Paulo Aires Marinho - Crônica



Paulo Aires

SONHOS SUSPENSOS NO ANZOL


Os pescadores da ponte sobre o Lago de Palmas, como os admiro! Toda vez que passo por ali à noite, ao ver mulheres, homens e crianças, praticando esse ofício da paciência, volto ao universo imaginário dos rios, do mar e seus habitantes ocultos.

Todo peixe é místico e é malandro, tem cara de malandro, olhos de malícia, brinca e esnoba da isca, depois deve esconder-se em alguma loca, atrás de pedras e paus, zombando do pescador sem traquejo. Peixe exerce beleza incapturável. Acho engraçado quando dizem que uma pessoa apaixonada fica com olhos de peixe morto; e me pergunto: de que nação de águas turvas ou límpidas contraímos esse desassossego ardente que afeta o coração e os olhos?

Gosto de histórias de pescador, mentiras movediças, invencionices estapafúrdias que rendem gargalhadas, complicações amorosas, pérolas para a vasta enciclopédia popular de aventuras improváveis. Na TV, essa ficção de canoa furada valeria muito mais do que qualquer programa eleitoral. Mas um peixe assado é sempre um convite à gula, até quando se trata de um fugu, como n’O Clube dos anjos, do Veríssimo, o risco de se morrer pela boca, o feitiço contra o feiticeiro. E sabemos que na sociedade dos humanos, há peixes grandes perigosos e há peixes pequenos venenosos.
Ernest Hemingway
Resultado de imagem para o velho e o mar
O Velho Santiago
Sempre estará comigo a imagem obstinada do senhor Santiago, aquele inesquecível pescador de O velho e o Mar, do Hemingway, livro que li na adolescência, com olhos  marejados e coração aflito, como se em alto mar eu estivesse, torcendo por aquele homem cujo maior sonho era fisgar um imenso peixe. Em Santiago reside a humana utopia – esse sol infatigável de olhos diuturnos, a vigília dos seres exilados do Paraíso – que nos arremessa aos perigos do mar, ao labirinto indecifrável de nossos desejos mais ocultos.

Acredito que no Lago de Palmas resida uma multidão de peixes desconhecidos, titãs submersos, prisioneiros de um lago encarcerado, o que antes era o imponente Rio Tocantins. E me interrogo: para aonde vão os peixes-fantasmas que vagueiam pelas ruas de Palmas em dias de dilúvio?Tem meu respeito solene um animal que respira dentro d’água e ainda nada com elegância de bailarina mágica. A traíra e o tubarão são seres emblemáticos, desses eu falo com reserva de sentimento.


Outro dia estive na ponte. Conheci Seu Agenor, um artista do anzol, baixo, corpo franzino, barba cinza, voz pausada e serena. Acredita piamente que já viu tubarão no lago. Tirou o surrado boné da cabeça, olhou pro céu que estava claro, e disse: “Rapaz, por esta luz que alumia meus olhos de setenta e um anos, eu juro, já vi, por várias vezes, um tubarão, um tubarão erado aqui debaixo da ponte.” Concordei. Não havia por que discordar. Preparou a isca, fez um rodopio com o braço direito, jogou o anzol distante. Silenciamos, um silêncio aquático.
Michael Ancher Fisherman from Skagen
Pintura de Michael Anchernar
Peixe é promessa de festa, leio nos olhos de quem pesca. Tem o dom de reconciliar mãos e bocas e corações exasperados pela aventura do cotidiano. Ardilosa antítese entre a morte e a vida. Pescar, descamar, a carne branca ardendo sobre as brasas, a cerveja, o bate-papo, a amizade e o amor fortalecidos; ou espinhos e escamas sufocando a garganta, nunca se sabe ao certo. Nessa tarefa, não raro, a sedução e a ternura sobrevivem e reacendem faíscas atrevidas na cozinha, a materialização destes versos da Adélia Prado: O silêncio de quando nos vimos a primeira vez/ atravessa a cozinha como um rio profundo./ Por fim, os peixes na travessa,/ vamos dormir./ Coisas prateadas espocam:/ somos noivo e noiva.

Com insuspeita fidelidade, todos os dias, há pescadores na ponte. Terapia? Paixão pelo ofício? Batalha contra os caprichos da fome? Cada um com sua motivação. Seu Agenor sonha pegar um peixe graúdo, talvez um tubarão, acredita que um dia isso acontecerá. Um grande peixe, penso, é assunto inerente à nossa fome de horizonte marítimo. E depois de um sonho domado, outros sonhos virão, outros labirintos e novas fomes.

Fosse eu um pescador, gostaria de anzolar uma corvina, peixe bonito e saboroso, que conduz uma pedra na cabeça – a pedra da memória guarda histórias proibidas e paixões extravidas. Entre piabas e tubarões, a vida cumpre seu calendário de água corrente e reboja um comboio de indagações. São quase dez da noite. Deixo a ponte e seus pescadores. A fome bate. Sonho com uma fumegante bandeja de peixe a um milímetro do meu nariz.

