Murilo Mendes - Poema


Forma e essência



Podeis vê-la contra a luz;
é um manequim de folhas,
Uma cariátide  que se move
Poucos vestígios do humano.

Entretanto é uma mulher.
Mulher que ri, cose e dança,
E também abre janelas.

Poucos vestígios do humano:
Sei entretanto que à noite
Fala a um ente imaginário.
Move a caixinha de música,
Despertando assim a criança
Que inda dorme dentro dela.

Imagem retirada da Internet: caixa de música.

Francisco Perna Filho





Este poema foi feito há algum tempo, bem antes de algumas mudanças significativas. Hoje Goiânia é uma bela cidade, mas, não diferente das outras metrópoles, traz as suas mazelas, o medo, os desencontros e desilusões. 
Parabéns, Goiânia! 

Goiânia 

Goiânia,
ouço o teu grito,
como num eco, repetidas vezes,
nesse corredor vazio da Avenida Anhanguera,
nas mortes irrelevantes da
 Rua 90,
nos banheiros pobres da periferia
encardidos de amor barato,
de retalhos e esperanças,
cheirando a naftalina e eucalipto.
Eu contabilizo a tua dor
Nos barracões de lona preta
Nas casas sem porta
E nas goteiras da tua ilusão.
Eu vejo o olhar iluminado do césio 137,
pelas ruas esburacadas do nosso desencontro, e,
deslumbrado, contemplo a natureza morta
nas tuas curvas e viadutos.

Eu choro o teu abandono,
o teu desprezo,
a tua impotência,
nos olhos paralisados dos meninos de rua,
tão vermelhos quanto os semáforos da Avenida Mutirão,
mastigados pela cola que os consome.

Eu sofro com os teus vagidos
nas obscuras celas dos teus presídios e manicômios,
e na pálida alegria das tuas garotas de programa,
ao se sentirem importantes nas páginas dos classificados,
postadas como estampas de alguma correspondência barata.

Vejo-a daqui de cima, do Morro do Além,
e a fumaça que sobe dos teus prédios é da cor da alma dos teus algozes.
Vejo os teus mortos e desabrigados,
desiludidos e aviltados,
chorosos e maledicentes ao se virem enxotados de suas ilusões.

Goiânia,
Talvez o meu canto, de natureza triste,
de escombros e revoltas,
Pareça uma ofensa, mas não.
O teu lado belo, da Art Déco, todos conhecem.
As tuas praças floridas,
Tuas avenidas,
Os bairros nobres e condomínios fechados,
Já não são novidades.
Os teus hospitais, centros de excelência,
Tuas catedrais,
Teus palácios,
Tudo isso nos enche de orgulho,
Mas não podemos quedar-nos diante do feio,
Da corrupção,
Do desmantelo.

Goiânia,
A tua história é canto de toda gente,
De todos os cantos,
De todos os povos,
Que aqui chegaram,
Vindos de outras terras,
Com olhares vários,
Com sonhos, costumes e tradições,
Deixando para trás o berço,
A família e o olhar,
Porque foste a eleita e,
Por ser assim, é que te queremos mais amada,
Menos amarga,
Porque fazes parte do mundo,
Porque trazes uma parte e uma fala de cada povo,
E em ti estão as feições de uma sociedade cosmopolita.

Affonso Romano de Sant'Anna - Poema


Casamento

Essa mulher que há muito dorme ao meu lado
vai, como eu, morrer um dia.
Estamos deitados para sempre
conversando
Como nas manhãs preguiçosas de domingo,
como nas noites em que voltamos das festas
e nos despimos comentando as pessoas, roupas e comidas,
e depois adormecidos nos pomos
a entrelaçar os sonhos
num diálogo imóvel
que nenhuma morte pode interromper.


