Postagens

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) - Poema

Imagem
Aniversário No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim mesmo, O que fui de coração e parentesco, O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… A que distância!… (Nem o acho…) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes… O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme atra...

Fernando Pessoa - Poema

Imagem
Esqueço-me das horas transviadas...                            I Esqueço-me das horas transviadas… O Outono mora mágoas nos outeiros E põe um roxo vago nos ribeiros… Hóstia de assombro a alma, e toda estradas… Aconteceu-me esta paisagem, fadas De sepulcros a orgíaco… Trigueiros Os céus da tua face, e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas… No claustro sequestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos, E a cor do Outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância… Fonte: Pessoa Imagem retirada da Internet: Fortaleza do Outeiro - Bragança.

Jorge de Lima - Poema

Imagem
  Não a vaga palavra, corruptela vã, corrompida folha degradada, de raiz deformada, abaixo dela, e de vermes, além, sobre a ramada; mas, a que é a própria flor arrebatada pela fúria dos ventos: mas aquela cujo pólen procura a chama iriada, - flor de fogo a queimar-se como vela; mas aquela dos sopros afligida, mas ardente, mas lava, mas inferno, mas céu, mas sempre extremos. Esta sim, esta é que é a flor das flores mais ardida, esta veio do início para o eterno, para a árvore da vida que há em mim. Invenção de Orfeu, X, 10. Apud. Alfredo Bosi

Olavo Bilac - Poema

Imagem
Velhas árvores  Olha estas velhas árvores, — mais belas, Do que as árvores mais moças, mais amigas, Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas . . . O homem, a fera e o inseto à sombra delas Vivem livres de fomes e fadigas; E em seus galhos abrigam-se as cantigas E alegria das aves tagarelas . . . Não choremos jamais a mocidade! Envelheçamos rindo! envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem, Na glória da alegria e da bondade Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem! Imagem retirada da Internet: velhas árvores

Antero de Quental -Poema

Imagem
Mors-Amor Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me aparece Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas E terríveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas? Um cavaleiro de expressão potente, Formidável, mas plácido, no porte, Vestido de armadura reluzente, Cavalga a fera estranha sem temor: E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!" Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!" Imagem retirada da Internet: corcel negro

Francisco Perna Filho - Poema

Imagem
Ao longo desses anos,      o que me disseram os homens Apesar de seres tu, não és, de certo, nenhum anjo, alguém confiável, pois bem sabes que a vida, enrodilhada de homens esperançosos, caminha a passos tardios e velozes, inconcussamente para o adiante dos teus pés. Bem sabes, e de tanto saberes, é que te fazes compreensível, já que as borboletas, no inverno, sempre vêm. Arrastadas pela inocência do voo, transbordam em fragilidades e, mesmo antes de alçarem o primeiro voo, muitas delas ficam paralisadas na própria emoção de serem insetos, porquanto o céu, apesar de ser o limite, tornar-se-á, sempre, inatingível.    (...) In. As Mobílias da Tarde. Goiânia: Perna&Leite, 2006. Imagem retirada da Internet: borboleta

Augusto dos Anjos - Poema

Imagem
A máscara Eu sei que há muito pranto na existência, Dores que ferem corações de pedra, E onde a vida borbulha e o sangue medra, Aí existe a mágoa em sua essência. No delírio, porém, da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Assim a turba inconsciente passa, Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Imagem retirada da Internet: máscara