Procuro um restaurante, um quiosque, um boteco. A fome aumenta. As rotatórias me deixam zonzo como um peixe suspenso no ar, rodopiando num anzol invisível. Mais rotatórias. O traço da cidade é sisudo, não quis aprender do Rio Tocantins a geografia das águas, antes das barragens. Não soube colher a sensualidade dos peixes às vésperas da piracema.  A fome é madrasta de todos os sabores, comeria até os olhos e as vísceras de um fugu. Ainda perguntarei ao Seu Agenor: Mestre, é verdade mesmo que existe tubarão no lago, ou é só história de pescador?
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Paulo Aires Marinho é poeta e escritor. Autor dos livros Cantigas de Resistência, O Beijo de Vesúvio e Perto do Fogo.



REVISTA BANZEIRO - a poesia em movimento: Poema de Pedro Tierra (Hamilton Pereira)


Poema de Pedro Tierra (Hamilton Pereira)


Pedro Tierra


A morte anunciada de Josimo Tavares



1.

Há um dizer antigo
entre os homens da raça dos rios:
a morte quando se anuncia,
devora a sombra do corpo
e inventa a luz da solidão.

Você se afastou sob o sol.
Era 14 de abril.
Busquei-lhe a sombra
sobre o chão da rua
e não havia sombra.

Ainda busquei tocá-lo.
Falamos da vida
               e da morte
(a arma que me matará
já está na oficina...)
E você sorria manso
desde a defendida
solidão dos místicos.
Falamos da luta
e da necessidade de prosseguir
(os tecelões da morte
forçam os teares,
arrematam os fios
do tecido que te cobrirá...)
Imagem: http://www.torange-pt.com
2.
Incendiaram nossas casas.
Destruíram plantações.
Saquearam celeiros.
Derrubaram cocais.
Envenenaram as águas.

Invadiram povoados.
Torturaram nossos pais.
Arrancaram as orelhas dos mortos.
Atiraram nos rios corpos mutilados.
Derrubaram a cruz que erguemos,
sinal aceso da nossa memória.

Cortaram a língua dos nossos irmãos.
Violaram nossas filhas.
Assassinaram inválidos.
Queimaram crianças de colo.
Cercaram a sangue e fogo
a terra que trabalhamos.

Quem emprestará a voz
ao idioma do perdão
e protegerá com súplicas
o riso dos assassinos?!

Aniquilaram a raiz da esperança.
Esgotou-se o tempo de tolerar
e desatou-se a hora da vingança:
o primitivo nome da justiça.

3.

Todos sabiam dessa morte.
A cerca do latifúndio
                                 sabia.
Os pistoleiros, os assalariados da morte,
a polícia fardada e paisana, o GETAT,
os garimpeiros, os bêbados, as prostitutas,
as professorinhas, as beatas,
as crianças brincando no areal da rua
                                                             sabiam.

Os homens da terra, os posseiros, os saqueados,
as mulheres alfabetizadas pela dor
e pela espera
                         sabiam.

O prefeito, o juiz, o delegado, a UDR,
os fazendeiros, os crápulas
                                            sabiam.

As mãos dos assassinos
poliam as armas.

A Igreja sabia
                      e esperava...

A haste orgulhosa do babaçu
                                       sabia.
E dobrava as palmas num lamento
e multiplicava a ciência dessa morte,

os passarinhos, o relógio dos templos
mastigando o comboio das horas
e não se deteve, a água dos rios
não se deteve, fluindo irremediável
a hora dessa morte.

A pedra dos caminhos
                            sabia
e permaneceu muda,
o vento sabia
e anunciava seu gemido todavia
indecifrável.

Tuas sandálias sabiam
                                        e continuaram a caminhar.

Eu, que nasci votado à alegria
e vivo a contar o rosário interminável
dos mortos
não fiz o verso
espada de fúria,
que cindisse em dois
o comboio das horas
e descarrilasse o tempo de tua morte.

Você sabia.
E sorria
             apenas.
Como quem se lava
para chegar vestido
de algodão
                     e transparência
à hora da solidão.
Imagem: http://www.phaidon.com
4.

Quem é esse menino negro
que desafia limites?

Apenas um homem.
Sandálias surradas.
Paciência e indignação.
Riso alvo.
Mel noturno.
Sonho irrecusável.


Lutou contra cercas.
Todas as cercas.
As cercas do medo.
As cercas do ódio.
As cercas da terra.
As cercas da fome.
As cercas do corpo.
As cercas do latifúndio.


Trago na palma da mão
um punhado da terra
que te cobriu.
Está fresca.
É morena, mas ainda não é livre
como querias.
Sei aqui dentro
que não queres apenas lágrimas.
Tua terra sobre a mesa
me diz  com seu silêncio agudo
     Meu sangue se levantará
como um rio acorrentado
e romperá as cercas do mundo.

