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Mostrando postagens de janeiro, 2011

Gilberto Mendonça Teles - Poema

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Ballet Teu nome dança na palavra. Acerta o timbre das vogais e, a cada instante, se faz gleba e glicínia, descoberta de um gêiser no vapor da consoante. É ele que reluz na letra L, no corpo da mulher que, airosa e fina, se exibe no poema e, pele a pele, deixa no ar seu perfil de bailarina. É dele que provêm a forma, o estilo, a beleza sem fim e sem começo: o segredo maior e mais tranquilo para ser dito apenas pelo avesso. In. Linear G. São Paulo: Hedra, 2010, p.78. Imagem retirada da Internet: Bailarina

Gilberto Mendonça Teles - Poema

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Simplesmente Não quero mais ouvir falar de poesia antiga tradicional ou moderna trovadoresca clássica ou barroca arcádica romântica ou realista Não quero mais ouvir falar de poesia simbolista unanimista ou futurista vanguardista cubista ou dadaísta surrealista ou modernista épica lírica satírica ou dramática religiosa mística ou goliardesca cósmica anacreôntica ou semiótica e muito menos de poesia bucólica cortês, popular ou engajada abstrata concreta cinética pura impura experimental visual sonora ou táctil Quero é pedir como Mário Quintana - Retire todos os adjetivos e estará ressalvada a Poesia. Eu quero a Poesia, simplesmente. In. Linear G. São Paulo: Hedra, 2010, 40-1. Foto by Luís Mendonça

João Guimarães Rosa - Poema

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Consciência Cósmica Já não preciso de rir. Os dedos longos do medo largaram minha fronte. E as vagas do sofrimento me arrastaram para o centro do remoinho da grande força, que agora flui, feroz, dentro e fora de mim... Já não tenho medo de escalar os cimos onde o ar limpo e fino pesa para fora, e nem deixar escorrer a força dos meus músculos, e deitar-me na lama, o pensamento opiado... Deixo que o inevitável dance, ao meu redor, a dança das espadas de todos os momentos. e deveria rir, se me retasse o riso, das tormentas que poupam as furnas da minha alma, dos desastres que erraram o alvo do meu corpo... In. Magma - Fonte: Jornal de Poesia Imagem by Alexandre Lettnin: redemoinho

João Guimarães Rosa - Poema

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Luar De brejo em brejo, os sapos avisam: --A lua surgiu!... No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas. A lua madura Rola,desprendida, por entre os musgos das nuvens brancas... Quem a colheu, quem a arrancou do caule longo da via-láctea?... Desliza solta... Se lhe estenderes tuas mãos brancas, ela cairá... In. Magma - Fonte: Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: Luar

João Guimarães Rosa - Poema

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No Araguaia – I Nestas praias sem cercas e sem dono do velho Araguaia, achei um amigo, escuro, de cara pintada a jenipapo e urucum: o carajá Araticum – uassu Seus músculos são cobras grossas que incham sobre o couro moreno; suas narinas têm sete faros; e nos seus ouvidos há cordas sutis, onde ressoa o pio curto e triste, que, mais de um quilometro distante, solta o patativo borrageiro. Quando o rio ensolado enruga, em qualquer ponto, a lâmina lisa de níquel molhado, ele traduz , na esteira da mareta, com o binóculo faiscante dos olhos, o tamanho e a raça do peixe navega escondido. E a flechada vai arpoar, certeira , debaixo d’água, o pacamã ou o pirarucu. A mata não lhe dá mais surpresas (tem vinte presas onça preta no colar), nem o rio lhe conta mais novidades (ele é capaz de flutuar , até dormindo, correnteza abaixo, como um pau de pita). Hoje eu lhe perguntei: --“Como foi feito o mundo, ó meu patrício Araticum Uassu?...” Ele riu, deu um mergulho no rio, e emergiu, com a cabeleira em...

T.S. Eliot - Poema

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ERONTION's Thou hast nor youth nor age, But, as it were, an after dinner's sleep, Dreaming on both. (William Shakespeare, Measure for Measure, "Não és jovem nem velho, / mas como, se após o jantar adormecesses,/ Sonhando que ambos fosses.") Eis-me aqui, um velho em tempo de seca, Um jovem lê para mim, enquanto espero a chuva. Jamais estive entre as ígneas colunas Nem combati sob as centelhas de chuva Nem de cutelo em punho, no salgado imerso até os joelhos, Ferroado de moscardos, combati. Minha casa é uma casa derruída, E no peitoril da janela acocora-se o judeu, o dono, Desovado em algum barzinho de Antuérpia, coberto De pústulas em Bruxelas, remendado e descascado em Londres. O bode tosse à noite nas altas pradarias; Rochas, líquen, pão-dos-pássaros, ferro, bosta. A mulher cuida da cozinha, faz chá, Espirra ao cair da noite, cutucando as calhas rabugentas. E eu, um velho, Uma cabeça oca entre os vazios do espaço. Toma...

