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Mostrando postagens de novembro, 2010

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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A NOITE DISSOLVE OS HOMENS A Portinari A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança... Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. E o amor não abre caminho na noite. A noite é mortal, completa, sem reticências, a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio... Os suicidas tinham razão. Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos, teus dedos fr...

Ludovico Ariosto - Poema

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ORLANDO FURIOSO CANTO I (continuação) 19. Diz ao pagão: - Cuidas que só a mim, Mas maltratas comigo a ti também, Que se agora combates bravo assim Pelo sol que ardoroso te mantém, Reter-me aqui que te aproveita enfim? Pois quer me faças morto, quer refém, De ti bem longe se achará a senhora Que, enquanto aqui tardamos, foi-se embora. 20. Se lhe queres também, será melhor Procurares detê-la pela estrada Antes que uma distância inda maior A separe de nós em sua jornada. Quando a alcançarmos, seja-lhe senhor Quem, de nós dois, prevalecer na espada, Pois penso, aliás, que toda esta detença Só nos pode servir de perda imensa. 21. Ao pagão a proposta não despraz: Eis que adiada assim fica a tenção. Retorna ao seio de ambos logo a paz, Caem no olvido o ódio e a indignação. Deixando as frescas águas para trás, Que Rinaldo está a pé lembra ao pagão. Roga-lhe, insta e faz pôr-se na garupa; Só Angélica alcançar ora os preocupa. 22. Como outrora eram bons os cavaleiros! Rivais no amor, a fé os fa...

Ludovico Ariosto - Poema

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ORLANDO FURIOSO CANTO I (continuação) 13. a Dama desviou a montaria e foi-se a rédea solta pela mata, Sem procurar a mais segura via, Onde o arvoredo menos se dilata. Tresloucada, a tremer, pálida, a guia Dá ao palafrém, que a esmo as trilhas cata. Acima e abaixo, a vasta selva inteira Percorreu e foi ter a uma ribeira. 14. Junto à ribeira Ferraú mostrou-se Coberto de poeira e suor copioso. O que da frente de batalha o trouxe Foram ganas de água e de repouso. Depois, a contragosto, lá ficou-se, Porque, sobre estouvado, sequioso, Das mãos caiu-lhe ao rio o elmo, ao beber, E não mais o alcançava reaver. 15. Com quantas forças tem, ergue clamor, Posta em fuga, a donzela apavorada; Salta o mouro, escutando tal rumor, E a reconhece, logo na chegada. Ainda que, por obra do temor, Mostrasse a face pálida e turvada, É aquela de quem vai buscando novas, É angélica, não há querer mais provas. 16. Cavaleiro cortês, quiçá rival Dos primeiros no estimar igual beleza; Se elmo lhe falta, o que inda o...

Ludovico Ariosto - Poema

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ORLANDO FURIOSO CANTO I 1. Damas e paladinas, armas e amores, As cortesias e as façanhas canto Do tempo em que o mar d'África os rigores Dos mouros trouxe, e França esteve em pranto; Ira os movia e juvenis furores De Agramante seu rei, disposto a tanto, Que ousou vingar a morte de Troiano, Em Carlos, rei e imperador romano. 2. Hei de dizer de Orlando, juntamente, O que nunca se disse, em prosa ou rima: Que ficou, por amor, louco fremente, Pondo a perder de homem cordato a estima; Isto, se aquela que me faz demente E o pouco engenho me corrói qual lima, Assentir em poupar-me em tal medida, Que eu possa dar a obra prometida. 3. Dignai-vos, ó hercúlea prole Estense, Ornamento e esplendor do tempo nosso, Hipólito, aceitar, pois vos pertence, A oferta do criado humilde vosso. O que vos devo em grande parte vence Quando co' o verbo e a pena pagar posso; Nem por vos dar tão pouco ingrato sou, Pois do que posso dar, tudo vos dou. 4. Dentre os grandes heróis, se ora me ouvis, Vereis lem...

Sinésio Dioliveira - Poema

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Viagem incomo(Dante) Para o Amigo Chico Perna Quão incomo(Dante) É essa viagem metafísica Pela vereda dual entre o céu e o inferno! A comédia humana é sim divina. E nela o demônio tem sido protagonista. Deus está atrás das cortinas. Os mitos impedem a demência de muitos homens. Os poetas fogem à regra: São loucos sublimes. Não jogam pedra na lua Mas lhe oferecem flores E serenata com canto de pássaros. Essa é a vereda tomada pelos poetas para "entreter a razão" e dar alegria ao "comboio de corda que se chama coração". Imagem retirada da Internet: Dante.