Um rio de sangues convocados
atravessará tua camisa
e ela será bandeira
sobre a cabeça dos rebelados.

Goiânia, maio de 1986.   


Um Escritor em Ascensão. Entrevista com o Premiado Jádson Barros.

  

Escritor Jádson Barros Neves - Arquivo Pessoal
   

      Tocantinense de Guaraí, Jádson Barros Neves vem se consolidando como um dos nossos melhores ficcionistas. Autor do livro Consternação, com o qual foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura, ele já conquistou mais de uma dezena de prêmios, dentre eles, o "Prêmio Cidade de Belo Horizonte", o "Prêmio João Guimarães Rosa", da RFI.  Nesta entrevista, com exclusividade para Revista Banzeiro, ele fala da infância, das leituras formadoras, e da paixão pela escrita. 

                                       

"Posso ser um escritor conhecido hoje e esquecido amanhã. Veja o caso do português Cardoso Pires, por exemplo. Vivemos numa sociedade que atribui o sucesso de uma pessoa ao barulho que ela faz. Seria o livro “A civilização do espetáculo”, no livro de Vargas Llosa ou “A sociedade do espetáculo”, de Guy Debord, em outro contexto." 


 Entrevista Concedida a Francisco Perna Filho


 Depois de longos anos lendo muito, escrevendo e refletindo sobre o fazer literário, o senhor publicou o seu primeiro livro, Consternação, finalista do Prêmio Jabuti, considerado pela crítica como uma verdadeira aula de escrita e que tem despertado muitos elogios e, claro, admiração. Por que demorar tanto tempo para publicar, quando é sabido que, há muito, se quisesse já o teria feito, haja vista os inúmeros prêmios importantes que ganhou, como, por exemplo, o Prêmio Guimarães Rosa da Rádio France Internationale, Prêmio Cidade de Belo Horizonte, só para destacar dois?


Jádson Barros Neves - Comecei a escrever bem cedo, ainda com uns 11, 12 anos. Escrevia quando desenhava e ganhava prêmios de desenho. Depois, de uma hora para outra, deixei o desenho. E, por um breve período de tempo, arrisquei tocar uns dois instrumentos musicais. Lembro quando toquei flauta. Perdi o interesse também pela música, sem deixar de ouvi-la. Beethoven, por exemplo. Ouvia a 9ª naqueles LP’s enormes, em tardes em que todos estavam dormindo na cidade – hoje é impossível dormir de tarde, de tanto barulho – e a música saía de minha casa, para a rua. Então, foi a partir daí que comecei a escrever, na escola. Muito timidamente. Não mostrava nada a ninguém. Pensava em termos de imagens e de música. Daí, talvez a razão de quase sempre, ao imaginar uma história, pensá-la em termos imagéticos e acompanhados por uma música. Mas voltemos à pergunta: o primeiro concurso “de verdade” que ganhei foi o Gremi, que acontecia na primavera, em Inhumas. Foi em 1986. Ganhei um 1º e um 2º lugares. O conto do primeiro lugar, eu os resgatei, submeti-o a um amigo, que o achou publicável. É o que está no livro sob o título de “O prêmio de Martim.” Pela ordem, seria meu primeiro conto. Na verdade, nunca havia me preocupado em publicar. Kafka publicou tão pouco... Cheguei a pensar em adotar um pseudônimo e seguir com ele, como o fez Neruda. E ganhei os concursos mencionados. E alguns amigos me perguntavam por que eu não publicava. Houve uma época em que andei muito empenhado em procurar uma editora, quando morava em Fortaleza. Enviei os originais de meu livro para várias. E elas me devolviam a carta-padrão, onde informavam o “valor” da obra e o “não poder” publicar no momento. Diziam para eu procurar outras, mas eu já havia procurado “outras”. E o livro ficou e fui ganhando mais concursos. Eu achava, de boa fé, que um dia ele sairia, sem ser preciso gastar com a publicação dele. Gastar com a editora. Acontece que continuaram perguntando por que eu não publicava. Eu respondia que não encontrava editoras. Depois, comecei a ver o caso de autores famosos que tiveram uma grande dificuldade em publicar o primeiro livro. E me lembrei de um autor, Imre Kertész, que ganhou o Nobel em 2002. O primeiro livro dele, “Sem destino,” é sobre as experiências de um garoto de 15 anos nos campos de extermínio. O Kertész, à maneira do garoto do livro dele, ficou mais de um ano prisioneiro dos nazistas e quase morreu. Quando ele voltou para a Hungria e ficou anos (acho que 10 anos) escrevendo o livro e cuidando da sobrevivência, não encontrou editora. Diziam que o tema dele – O Holocausto – não interessava aos editores. Por essa época em que lia Kertész, 2012, um amigo pegou meu livro e procurou editoras para mim. Tive essa sorte. Procurou lá fora. Muitas recusaram. Daí, foi publicado e lançado em Porto Alegre, em novembro de 2013.    

