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Mostrando postagens de 2009

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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Carlos Drummond de Andrade Receita de ano novo Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão mati...

Vinícius de Moraes - Poema

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Vinícius de Moraes A brusca poesia da mulher amada Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente... Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte! A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente? Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados... Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias Pousada no fundo estará a estrela, e mais além. Rio de Janeiro, 1938 in Novos Poemas in Antologia Poética in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano" Imagem retirada da Internet: Beijo.

Vinícius de Moraes - Crônica

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Vinícius de Moraes A transfiguração pela poesia Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre. Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido. Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de r...

Vinícius de Moraes - Poema

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Vinícius de Moraes A anunciação Virgem! filha minha De onde vens assim Tão suja de terra Cheirando a jasmim A saia com mancha De flor carmesim E os brincos da orelha Fazendo tlintlin? Minha mãe querida Venho do jardim Onde a olhar o céu Fui, adormeci. Quando despertei Cheirava a jasmim Que um anjo esfolhava Por cima de mim... Montevidéu, 01.11.1958 in Para viver um grande amor (crônicas e poemas) in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu" Imagem retirada da Internet: Jasmin .

Gerardo Mello Mourão - Poema

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Gerardo Mello Mourão NASCIMENTO DE AFRODITE Galpopam os cavalos coroados de rosas pela aurora da China as éguas de esmeralda as poldras de ouro amadurecem, Laura, o jade das laranjas redondas. Caminha agora recorta o azul sobre as águas perplexas. Os cavalos esmorecem ressupinos e em seus cascos nas águas os ginetes pedem às ondas e as ondas suplicadas guardam o milagre: por esse rastro peregrinos do azul do verde das espumas - espera - em torno às flautas aura Laura até o serpentário de teus cabelos de onde virias com - digo virias na virilha flutuas tuas auroras tuas caravelas o sargaço das cristas pois deste mar - ó madrepérola! - tu flor tu fruto coisa de luz coisa de sombra coisa ...

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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Carlos Drummond de Andrade PRIVILÉGIO DO MAR Neste terraço mediocremente confortável, bebemos cerveja e olhamos o mar. Sabemos que nada nos acontecerá. O edifício é sólido e o mundo também. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais. Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano, o que é privilégio dos edifícios. O mundo é mesmo de cimento armado. Certamente, se houvesse um cruzador louco, fundeado na baía em frente da cidade, a vida seria incerta...improvável... Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. In. Sentimento do mundo. 2ª ed..Rio de Janeiro: Record,2002,p41 Imagem retirada da Internet: Drummond .

Heleno Godoy - Poema

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Feliz Natal ! Com este belo poema do professor, tradutor e poeta Heleno Godoy, quero desejar um Feliz Natal a todos os amigos leitores do Banzeiro Textual. Noite de Natal Quem se arriscaria, nesta noite, a um novo palpite: encurtar asas deste anjo rebelde, ampliar rotas de pássaros migratórios? Mas de que nos serviriam menos penas, rotas outras, mais traiçoeiras, um sertão e suas veredas revisitadas por um olhar erroneamente cubista, pois jamais fragmentada aquela linguagem, tão grande em suas múltiplas veredas? Que anjo não deixaria, nesta noite e em todas as outras (pois temos de aturá-lo), novas penas crescerem; que pássaros (temos de admitir) outras fáceis rotas não buscariam? Reconheçamos também assim esta noite: um encurtamento de toscas rotas, um ampliar de duras penas, uma pluralidade de visões integrativas, estas sim, cubistas, no sertão e em todas as suas veredas. Imagem retirada da Internet: Papai Noel .

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski - Conto

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Fiódor Dostoiévski Фёдор Достое́вский (1821-1881) A árvore de Natal na casa de Cristo Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava ...

Francisco Perna Filho - Poema

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Francisco Perna Filho NATAL Eu nunca fiz um poema de Natal, talvez por não sabê-lo, embora compreenda sua simbologia. Sei que o Cristo renasce em cada coração, que as cidades se enchem de luzes coloridas e brilhantes, que os homens tornam-se mais solidários e felizes. Eu sei de tudo isso, mas também sei dos homens empedernidos, das mulheres maltratadas, das crianças abusadas, das trapaças, e das sórdidas armações palacianas. Eu sei de tanta coisa, mas ainda sei tão pouco da vida, talvez esteja aí a minha dificuldade para compor um poema natalino. Seria fácil falar de presentes, desejar votos de felicidades, falar de abraços e sorrisos, de manjedouras e presépios, de um menino que nasce para salvação do mundo. Talvez fosse simples assim, mas a verdade se nos impõe cortante, as cores, apesar indução midiática, são de outras matizes, de menos brilho e bem doídas, como no conto de Dostoievski “A Árvore de Natal na Casa do Cristo”, o...

Ana Maria Machado - Conto

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Ana Maria Machado Burrinho de presépio Desde pequena tinha aprendido a se portar de maneira contida. As freiras faziam questão. Olhos baixos, fala mansa, gestos curtos. Às vezes era difícil segurar. E lá vinham bilhetinhos na sala de aula. Cochichos na fila ao final do recreio. Caretas, piscadelas e risos durante a missa na capela. - Recolhidas como a Virgem na lapinha! - ensinava irmã Vicência. - Vejam e aprendam. Ela está num êxtase de felicidade, no momento mais sublime de sua vida e não fica saltitando nem rindo à toa. Glorinha olhava o presépio e achava que nunca ia aprender. Mais que as figuras humanas envoltas em mantos ao redor da palha da manjedoura, o que a atraía eram os bichos e as crianças, com suas promessas de movimento e alegria. O boi e o burro respirando para aquecer o bebê. Os camelos cobertos de arreios, levando presentes dos Reis Magos. Os carneirinhos peludos trazidos pelos pastores. O galo encarapitado no alto do telhado. Patinhos num lago feito de esp...

Goiamérico Felício - Poema

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Brasigóis Felício AÇOUGUE DAS ALMAS A cidade planeja nossa morte: máquina de nervos e ódio a cidade nos tritura do olho até os ossos. O surdo ruído de suas máquinas insones: a cidade gane, executando suas crianças. A vida, presente nas coisas, é de uma eternidade fragílima e no tempo monetário foi transformada em solidão e tédio. A cidade, máquina de aço e ruídos perfura a vida com seu ódio até o fim dos ossos. In. Hotel do Tempo .Brasigóis Felício.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981,p.82. Imagem retirada da Internet: Indústria .

Murilo Mendes - Poema

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Murilo Mendes Corte transversal do poema A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços. Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça, fica com um braço de fora. Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos. Um anjo cinzento bate as asas em torno da lâmpada. Meu pensamento desloca uma perna, o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados. Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia, um olho andando, com duas pernas. O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem. A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios. Só tenho o outro lado da energia, me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou. In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959 Imagem retirada da Internet: Anjo Safado

Alberto da Cunha Melo - Poema

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Alberto da Cunha Melo FORMAS DE ABENÇOAR Fique aqui mesmo, morra antes de mim, mas não vá para o mundo. Repito: não vá para o mundo, que o mundo tem gente, meu filho. Por mais calado que você seja, será crucificado. Por mais sozinho que você seja, será crucificado. Há uma mentira por aí chamada infância, você tem? Mesmo sem a ter, vai pagar essa viagem que não fez. Grande, muito grande é a força desta noite que vem de longe. Somos treva, a vida é apenas puro lampejo do carvão. No início, todos o perdoam, esperando que você cresça, esperando que você cresça para nunca mais perdoá-lo. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet - Criança .