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Marja Perna - Conto

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A ALMA DA MINHA MÁQUINA DE LAVAR Quando a mulher se casa, ela traz consigo vários desejos, guardados a sete chaves, os quais lhe proporcionarão muitas felicidades, além da economia de seu tempo para usufruir das pequenas futilidades femininas. Talvez não seja do conhecimento de todos, mas a mulher só adquiriu sua independência quando surgiu a máquina de lavar, e é nesse contexto que o fato se desenrola: a história de uma mulher de meia idade e sua máquina de lavar, que tinha alma. Há alguns anos, mais ou menos cinco anos, uma jovem esposa, trabalhadora de instituição pública,  durante seis horas, e, no restante do dia, mãe, doméstica, lavadeira, amante, cozinheira, dentre várias outras profissões inerentes às mães, resolveu, para economizar tempo nas tarefas domésticas,  adquirir uma máquina de lavar, comprada via internet, em 10 prestações, com um prazo de vinte dias para entrega. Finalmente, a grande aquisição chega ao domicílio. Um misto de ale...

José Fernandes - Artigo Literário

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IDENTIDADE ÔNTICA E ONTOLÓGICA DO SER HOMEM NA LINGUAGEM  DE            GRANDE SERTÃO: VEREDAS Escritório de João Guimarães Rosa -  Foto: Acervo Familia Tess INTRODUÇÃO O estado de lançado do homem no mundo compreende a existência da identidade ôntica, social, e da identidade ontológica. A primeira ocorre, quase sempre, de forma inconsciente, pois se realiza, à medida que o homem, obrigatoriamente, tem de se relacionar com o outro e com o sistema, para sobreviver. A segunda, entretanto, exige que o ser tenha plena consciência de seu estado de lançado e da conseqüente necessidade de conquistar sua essência, a substância do humano. A identidade ontológica, mormente dentro do texto artístico, materializa-se em linguagem, que pode assumir diversas faces e funções, à proporção que a personagem de ficção se pensa e dispõe da consciência do ser e do estar no mundo. No caso de Grande sertão: veredas, o protagonista, ao pôr-se em ...

Irma Galhardo - Ensaio Poético

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Foto by Gianne Carvalho RIOS E GÊNEROS LITERÁRIOS  Conheço muitos rios: Rio das Éguas, Rio São Francisco, Rio Formoso, até o Rio Tâmisa! O Rio Tocantins, porém, é especial! Nasci às margens do Rio das Éguas, um rio corrente, de águas puras e cristalinas, o mais lindo que já vi. Para mim, é como se fosse poesia. Poesia em seu mais amplo sentido! Tive minha infância e adolescência banhada por suas águas e chorei sua ausência quando fui estudar em Goiânia, onde rios com nome de meia e leite* não calçaram nem nutriram minha saudade. O Rio das Éguas continua em meu coração como o poema mais lindo já escrito. O Rio São Francisco foi meu segundo rio. Eu, com apenas quatro anos o atravessei pela primeira vez em um pequeno barco a remo. Uma coisa gigante que parecia que não acabava mais! Depois continuei atravessando, pois ficamos morando por um tempo em Bom Jesus da Lapa, na mesma época que o Capitão Lamarca desertou e passou por lá. Eu sempre assustadíssima, pelo rio...

Francisco Perna Filho - Conto

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Do lado de cá                                                                                                               Era sexta feira, me lembro bem, eu acabara de deixar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, quando ouvi pelo rádio do carro a notícia fatídica, estava atônita, descontrolada, enfiei as mãos no apito, joguei o carro para o acostamento, não sabia mais o que fazer. Só pensava no pior. “São inúmeros os cadáveres, não se sabe ao certo, quantos são. Uma verdadeira chacina”, dizia o locutor da Rádio Bandeirantes.                                             ...

Francisco Perna Filho - Crítica Literária

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Jádson Barros Neves - Foto: Facebook - Perfil do autor  “ E u contemplava uma fotografia de Steve McCurry, que mostra um peregrino na aldeia de Tagong, no Tibet, coberto por um ponche e com um pedaço de pano vermelho na altura da cabeça, o que lhe dá o aspecto de um galo gigante, seguido por um cavalo e passando lentamente por várias casas abandonadas. Era de madrugada, eu olhava a figura e me veio o título do livro. ”  CONSTERNAÇÃO: possibilidades para um título Justificando o porquê de seu livro de contos (14, no total) intitular-se “Consternação”, o escritor tocantinense Jádson Barros Neves explica: “Eu ouvia a música ‘Fado Tropical’, de Chico Buarque e olhava a tarde pela janela de minha casa, quando o título me caiu nas mãos.” E outra vez tentando justificar o título gesticula, e fala sumido: “Eu contemplava uma fotografia de Steve McCurry, que mostra um peregrino na aldeia de Tagong, no Tibet, coberto por um ponche e com um pedaço de pano vermelho n...

Francisco Perna Filho - Ensaio Crítico

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ESPELHADO DE CÉU MUITO SERENO Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas, Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade, Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas. Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido. Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale. Enquanto o primeiro livro não chega, Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, ...

Francisco Perna Filho - Ensaio Curto

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Carlos Fuentes ESPAÇO E PRECONCEITO Há muito que ouço e leio julgamentos do tipo: “esses são poetas menores”, “aqueles são poetas maiores”. Fale-se muito, classifica-se sem critérios, abusa-se de chavões, mas consistentemente nada se tem de concreto. Sobressaindo-se os ditos “Grandes” os “consagrados”, os “intocáveis”, donos de uma obra magistral. “A melhor de todas”. Já ouvi muito dos “ditos consagrados” e olha que as academias, os salões, as agremiações, estão cheios desses imortais indivíduos, tão sonhadores nem quem tempo têm para realidade. Para a realidade literária, aquela que bate à porta, que clama para ser lida e ouvida. Aquela que está na rua, nas velhas cidades, na universalidade dos becos, no lirismo da despedida. Uma realidade que pulsa na Internet, nos blogs, nos fóruns, nas revistas eletrônicas, exemplo, a Bula. Franz Kafka Lembro-me de ouvir por aí, da boca de muitos intelectuais, que eles jamais escreveriam para blogs, para revistas eletrôni...