Escritor Imre Kertész

   
     Nos seus contos, e aqui estou falando de Consternação, a realidade representada é própria da sua região: Tocantins e parte do Pará, são garimpeiros, pistoleiros e gente sofrida, aos representá-los e ambientá-los assim, o senhor parece ter consciência daquilo que Ezra Pound chama de função social do escritor (conceito também encontrado em Antonio Candido), o que se daria na proporcionalidade da competência de quem escreve, uma vez que a Literatura não existe num vácuo. Fale um pouco sobre isso.

Jádson Barros Neves - Não sei se é verdade sobre a realidade representada ser de minha região. Não há evidências no livro; há mais reticências do que certezas. Apenas um dos contos, “A toalha”, tem como cenário uma cidade onde vivi e que não vejo há mais de 25 anos e que não fica no Pará nem no Tocantins. Essa realidade, se existe, está na minha imaginação ou foi inventada ou sonhei com ela. Não creio muito nessa função social de um livro, do meu livro, para ser mais franco. As pessoas dizem: “Você é um escritor do Norte, assim e assado.” Meu novo livro de contos não tem nada daqui. Nem o sol. Daí, fico pensando se não faço literatura como uma forma de fuga, de refúgio ou negação de uma realidade onde estou inserido ou vivendo. Se criar não é esse ato. Quando escrevia meus primeiros textos, eu o fazia para escapar da solidão. Hoje, o faço pela literatura, por gostar de escrever e sentir que, ao escrever, quando estou escrevendo “de verdade”, à margens de prêmios literários – que não passam de uma consequência ou sequência de meu trabalho – é que tudo em minha vida parece funcionar melhor, caminhando num rumo que poderíamos falar em felicidade ou coisa semelhante, tanto quanto fazer amor com uma mulher que se ama, uma longa caminhada, uma longa noite de sono e restauração. Não vejo outras metáforas para esse engajamento – meu, penso que meu – com a escrita.

jadson
Escritor Jádson Barros Neves - Foto CBN-TO
Ainda sobre Consternação, os seus personagens passeiam de um conto para o outro, de um lugar para outro, compondo uma tessitura muito bem trabalhada, sem falar na sua cosmologia literária, sempre um lugar isolado, quase que paupérrimo, onde não há lei, a justiça é feita pelas mãos dos “pistoleiros sociais”. Como ser universal na sua singularidade?

Jádson Barros Neves - Se partirmos agora para o segundo conto do livro – tenho outros, não incluídos no livro e da mesma época e nem por isso menores –, teríamos “Exilados” e, como consequência desse conto, “Entre eles, os corrupiões.” “Exilados”, eu o comecei a escrever na casa de uma amiga de Cuiabá, numa visita que fiz a ela, a Maria Teresa Carrión Carracedo, dona da “Entrelinhas Editora”, nas férias de junho/julho de 1994. Mostrei um parágrafo para ela, que o achou bom. Continuei escrevendo o conto num caderno pequeno e, quando o caderno acabou, numerei as páginas dele, para não me perder, e retomei o conto em outro caderno. Na volta das férias, já em Goiânia, dei uma passada pela UBE, na Av. Goiás, para ver o mural com os regulamentos dos concursos literários. Vi o Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, da RFI e a notícia num jornal de que um escritor goiano havia ficado entre os 30. Da UBE mesmo, telefonei para ele, que me enviou o regulamento do concurso da RFI via fax. Já é do lendário, do fabulário daqui, que o conto “Exilados” foi enviado para um concurso local, voltou todo rabiscado e, no concurso da RFI recebeu uma das duas menções honrosas. Eu havia deixado dois personagens, Mábio e Débora, presos a uma cidade e precisava de uma desculpa para que eles voltassem para a cidade de origem deles. Foi assim que nasceu o segundo conto, “Entre eles, os corrupiões.” E o mandei para o mesmo concurso tocantinense. Parece que o conto ganharia uma menção honrosa, com o título abominável que tinha, “Carrasco bonito.” O título “Entre eles, os corrupiões” foi coisa do Altair Martins, que gostou do conto, mas não do título. E, é fato, o conto seria o segundo lugar no Concurso Internacional de Contos da RFI/2000. É verdade, também, que eu morava em Goiânia, quando do concurso, e coloquei o endereço do Tocantins. Pensava, dessa forma, dar um susto naquela pessoa sisuda que devolvera “Exilados” todo riscado, como se fosse uma redação de colegial. Foi dessa forma que nasceram os personagens que andam por alguns dos contos. Gostei de brincar com eles, levando-os de história em história. Como pode ver, acabam no livro. Meu novo livro segue quase a mesma estrutura do outro, com outra paisagem, personagens que entram e saem em histórias diferentes e o livro tendo contos curtos como ponte entre um e o outro. Mas isso não é invenção minha. Faulkner já o fez melhor e Onetti também. Mas acho que vi os primeiros resplendores desse tipo de “achado” em García Márquez.    


