: A Criação de Adão

Pio Vargas Abadio Rodrigues - Poema

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Aviário de Naus Nunca fui de vigiar espantos. Sobrevivo ante a urgência de cada mínima coisa imaginando o que pode advir quando o semáforo sorrir O verde e o corpo em disparada romper o ritmo: oceano a morrer de sede. Pequeno eu inventava demônios só pelo prazer de os ter a povoar neurônio. Pequeno ainda imaginava abismos sob os cabelos penhascos planícies novelos só para vestir os lugares mais distantes onde armo duelos com espelhos. Hoje o inquilino que me habita cintila nos relógios de praça e pulso sem reparar no corpo o dédalo tempero de um oceano avulso. sem descobrir que o equilíbrio supera o efeito e se fantasma ou glândula isso que limita o peito. Eu sempre soube que um pedaço de gelo carrega o fogo que não lhe coube. E cresci sem planos como vão crescendo os fantasmas pela noite dos anos. Agora fico a moldurar delírios como se inventasse mundos planetas galáxias inteiras em mínimas letras. Sei-me de fato a ger...

Noel Rosa - Poema

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Pierrô apaixonado Um Pierrô apaixonado, Que vivia só cantando, Por causa de uma Colombina Acabou chorando... Acabou chorando... A Colombina entrou num butiquim, Bebeu, bebeu, saiu assim, assim Dizendo: "Pierrô, cacete! Vai tomar sorvete com o Arlequim!" Um grande amor tem sempre um triste fim. Com o Pierrô aconteceu assim. Levando esse grande chute, Foi tomar vermute com amendoim. Imagem retirada da Internet: Máscara

Francisco Perna Filho - Poema

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Atrás do curral Atrás do curral, mora uma fada, que se enfeita de folhas e pimentas vermelhas. à noite, quando se deita, iludida pelos pássaros, que passeiam no seu ventre, entrega-se a rosas e risos, para, depois, serenar adormecida. Do livro inédito Venerada Veneranda. Imagem retirada da Internet: pimentas

Francisco Perna Filho - Poema

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Passagem Sob a ponte, a fonte, um passado em torrente, um menino acena para sua mãe. A água é fria, a vida larga, os olhos do menino devoram o céu imenso. Ninguém sobrou para contar a história. Só a memória, e é essa ficção. Imagem retirada da Internet: ponte

Francisco Perna Filho - Poema

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No balanço do vento                                          Para minha Mãe Eu choro pela minha mãezinha, que ficou só. Ela era tantas, estampava alegria, um canto de primaveras, um olhar para lá do rio. Assim, como está, hoje, como a flor solitária na roseira, indo e vindo, no balanço do vento, só, sozinha, somente. Para onde vão os filhos depois que crescem? vão para qualquer lado, canto, ou país, não importa. O que importa é a porta sempre aberta, o barulho que levam, e a certeza de que são muitos. Eu choro pela minha mãezinha, Só, sozinha, semente. Imagem retirada da Internet: borboleta

JJ Leandro - Conto

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ELEIÇÕES NA CASA DO SENHOR Um diálogo possível, pois nestes tempos volúveis só a imprevisibilidade é previsível. (Pedro um tanto assombrado) — Senhor, acordai do sono eterno. (O senhor atarantado após uma eternidade letárgica) — O que há, Pedro. Como ousas tanto? — É que os protestos se fazem presentes, pressentis? (A ignominiosa onipotência falando mais alto) — Um leve murmúrio... não mais. (Pedro com um resquício de receio humano) —  Estais mouco, digo sem medo, que medo maior é depordes. É assim que começa, Senhor. Em pouco é conflagração aberta na praça, como no Egito e na Tunísia. (Senhor, numa consulta comum aos que pouco se dedicam aos seus sérios assuntos) — O que fazem meus ministros nas igrejas católicas, dize-me Pedro? (Pedro sobremaneira contrariado) —  Dormem, Senhor, é o que fazem. Dormem sobre oferendas, esmolas, donativos e falácias que emprenham pelos ouvidos. (O Senhor com o ar afetado dos negligentes) — Não me surpreende que os evangélicos medrem co...