In. Poesia reunida (Aprendizagem do amor). Porto alegre: LPM, 2004, p.190.
Imagem retirada da Internet: married

José de Abreu Albano - Poema



"Amar é desejar o sofrimento"



Amar é desejar o sofrimento
E contentar-se só de ter sofrido,
Sem um suspiro vão, sem um gemido,
No mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento
É deste mundo enfim tão esquecido,
É pôr o seu cuidar num só sentido
E todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,
De rudes pescadores rodeado,
Caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,
É ser enfim vendido por dinheiro,
E entre ladrões morrer crucificado.


In. Antologia Comentada de Literatura Brasileira: Poesia e Prosa. Organizadoras: Magaly Trindade Gonçalves;Zélia Thomaz de Aquino; Zina C. Bellodi. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 204.

Bertolt Brecht - Poema



















REGAR O JARDIM

Regar o jardim, para animar o verde!
Dar água às plantas sedentas! Dê mais que o bastante.
E não esqueça os arbustos também
Os sem frutos, os exaustos
E avaros! E não negligencie
As ervas entre as flores, que também
Têm sede. Nem molhe apenas
A relva fresca ou somente a ressecada:
Refresque também o solo nu.

Tradução de Paulo César de Souza

In. Bertolt Brecht: Poemas 1913-1956.São Paulo: Editora 34, 2000, p.298.

José Fernandes - Poema

Eu e o Mestre Gilberto Mendonça Teles - by Sinésio Dioliveira


MESTRE

A Gilberto Mendonça Teles, 

que sabe o rio e o x do poema.







Mestre é quem sabe o rio e suas curvas,
o ponto e suas linhas, na reta e na paralela
do sertão com seu silêncio de mapa e jejum.

Mestre é quem sabe a carta e seus rabiscos
e atravessa a letra escura e enluara a sombra
e o vulto na amplidão do vau e da pinguela.

Mestre é quem sabe o caminho e a pedra
no meio da cruz e suas direções de pregos
e martelos segundo o verbo e a dor do calvário.

Mestre é quem sabe que no meio do grifo
há um bico e um X, mas entalha a viagem
ao centro do círculo e do signo de sete pontas.

Mestre é quem sabe as palavras, as reticências
e seus seixos na incerteza do meio e do fim,
mas marca as direções e os quatro ventos.

Mestre é quem sabe o deserto e sua areia,
os grãos e os horizontes vermelhos da distância
e chega junto ao destino de deuses e de homens.

Mestre é quem sabe o menir e sua viagem de sol
e sombra e vultos e mistérios pela alma da formas
e percorre as veredas e atravessa a pedra além.

Mestre é quem vê a caverna e sua noite
e cinzela o boneco e seus riscos no barro
e no caráter para ser imagem e pó do tempo.

30-5-2004.






José Fernandes - Crônica




MONTEIRO LOBADO – VÍTIMA DO ANALFABETISMO FUNCIONAL



Simplesmente de estarrecer a reportagem da revista Bravo e a conseqüente en-trevista de Ana Claudia Barros, em que pretendem provar que Monteiro Lobato era realmente racista, corroborando a estultícia iniciada a partir de Conselho Federal de Educação na cassa a Pedrinho. Acredito que toda e qualquer afirmação sobre o racismo tem de levar em consideração o contexto cultural e, sobremodo, o filosófico dominante à época e, não, sonhar-se segundo os malditos preconceitos nascidos da mesquinhez e da demagogia de esquina e de esgoto. Sem se conhecer nada da filosofia positivista, a maioria das obras literárias produzidas no final do século XIX e início do XX teriam de ser banidas da cultura brasileira, segundo a ótica míope cega do analfabetismo funcional que infesta e infecta este momento histórico. Hyppolite Taine já dizia que “Os documentos históricos não são senão índices por meio dos quais é preciso reconstituir o individuo visível” e, acrescentamos, a cultura visível e, sobretudo, a invisível, a ser enxergada naquele quarto escuro em que se busca uma cartola preta que não está lá, mas que é encontrada pelo verdadeiro crítico de arte. 