Consternação - Jádson Barros Neves (8561878266)
Capa do Livro Consternação - finalista do Prêmio Jabuti
Autran Dourado, um dos maiores autores da literatura universal, no seu livro “Breve Manual de Estilo e Romance”, reflete sobre o seu fazer literário, e diz que uma das coisas mais difíceis para quem escreve é atingir a simplicidade.  Como o senhor traduz essa afirmação?

Jádson Barros Neves - Acho que foi Hemingway quem disse, talvez por ciúmes, que Faulkner escrevia difícil porque não sabia escrever fácil. Parece que Faulkner respondeu dizendo que escrevia difícil para não verem a superficialidade – na qual creio cada vez menos – de sua obra. Todo mundo fala nessa tal simplicidade como se fosse uma questão de olhar através de um pedaço de vidro: se está fosco, a imagem é difusa; se está limpo, a imagem é límpida. Fico me perguntando para quem Guimarães Rosa é considerado difícil e Clarice não o é. Um dia comprei um livro com o léxico de Guimarães Rosa e um amigo me disse que era tolice, que ler era uma aventura, que eu não precisava disso. Quem escreve, quem quer escrever, precisa de pouca coisa: um caderno e esferográficas são de serventia para mim. Vargas Llosa, por exemplo, escreve em cadernetas; Onetti escrevia em pequenos pedaços de papel, que depois ia transformando de forma bem organizada nos intrincados contos dele. Borges dizia que publicava para não ficar a vida inteira alterando um conto. Sob a casca de sua profunda simplicidade, fico imaginando o quanto ele é profundo. Se a simplicidade a que se refere for a de Borges, teríamos de reanalisar a obra dele, metida na tal simplicidade; sendo a de Guimarães Rosa, teríamos uma pessoa do interior de Minas dizendo que consegue entender bem o autor mineiro.


 
Escrito Jádson Barros Neves - Arquivo pessoal.
    Ezra Pound, no ABC da Literatura, assim se manifesta: “A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso do animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia. Se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai.” Partindo dessa afirmação de Pound, como o senhor vê o atual estágio da Literatura Brasileira?

Jádson Barros Neves - Não saberia falar sobre a literatura brasileira atual. Conheço alguns escritores “de verdade”, não necessariamente brasileiros. Talvez em trinta anos eu possa olhar para trás e ver essa literatura de hoje.  

como foi para o senhor, sendo de um Estado periférico, furar o bloqueio dos grandes centros literários e vencer prêmios como os já mencionados acima?

Jádson Barros Neves - Se você deseja realmente se afogar, precisa nadar no oceano. Se não conseguir, pelo menos uma insolação danada vai pegar e conseguir rever o que fez. Os bloqueios maiores, como afirmei, sempre existiram quando me fixei em “tentar ser um escritor local.” Lá fora – embora eu tenha vivido anos lá fora – nunca sofri bloqueios. Não nos prêmios que exigiram pseudônimos, como a maioria dos concursos de que participei. Quando o assunto é editora, vejo que a coisa continua na mesma, ou quase na mesma. É difícil para todos encontrar uma boa editora.

Vencer lá fora, não é fácil, e no seu Estado, o senhor se sente valorizado? O que o senhor tem a dizer sobre a Literatura produzida no Tocantins?

    Jádson Barros NevesAconteceram muitas coisas efetivamente boas, depois da publicação de “Consternação”. Não sei até quanto um autor pode entender que se sente valorizado. Essa coisa de sucesso, bem o sabemos, é passageira. Não podemos e nem devemos nos apegar a isso. Posso ser um escritor conhecido hoje e esquecido amanhã. Veja o caso do português Cardoso Pires, por exemplo. Vivemos numa sociedade que atribui o sucesso de uma pessoa ao barulho que ela faz. Seria o livro “A civilização do espetáculo”, no livro de Vargas Llosa ou “A sociedade do espetáculo”, de Guy Debord, em outro contexto.

Mario Vargas Llosa Escritor Peruano

    Sei que há pouco dias li um livro de Nicholas Carr, e acho que voltei a ser leitor, como Borges, que dizia que queria ser conhecido pelos livros que lera e não pelos que escrevera. Para a segunda parte da pergunta, eu precisaria de mais trinta anos. 

Francisco Perna Filho - Poema


Especulação



Estava ali, o terreno intato,
Golpeado a lâmina sem nenhum respeito,
Censurado pelas casas vizinhas
Sofrendo sem sequer emitir um grito.