Alexandre O'Neill - Poema

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Sei os teus seios. Sei-os de cor. Para a frente, para cima, Despontam, alegres, os teus seios. Vitoriosos já, Mas não ainda triunfais. Quem comparou os seios que são teus (Banal imagem) a colinas! Com donaire avançam os teus seios, Ó minha embarcação! Porque não há Padarias que em vez de pão nos dêem seios Logo p'la manhã? Quantas vezes Interrogaste, ao espelho, os seios? Tão tolos os teus seios! Toda a noite Com inveja um do outro, toda a santa Noite! Quantos seios ficaram por amar? Seios pasmados, seios lorpas, seios Como barrigas de glutões! Seios decrépitos e no entanto belos Como o que já viveu e fez viver! Seios inacessíveis e tão altos Como um orgulho que há-de rebentar Em deseperadas, quarentonas lágrimas... Seios fortes como os da Liberdade -Delacroix-guiando o Povo. Seios que vão à escola p'ra de lá saírem Direitinhos p'ra casa... Seios que deram o bom leite da vida A vorazes filhos alheios! Diz-se rijo dum seio que, vencido, Acaba por vencer... O amor excessivo d...

Antônio Frederico de Castro Alves - Poema

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Adormecida Ses longs cheveux épars la couvrent sonie entière. La croix de son collier repose dans sa main, comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière. Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain. Alfred de Musset Uma noite, eu me lembro... Ela dormia numa rede encostada molemente... Quase aberto o roupão.... solto o cabelo e o pé descalço do tapete rente. 'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste exalavam as silvas da campina... E ao longe, num pedaço do horizonte, via-se a noite plácida e divina. De um jasmineiro os galhos encurvados, indiscretos entravam pela sala, e de leve oscilando ao tom das auras, iam na face trêmulos -beijá-la. Era um quadro celeste!... A cada afago mesmo em sonhos a moça estremecia... Quando ela serenava... a flor beijava-a... Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia... Dir-se-ia que naquele doce instante brincavam duas cândidas crianças... A brisa, que agitava as folhas verd...

Wender Montenegro - Poema

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delírios do verbo ou arapucas de pegar Manoel ao poeta Manoel de Barros 1 as manhãs me imensam como em Ungaretti arroios me gorjeiam de esplendor lá onde as árvores se garçam e o sol brinca de arvorecer 2 a palavra cansanção tem ardimentos e o menino descalço nem aí pois lhe escuda a voz dos passarinhos esse moleque arteiro estica o sol carrega o cenho do peru no grito 3 bicho danado é maracujá engole a voz das ateiras as mangueiras roubam o sol do chão e o pé de mastruz enverdece os ossos da avó 4 mosca de manga se agiganta no amarelo como Van Gogh borboletas adoçam a aridez dos cactos e o sanhaçu assusta os mamoeiros 5 nas mãos do mar a linha do horizonte tem cerol lá, a pipa do céu cai mais depressa quando as margens da tarde me anoitecem Imagem retirada da Internet: Manoel de Barros

Brasigóis Felício - Ensaio curto

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O poder da sombra Por Brasigóis Felício* O guerreiro da luz, para luzir-se de si, não precisa nem deseja apagar o sol dos outros. Antes, torna mais viva a vida de quem dele se aproxima. E quanto mais o iluminado pela luz do caminho, mais se embriaga da verdade infinita – mesmo sabendo que jamais alcançará a chama, nem sua mente terá ao menos um lampejo da Realidade Última. E também sabe que leva consigo a sombra, como herança de sua própria existência, e de toda a humanidade, desde os primórdios mais remotos: é a sombra coletiva, inerente à dualidade da vida manifesta como matéria - implacável e vingativa, quando negligenciada ou negada. Disto nos falaram mestres de sabedoria – dentre eles um cientista da mente, psiquiatra e místico: o suíço dissidente de Freud, C.G. Jung. De fato, a sombra representa um poder que nã...

Francisco Perna Filho - Poema

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IMBECIL Tinha o rei na barriga, uma fome descomunal, e um milhão de ideias. Enganado pela rainha, provou do próprio veneno e sucumbiu no reino. Imagem retirada da Internet: imbecil

Célio Pedreira - Poema

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20 de novembro, Dia da Consciência Negra NOTÍCIA PARA OS DIAS Algumas mudas de pedras plantadas para dar moradia a monumentos e regadas de ontem nunca floram. Ao meu lado andam vivas flores e perenes que tempo nenhum piedade nenhuma nem leis predem. Habitam-me séculos delas. Imagem retirada da Internet: consciência negra

Monteiro Lobato - Conto

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URUPÊS Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho. Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d'alma e corpo. Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci. Por felicidade nossa - a de D. Antonio de Mariz - não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer. A sedução do ima...