Não sem razão, Claude Bernard exigia que “os fatos fossem comparativamente determinados”. Comparativamente, segunda o pensamento filosófico e cientifico do momento histórico! Nos tempos de ontem eram uns, nos de hoje, outros. Portanto, re-querem que os vejamos naquele contexto que marcou as obras dos realistas, dos naturalizas e dos pré-modernistas e, não, querer julgá-los com a filosofia de hoje, se é que existe alguma além do analfabetismo funcional. Taine nos mostra que “a cada momento pode-se considerar o caráter de um povo como o resumo de todas suas ações de todas as suas sensações precedentes, quer dizer como uma quantidade e como um peso, não infinito, pois que toda coisa na natureza é limitada, mas desproporcional ao resto e quase impossível de se erguer, pois cada minuto de um passado quase infinito tem contribuído para pesar, e que, por elevar a balança, necessitará acumular em outro plano um número de ações e de sensações ainda maiores.” Além disso, só se pode julgar qualquer posicionamento relativo à mestiçagem e à eugenia segundo o pensamento de Spencer, corrente naquele momento histórico, quando afirma que “O atavismo é o nome que se dá ao retorno aos traços ancestrais, provado por fatos numerosos e variados. Nas galerias de quadros de velhas famílias, e sobre mesas de bronze monumentais conservadas em igrejas vizinhas, vemos freqüentemente tipos de fisionomia que, de tempos em tempos, se repetem nos membros destas famílias. Todo mundo pode perceber que certas doenças constitucionais, como gota ou a loucura, após haver desaparecido em uma geração, se mostra na seguinte.” Ademais, consoante o pensamento de Comte, o homem carrega instintos que o fazem inferiores aos animais. Por isso, recriminava as “idéias exageradas da importância do homem no universo, que a filosofia teológica faz nascer e que a primeira influência da filosofia positiva destrói para sempre”. Era assim que se viam as transformações por que o homem passa, segundo a ótica do evolucionismo. Embora a ciência tenha evoluído, e a filosofia mudado o foco para a existência e, hoje, para a matéria, para o que os gregos chamam “to semeron melei moi”, ainda vemos tipos que revelam aquela “forma retardatária de troglodita sanhudo aprumando-se com o mesmo arrojo com que, nas velhas idades, vibrava o machado de sílex à porta das cavernas” Isso é racismo ou são as diferenças resultantes de fatores genéticos e, sobretudo, culturais que levaram Darwin a definir determinados cruzamentos humanos como subespécie?

O fenômeno da mestiçagem vista naquela época, Nigri e Cláudia, seguia a postura adotada por Claude Bernard, “Se um fenômeno natural é dado, nunca um experimentador poderá postular que haja uma variação na expressão do fenômeno sem que, ao mesmo tempo, tenham sobrevindo condições novas na sua manifestação. Além disso, ele tem a certeza, a priori, de que essas variações são determinadas por relações rigorosas e matemáticas.” Ora, seguindo o mesmo principio positivista por que pautava a postura de Lobato, Euclides da Cunha assim registra sua percepção da mestiçagem em “Os sertões”: A mistura de raças mui diversas e, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem estádios evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é, quase sempre, um desequilibrado. Foville compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso em tal caso é incurável: não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas de raças repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado.”

Se formos adotar a perspectiva cega desses sábios plantonistas, já criticada por Saramago em “O tratado da cegueira”, ainda agravada por forte tiflose de fanatismo, criador de preconceitos, Euclides da Cunha seria mais racista que Lobato. Acho que um pouco de conhecimento faz bem para situar o pensador na visão de mundo de seu tempo. Veni Creator Spiritus, mentes Negri et Claudiae visita! Até o genitivo se adéqua aos sábios de tamancos altos! A pior coisa desse mundo é uma cultura genitiva, como a de quem se mete a escrever sobre assunto de que não entende, pois nunca chega ao nominal, ao nominativo! 

– Bravo, Professor! Será que ainda haverá alguém a atacar Monteiro Lobato sem ler os filósofos positivistas?


– Sei, não, seu Ângelo, em um país carnaval composto, em sua maioria, por pessoas carnavais, tudo é possível! Miserere nobis,
Domine!

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