O homem veio para apreciá-lo
Mas beleza ele não tinha não:
acidentado, sujo, cheio de ervas,
só serviria para especulação.

Tão preso ao chão, ele imprimia estilo,
de chão batido e dureza autêntica,
queimaram-lhe a pele sem nenhum cuidado
cercaram-lhe o corpo com arame ardente

ficou assim, sem reclamar de nada
por um bom tempo amargurou desertos
sentiu-se só e planejou ir embora
numa segunda feira desapareceu.



José Saramago - CONTO




                                                                                  
Embargo 


Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro d seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro.

Disse à mulher que não se levantasse, que aproveitasse um pouco mais da manhã, e escorregou para o ar frio, para a humidade indefinível das paredes, dos puxadores das portas, das toalhas da casa de banho. Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Na queria acordar a mulher. Um cheiro fresco de água-de-colônia avivou a penumbra, e isso fez que a mulher suspirasse de prazer quando o marido debruçou-se na cama para lhe beijar os olhos fechados. E ele sussurrou que não viria almoçar a casa.

Fechou a porta e desceu rapidamente a escada. O prédio parecia mais silencioso que de costume. Talvez do nevoeiro, pensou. Reparara que o nevoeiro era assim como uma campânula que abafava os sons e os transformava, dissolvendo-os, fazendo deles o que fazia com as imagens. Estaria nevoeiro. No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer.

O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arruma-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem.

Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreite e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples.

Distraído com o incidente, ainda não olhara o marcador da gasolina. Ter-lhe-iam roubado durante a noite, como já não era a primeira vez? Não. O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido , para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso. Mas, na verdade, sempre se considerara muito melhor condutor do que o comum. Questão de boa disposição, esta agilidade dos reflexos hoje, talvez excepcional. Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento,  lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco  conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança.

Olho o relógio. Deviam estar à frente uns vinte carros. Nada de exagerado. Mas pensou que seria melhor ir ao escritório e deixar as voltas para a tarde, já cheio o depósito, sem preocupações. Baixou o vidro para chamar um vendedor de jornais que passava. O tempo arrefecera muito. Mas ali, dentro do automóvel, de jornal aberto sobre o volante, fumando enquanto esperava, havia um calor agradável, como o dos lençóis. Fez mover os músculos das costas, com uma torção de gato voluptuoso, ao lembrar-se da mulher ainda enroscada na cama àquela hora, e recostou-se melhor no assento. O jornal não prometia nada de bom. O embargo mantinha-se. Um Natal escuro e frio, dizia um dos títulos. Mas ele ainda dispunha de meio depósito e ao tardaria a té-lo cheio. O automóvel da frente avançou um pouco. Bem.

Hora e meia mais tarde estava a atestar , e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava restrições rigorosas. Enfim, do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.

De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas. Que disparate. Agora avaria. O automóvel da frente avançou. Receosamente, a contar com o pior, engatou a primeira. Tudo perfeito. Suspirou de alívio. Mas como estaria a marcha atrás quando tornasse a precisar dela? 

Cerca de meia hora depois metia meio litro de gasolina no depósito, sentindo-se ridículo sob o olhar desdenhoso do empregado da bomba. Deu uma gorjeta absurdamente alta e arrancou num grande alarido de pneus e acelerações. Que diabo de ideia. Agora ao cliente, ou será uma manhã perdida. O carro estava melhor do que nunca. Respondia aos seus movimentos como se fosse um prolongamento mecânico do seu próprio corpo. Mas o caso da marcha atrás dava que pensar. E eis que teve que pensar mesmo. Uma grande camioneta avariada tapava todo o leito da rua. Não podia contorná-la, não tivera tempo, estava colado a ela. Outra vez a medo, manejou a alavanca, e a marcha atrás engrenou com um ruído suave de sucção. Não se lembrava de a caixa de velocidades ter reagido dessa maneira antes. Rodou o volante para esquerda, acelerou, e de um só arranco o automóvel subiu o passeio, rente aa camioneta, e saiu do outro lado, solto, com uma agilidade de animal. O diabo do carro tinha sete fôlegos. Talvez que por causa de toda essa confusão do embargo, tudo em pânico, os serviços desorganizados tiveram feito meter nas bombas gasolina de muito maior potência. Teria a sua graça.

Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro. Gasolina queimada sem proveito. Enfim, o depósito estava cheio. Num largo ao fundo da rua por onde descia viu outra fila de automóveis, à espera de vez. Sorriu de gozo e acelerou, decidido a passar roncando contra os entanguidos automobilistas que esperavam. Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que cisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio? Ficou a olhar os diversos mostradores, a apalpar o volante custando-lhe a reconhecer o carro, e nessa sucessão de gestos puxou o retrovisor e olhou-se no espelho. Viu que estava perplexo e considerou que tinha razão. Outra vez pelo retrovisor distinguiu um automóvel que descia a rua, com todo o ar de vir colocar-se na fila. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo.