Carlos Nejar - Poema

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Luiz Vaz de Camões Não sou um tempo ou uma cidade extinta. Civilizei a língua e foi resposta em cada verso. E à fome, condenaram-me os perversos e alguns dos poderosos. Amei a pátria injustamente cega, como eu, num dos olhos. E não pôde ver-me enquanto vivo. Regressarei a ela com os ossos de meu sonho precavido? E o idioma não passa de um poema salvo da espuma e igual a mim, bebido pelo sol de um país que me desterra. E agora me ergue no Convento dos Jerônimos o túmulo, que não morri. Não morrerei, não quero mais morrer. Nem sou cativo ou mendigo de uma pátria. Mas da língua que me conhece e espera. E a razão que não me dais, eu crio. Jamais pensei ser pai de santos filhos. In. Releituras Imagem retirada da Internet: Camões

Carlos Nejar - Poema

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Construção da noite No casulo há um homem mas o fundo é o outro lado. No casulo de seu tempo há um homem, mas o fundo é o outro lado. É o casulo onde o homem foi achado, mas o fundo é o outro lado. É o terreno onde o homem foi lavrado, mas o fundo é o outro lado. É a treva onde o homem foi fechado, mas o fundo é o outro lado. É o silêncio de um homem soterrado, mas o fundo é o outro lado. Mas o fundo é o outro lado. É a infância que nasce sobre o morto, é a infância que cresce sobre o morto, é o sol que madruga no seu rosto, é um homem que salta do sol posto e convoca outros homens para o sonho e mistura-se à terra e mistura-se ao sonho. E o canto recomeça além do sonho, além da escuridão, além do lago. Mas o fundo é o outro lado, mas o fundo principia sem passado, sem os montes, sem os barcos, sem o lago. Tua vida verdadeira é o outro lado. Tua terra verdadeira é o outro lado. Tua herança verdadeira é o outro lado. Tudo cessa. Tudo cessa, tudo cessa. ...

Walt Whitman - Poema

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CANTO DO UNIVERSAL 1 Vem, disse a Musa, Canta para mim um canto que nenhum poeta ainda cantou, Canta para mim o universal. Nesta larga terra nossa, Em meio à desmedida vulgaridade e à escória, Encerrada e segura em seu coração central, Aninha-se a semente da perfeição. Uma parte, maior ou menor, para cada vida, - Nenhuma vida nasce, sem que ela haja nascido - oculta ou à mostra a semente espera 2 Vede! A torreante ciência de olhos agudos, A modernidade contemplando como do alto dos picos, A dizer fiats sucessivos e absolutos. Vede, contudo, a alma acima de tôda ciência: Para ela a história juntou como cascas em redor do globo, Para ela todas as miríades de estrelas giram através do céu. Em rotas espiradas, com longas voltas, (Como um navio que muito muda de curso no mar,) Para ela o parcial flui rumo ao permanente, Para ela o real busca o ideal. Para ela é que se dá a evolução mística, Não apenas o correto se justifica, o que chamamos mal também se justifica. Saindo das máscaras,...

Amadeus Amado - Poema

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A luz dos olhos teus alumia os becos da minha tristeza. Imagem retirada da Internet

Lêdo Ivo - Poema

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Os Peixes Os peixes estão no lago, os dardos escondidos. Entre as pedras e o lodo eles avançam túrgidos como o amor. Venha a mão do desejo turvar a água clara e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas nupciais, as espadas cobertas de saliva. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: Peixe

Lêdo Ivo - Poema

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Advertência a um Gavião O gavião sobrevoa a plantação de tomate. Meu irmão gavião, eu não aceito a morte. Na partilha do mundo não estarei ao teu lado. Jamais admitirei a usurparão do dia. Só sei enfileirar-me no cortejo da vida. Meu caminho me leva a floresta onde fluem as fontes escondidas. Mesmo longe adivinho uma árvore que tenha frescor de fruto ou ninho. Gavião! Gavião! embaixador do não, o céu não pode ser sepultura de pássaros. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: Gavião

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema

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O GUARDADOR DE REBANHOS (XVI) Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois Quase à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas... A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco... Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco. Fonte: Insite Imagem retirada da Internet: Luís Melancia

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema

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Se eu morrer novo,sem poder publicar livro nenhum Se eu morrer novo, sem poder publicar livro nenhum Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, Que não se ralem. Se assim aconteceu, assim está certo. Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. Não desejei senão estar ao sol ou à chuva - Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), Sentir ca...

