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Salomão Sousa - Poema

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Foto by Francisco Perna Filho Sobrevoou as barras  dos desertos das cobras, Sobrevoou as montanhas dos seres esquivos. Enjoou das carnes podrentas, Enjoou dos miolos vazios. Voou para a cidade deserta, A cidade já quase sem cio. Pousou nas muitas portas, Pousou nas janelas sensíveis. Estava o gavião com fome de uma palavra carnívora.

Valdivino Braz - Poema

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O mar dentro das palavras O mar explode na milenar solidez das rochas, a onda se estilhaça com os seus cristais e a louça de suas conchas. Do limbo abissal do oceano, emerge o carbono, o espírito infinito da escrita. Uma voz vinda do mangue sangra emaranhado de vocábulos. Arrebentam-se no mar as ondas de algas oriundas do fundo negro de tudo. Surge do limbo das águas o ser das palavras que se abrem feito feridas. O mar se atira num jorro de espuma e calcário. O barco espatifado aderna ao modo de um aleijado, ou manco de uma perna, que se deita na praia dos esquecidos. O ser solitário contempla a fúria das ondas fragmentárias e murmura ao sentir o mar dentro de si. Um grão de areia em sua mão é o mundo e o enigma de tudo. Uma pedrinha de nada, polida pelas águas. O ser guarda a pedrinha na boca e se volta para dentro das palavras. Arabescos na areia são sinais de siri. Albinos caranguejos se movem por ali. As bromélias brotam e porejam a pele ...

Vinícius de Moraes - Poeta

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O operário em construção E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: - Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: - Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. Lucas, cap. V, vs. 5-8. Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão. De fato, como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia... Mas fosse comer tij...

Marcos Caiado - Poema

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Agonizante deus está morto num barraco do morro deus morreu torto rindo da cara do povo. assim como eu, não tinha o corpo fechado deus morreu aqui do lado aonde o asfalto não chega deus era mulher e tinha a pele negra. deus está ferido numa travessa da lapa vestido de azul e branco vinha da grande passeata Imposto pago, carnê em dia seguia rindo pela faixa quando foi atingido(quem é o  inimigo?!) por um projétil de borracha; agonizante, caído no chão, deus foi obrigado a abaixar os olhos e pedir perdão. Imagem retirada da Internet: projétil

Luís Augusto Cassas - Poema

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COVARDIA Eu vi a Policia Militar de São Paulo, fortemente armada, em carros blindados e a pé, portando escudos, pesados cassetetes, sprays de pimenta, gás lacrimogêneo, e ódio, muito ódio, investir contra os jovens estudantes - manifestantes da greve contra o aumento de passagens e melhora da qualidade de transportes coletivos, transeuntes, pessoas que estavam nas redondezas e nos lugares, de todas as idades, credos, cores, que sofreram violentos espancamentos, humilhações, constrangimentos de ir e vir, pensando que por viverem em uma democracia, podiam protestar, reclamar direitos, insurgir-se contra o establishment- e vi, entristecido, como o poder da flor, nas mãos de uma jovem, continua frágil ante o poder das botas. Sincronicamente, em minha temporada paulista, vi,a primeira vez na terça à noite, na Avenida Paulista vindo da Casa das Rosas no sentido Livraria Cultura: na segunda vez, na quinta à noite, vindo de sessão-cinema do Shopping Frei Caneca, entr...

Valdivino Braz - Poema

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Foto by Giacomo Capraro Aprendizagem das mãos Cedo fui levado por estranhos, num cavalo que ainda assombra as noites da minha infância. Cedo comecei a apanhar do mundo, e logo aprendi meus medos às mãos humanas que agridem. Tarde aprendi as próprias mãos como armas para o revide, mas o pouco que bati, doeu-me, e diminuiu-me. Por isso, amansei minhas mãos, e adestrei-as para os ofícios mais nobres. Fi-las ferramentas no corpo da vida, e soube-me operário na oficina da palavra. In. A Palavra por desígnio (1983).

Heleno Godoy - Poema

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Family Album Álbum de Família Esta menina com uma flor na mão não sabe ainda, mas será minha mãe. Aquele menino lá, de uniforme, será um de meus muitos tios. De um lado como do outro, não faltarão parente: este meu avô aqui, de bigode, ou esta avó magra, que irá morar longe, num sanatório. Numas outras fotos, estes outros avós, que a sorte e a saúde muito mais tempo mantiveram por perto. De uma caixa de sapatos é que saem, pois lá guardadas, todas essas fotos velhas, algumas com rasgados, outras amareladas, outras tantas desfocadas. Não estão num álbum dispostas, ordenadas e exibidas. Não. Aqui, nessa caixa, muito mais que num álbum organizado, encontro certas as biografias que me fascinam, as lembranças embaralhadas, roupas às vezes em desalinho, instantâneos preciso, muito mais nítidos que fotos de estúdio ou de festas fartas, de aniversários ou casamentos, batizados, enterros. In. A Ordenação dos ...