Tinha passado mais de vinte minutos quando fez avançar o carro até à bomba. Viu chegar-se o empregado e a voz apertou-se-lhe ao pedir que atesta-se o depósito. No mesmo instante, fez uma tentativa para fugir à vergonha, meteu uma rápida primeira e arrancou. Em vão. O carro não se mexeu. O homem da bomba olhou desconfiado, abriu o depósito, e, passados poucos segundo, veio pedir o dinheiro de um litro, que guardou resmungando. No instante logo, a primeira entrava  sem qualquer dificuldade e  o carro avançava, elástico, respirando pausadamente. Alguma coisa não estaria bem no automóvel, nas mudanças, no motor, em qualquer sítio, diabo levasse. Ou estaria ele a perder a suas qualidades de condutor? Ou estria doente? Dormira ainda assim bem, não tinha mais preocupações da vida que em todos os outros dias dela. O melhor seria desistir por agora de cliente, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do caro vibravam rapidamente, não à superfície, mas no interior dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber por quê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse das outras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça. Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair.

Julgou que a aba da gabardina se prendera, que a perna ficara entalada na coluna do volante, e fez outro movimento. Ainda procurou o cinto de segurança, a ver se o colocara sem dar por isso. Não. O cinto estava pendurado ao lado, tripa negra e mole. Disparate, pensou. Devo estar doente. Podia mexer livremente os braços e as pernas, flectir ligeiramente o tronco consoante as manobras, olhar para trás, debruçar-se um pouco para a direita, para o cacifo das luvas, mas as costas aderiam ao encosto do banco. Não rigidamente, mas como um membro adere ao corpo. Acendeu um cigarro, e de repente preocupou-se com o que diria ao patrão se assomasse a uma janela e o visse ali sentado, dentro do carro, a fumar, sem nenhuma pressa de sair. Um toque violento de claxon fé-lo fechar a porta, que abrira para a rua. Quando o outro carro passou, deixou descair lentamente a porta outra vez, atirou o cigarro fora e, segurando-se as mãos ambas ao volante, fez um movimento brusco, violento. Inútil. Nem sequer sentiu dores. O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso. Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina.

Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia. Manobrou para desencostar, rapidamente, deixando a mão à porta para fechá-la, e desceu a rua o mais depressa que podia. Tinha um fito, um objectivo muito definido que j;a o tranqüilizava e tanto que se deixou ir com um sorriso que aos poucos lhe abrandara a aflição. 

Só reparou na bomba de gasolina quando lhe ia a passar pela frente. Tinha um letreiro que dizia "esgotado, e o carro seguiu, sem o mínimo desvio, sem diminuir a velocidade. Não quis pensar no carro. Sorriu mais. Estava a sair da cidade, eram já os subúrbios, estava perto o sito que procurava. Meteu por uma rua em construção, virou à esquerda e à direita, até uma azinhaga deserta, entre valados. Começava a chover quando parou o automóvel. 

A sua ideia era simples. Consistia em sair de dentro da gabardina, torcendo os braços e o corpo, deslizando para fora dela, tal como faz a cobra quando abandona a pele. No meio de gente não se atreveria, mas, ali, sozinho, com um deserto em redor, só longe a cidade que se escondia por trás da chuva, nada mais fácil. Enganara-se, porém. A gabardina aderia ao encosto do banco, do mesmo modo que ao casaco, à camisola de lã, à camisa, à camisola anterior, à pele, aos músculos, aos ossos. Foi isso que pensou não pensando quando daí a dez minutos se retorcia dentro do carro, a chorar. Desesperado. Estava preso no carro. Por mais que se torcesse para fora, para a abertura da porta, por onde a chuva entrava emperrada por rajadas súbitas e frias, por mais que fincasse os pés na saliência alta da caixa de velocidades, não conseguia arrancar-se do assento. Com as duas mãos segurou-se ao tejadilho e tentou içar-se. Era como se quisesse levantar o mundo. Diante dos seus olhos, os limpa-vidros, que sem querer pusera em movimento no meio da agitação, oscilavam com um ruído seco, de metrônomo. De longe veio o apito da fábrica. E logo a seguir, na curva do caminho, apareceu um homem pedalando numa bicicleta, coberto com uma grande folha de plástico preto, por onde a chuva escorria como sobre a pele de uma foca. O homem que pedalava olhou curiosamente para dentro do carro e seguiu, talvez decepcionado ou intrigado, por ver um homem sozinho, e não o casal que de longe lhe parecera. 