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema

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O meu olhar é nítido como um girassol O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar... In. O Guardador de Rebanhos - Fonte: ...

Leila Miccolis - Poema

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SEREIA, JANAÍNA, IEMANJÁ Vem meu veleiro navegar-me lendas que abro oceanos nunca desbravados, as portas líquidas dos meus reinados, e armo de pérolas as nossas tendas... Vê-me a nudez – afasta as alvas rendas, que encontrarás tesouros afundados; só que talvez, pra teres tais agrados, ao mar pra sempre tua vida prendas. Se mesmo assim o novo lar não temes, se não recuas, e se ainda gemes, por meu amor, sedento de paixão, cheia de luzes, colorida amante, eu verde, azul, e em brilhos deslumbrantes, refratarei-me em tuas redes-mãos. In. Jayrus Imagem retirada da Internet: sereia

Leila Miccolis - Poema

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Confissão Dizem que o amor é cego, não nego, por isso te abro os olhos: não tenho bens nem alqueires, eu não sou flor que se cheire, nem tão boa cozinheira, (bem capaz que ainda me piches por só comer sanduíches), minha poesia é fuleira, tenho idéias de jerico, um cio meio impudico como as cadelas e as gatas, às vezes me torno chata por me opor ao que comtemplo, sei que sou péssimo exemplo, por pouca coisa me grilo, talvez por mim percas quilos, eu não sei se valho a pena, iguais a mim, há centenas, desejo te ser sincera. Mas no fundo o amor espera que grudes qual carrapicho: são tão grandes meu rabicho e minha paixão por ti, que não estão no gibi... Ao te ver, viro pamonha, sem ação, e sem vergonha o meu ser inteiro goza. Por isso, pra encurtar prosa, do teu corpo, cada poro eu adoro adoro adoro... In. Jayrus Imagem retirada da Internet:

Leila Miccolis - Poema

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A Seco Tem coisas que a gente só diz de porre, se não o outro corre; mas passada a bebedeira, a gente acha que fez besteira, não devia ter falado, que se expôs adoidado, à toa e foi tolice. Finge-se então que se esquece o que disse, culpa-se a carência, a demência, a embriaguez, responsáveis por tamanha estupidez. E é aceitando este estranho cabedal que quando se volta ao "estado normal", cada vez mais sós, na defensiva, corroídos morremos de cirrose afetiva. In. Jayrus Imagem retirada da Internet: bebida

Luiz de Aquino - Poema

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RIO QUENTE E EU Na minha terra existe um rio. Pequeno curso, pequeno caudal que deságua límpido nas turvas águas do Piracanjuba. Corre alegre, borbulhante, mantendo constante a água clara a trinta e sete graus. Persistente, meu pequeno Rio Quente! Foi ele a imagem primeira do que chamei de rio. Mas não é ele, ainda, um rio de verdade. É ribeirão; e na cidade (pouco mais que vila), o Córrego de Caldas, miúdo e manso: hospitaleiro para o banho, farto de lambaris de ingênuas pescarias. Rio mesmo é o Corumbá, violento e forte. Vem do norte e reforça o Paranaíba, que nasce em Minas. Rios são assim, feito a vida. Tímidos primeiro, crescentes depois. E viram grandes quando grandes somos também tal como grande nos parece o mundo. Saudade de ser córrego: hospitaleiro e manso. In. Luiz de Miranda Foto by Ricardo Borges Gonçalves

Luiz de Aquino - Poema

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A CASA NASCE DAS ÁGUAS A casa de Aninha, a casa grande na beira da ponte, dá mão ao tempo e espera outro século. Mas a casa está só. Não há mais quem lhe varra o chão e espane pó das histórias. O tacho de cobre não coze mais doces: Aninha descansa em São Miguel. Não mais as histórias dos becos nem livros de cordel. Doce Ana doutros anos, força e voz, tempo e tempero. Foi-se Ana, a cordeleira, cordilheira feito humana, canto e coro, coralina, voz menina, canto forte cristalina voz poesia. A casa nasce das águas à beira da ponte, à beira do tempo. A casa escura das águas. Rio Vermelho resmunga. Rio velho, triste... Rabugento, o Rio Vermelho. In. SARAU. Goiânia: Edição do autor, 2003. p.152. Foto by Zemaria: Casa de Cora