O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso dessa maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali. À força não podia ser. Talvez numa garagem? Não. Como iria explicar? Chamar a polícia? E depois? Juntar-se ia gente, tudo a olhar, enquanto a autoridade evidentemente o puxaria por um braço e pediria ajuda aos presentes, e seria inútil, porque o encosto do banco docemente o prenderia a si. E viriam os jornalista, os fotógrafos, e ele seria mostrado metido no seu carro em todos os jornais do dia seguinte, cheio de vergonha como um animal tosquiado à chuva. Tinha de arranjar outra maneira. Desligou o motor e sem interromper o gesto atirou-se violentamente para fora, como quem ataca de surpresa. Nem um resultado. Feriu-se na testa e na mão esquerda, e a dor causou-lhe uma vertigem que se prolongou , enquanto uma súbita e irreprimível vontade de urinar se expandia, libertando interminável o líquido quente que vertia e escorria entre as pernas para piso do carro. Quando tudo isso sentiu, começou a chorar baixinho, num ganido, miseravelmente, e assim esteve até que um cão, vindo da chuva, veio ladrar-lhe, esquálido e sem convicção, à porta do carro. 

Embraiou devagar,  com os movimentos pesados de um sonho de cavernas, e avançou pela azinhaga fazendo força para não pensar, para não deixar que a situação se lhe figurasse num entendimento. De um modo vago sabia que teria de procurar alguém que o ajudasse. Mas quem poderia ser? Não queria assustar a mulher, mas não restava outro remédio. Talvez ela conseguisse. Ao menos não se sentiria tão desgraçadamente sozinho. 

Voltou a entrar na cidade, atento aos sinais, sem movimentos bruscos no assento, como se quisesse apaziguar os poderes que o prendiam. Passavam das duas horas e o dia escurecera muito. Viu três bombas de gasolina, mas o carro não reagiu. Todas tinham o letreiro de "esgotado". À medida que penetrava na cidade, ia vendo automóveis abandonados em posições anormais, com os triângulos vermelhos colocados na janela de trás, sinal que noutras ocasiões seria de avaria, mas que significava, agora, quase sempre, falta de gasolina. Por duas vezes viu grupos de homens a empurrar automóveis para cima dos passeios , com grandes gestos de irritação, debaixo da chuva que não parara ainda. 

Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho. 

A mulher descera como sempre andava em casa, nem sequer lembrara de trazer um guarda-chuva e agora estava entreportas, indecisa, desviando sem querer os olhos para um rato morto na berma do passeio, para o rato mole, de pelo arrepiado, hesitando em atravessar o passeio debaixo da chuva, um pouco irritada contra o marido que a fizera descer sem motivo, quando poderia muito bem ter subido a dizer o que queria. Mas o marido acenava de dentro do carro e ela assustou-se e correu. Deitou a mão ao puxador, precipitando-se para fugir à chuva, e quando enfim abriu a porta e viu diante do seu rosto a mão do marido aberta empurrando-a sem lhe tocar. Teimou e quis entrar, mas ele gritou-lhe que não, que era perigoso, e contou-lhe o que acontecia, enquanto ela encurvada recebia nas costas toda a chuva que caía e os cabelos se lhe desmanchavam, e o horror lhe crispava a cara toda. E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da   parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a aver que não demora nada. 

Mas quando ela desapareceu na escada, ele tornou a imaginar-se rodeado de gente, o retrato nos jornais, a vergonha de se ter urinado pelas pernas abaixo, e esperou ainda uns minutos. E quando em cima a mulher fazia telefonemas para toda a parte, para a polícia, para o hospital, lutando para que acreditassem nela, e não na sua voz, dando seu nome e o do marido, a cor do carro, e a marca, e a matrícula, ele não pôde agüentar a espera e a imaginação, e ligou o motor. Quando a mulher tornou a descer, o automóvel já desaparecera e o rato escorregara da berma do passeio, enfim, e rolava na rua inclinada, arrastado pela água que corria dos algeroses. A mulher gritou, mas as pessoas tardaram a aparecer e foi muito difícil de explicar.

Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar. Numa avenida muito longa e larga, quase sem outro trânsito, o carro da polícia acelerou e ultrapassou-o, e quando o ultrapassava um guarda fez-lhe sinal para que parasse. Mas ele teve outra vez medo e não parou. Ouviu atrás de si a sereia da polícia e viu, também, vindo não soube donde, um motociclista fardado quase a alcançá-lo. Mas o carro, o seu carro, deu um rondo, um arranco poderoso e saiu, de um salto, logo adiante, para o acesso duma auto-estrada. A polícia seguia-o de longe, cada vez mais longe, e quando a noite se fechou não havia sinais deles, e o automóvel rolava por outra estrada. 

Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia declinando sucessivamente, alterando as consoante e as vogais, num exercício in consciente e obsessivo que o defendia da realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas, de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou sair devagarinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a um acordo de pazes e fosse a altuar de tirar a prova da boa-fé de cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir. 

Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente , arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava, com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara. 

A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os  olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as pedras. A chuva recomeçara a cair.

In. Objecto quase, 1978.
Mantem-se a grafia original do autor - Português de Portugal.

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