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Cesário Verde - Poema

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MANHÃS BRUMOSAS Aquela, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, bucólica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda. Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas, - Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! - Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; E o meu desejo nada em época de banhos, E, ave de arribação, ele enche de surpresas Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos. As irlandesas têm soberbos desmazelos! Ela descobre assim, com lentidões ufanas, Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos; E como aquelas são marítimas, serranas, Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas. Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas, Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, Botões a tiracolo e aplicações vermelhas; E à roda, num país de prad...

Cesário Verde - Poema

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FLORES VELHAS Fui ontem visitar o jardinzinho agreste, Aonde tanta vez a lua nos beijou, E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, Soberba como um sol, serena como um vôo. Em tudo cintilava o límpido poema Com ósculos rimado às luzes dos planetas; A abelha inda zumbia em torno da alfazema; E ondulava o matiz das leves borboletas. Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, A imagem que inspirava os castos madrigais; E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem, Traziam-me à memória idílios imortais. Diziam-me que tu, no flórido passado, Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas, Aquele teu olhar moroso e delicado, Que fala de langor e de emoções mimosas; E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura, Que não me desgostou nem uma vez sequer, Eu não sabia haurir do cálix da ventura O néctar que nos vem dos mimos da mulher. Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores, Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; As falas quase irmãs do vento com as flores E a m...

Vinícius de Moraes - Poema

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Soneto da intimidade Nas tardes de fazenda há muito azul demais. Eu saio as vezes, sigo pelo pasto, agora Mastigando um capim, o peito nu de fora No pijama irreal de há três anos atrás. Desço o rio no vau dos pequenos canais Para ir beber na fonte a água fria e sonora E se encontro no mato o rubro de uma amora Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais. Fico ali respirando o cheiro bom do estrume Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme E quando por acaso uma mijada ferve Seguida de um olhar não sem malícia e verve Nós todos, animais, sem comoção nenhuma Mijamos em comum numa festa de espuma. Imagem retirada da Internet: mijada

João Cabral de Melo Neto - Poema

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O Relógio 1. Ao redor da vida do homem há certas caixas de vidro, dentro das quais, como em jaula, se ouve palpitar um bicho. Se são jaulas não é certo; mais perto estão das gaiolas ao menos, pelo tamanho e quadradiço de forma. Uma vezes, tais gaiolas vão penduradas nos muros; outras vezes, mais privadas, vão num bolso, num dos pulsos. Mas onde esteja: a gaiola será de pássaro ou pássara: é alada a palpitação, a saltação que ela guarda; e de pássaro cantor, não pássaro de plumagem: pois delas se emite um canto de uma tal continuidade que continua cantando se deixa de ouvi-lo a gente: como a gente às vezes canta para sentir-se existente. 2. O que eles cantam, se pássaros, é diferente de todos: cantam numa linha baixa, com voz de pássaro rouco; desconhecem as variantes e o estilo numeroso dos pássaros que sabemos, estejam presos ou soltos; têm sempre o mesmo compasso horizontal e monótono, e nunca, em nenhum momento, variam de repertór...

João Cabral de Melo Neto - Poema

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O luto no Sertão Pelo sertão não se tem como não se viver sempre enlutado; lá o luto não é de vestir, é de nascer com, luto nato. Sobe de dentro, tinge a pele de um fosco fulo: é quase raça; luto levado toda a vida e que a vida empoeira e desgasta. E mesmo o urubu que ali exerce, negro tão puro noutras praças, quando no sertão usa a batina negra-fouveiro, pardavasca. Imagem retirada da Internet: sertão

Vinícius de Moraes - Poema

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Quadro de Regina Pereira Lopes Rosário E eu que era um menino puro Não fui perder minha infância No mangue daquela carne! Dizia que era morena Sabendo que era mulata Dizia que era donzela Nem isso não era ela Era uma moça que dava. Deixava... mesmo no mar Onde se fazia em água Onde de um peixe que era Em mil se multiplicava Onde suas mãos de alga Sobre o meu corpo boiavam Trazendo à tona águas-vivas Onde antes não tinha nada. Quanto meus olhos não viram No céu da areia da praia Duas estrelas escuras Brilhando entre aquelas duas Nebulosas desmanchadas E não beberam meus beijos Aqueles olhos noturnos Luzinho de luz parada Na imensa noite da ilha! Era minha namorada Primeiro nome de amada Primeiro chamar de filha Grande filha de uma vaca! Como não me seduzia Como não me alucinava Como deixava, fingindo Fingindo que não deixava! Aquela noite entre todas Que cica os cajus! travavam! Como era quieto o sossego Cheirando a jasmim-do-Cabo! Lembro que ne...

Pedro Salgueiro - conto

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      Madrugada em Curitiba -  Foto by Joka Madruga Madrugada Pelo mês de setembro o tempo começa a esquentar. Sinto uma saudade dos ventos de julho, trazendo a frieza do mar distante. Nesses dias escuto, com o ouvido colado à parede, o barulho do trem chegando ao povoado: o chão vibra sob meus pés... Seguro o punho da rede e sinto um leve tremor. Apresso-me na direção da janela que dá para a linha de ferro e fico esperando que ele cruze nossas ruas. Em casa todos dormem, e só deixo de ouvir a respiração difícil de meu pai no instante em que a máquina chacoalha os trilhos, bem pertinho. Na estação ninguém aguarda parentes ou amigos. O trem rasga sozinho o descampado e se aproxima lento... Sem fazer alarde, pulo a janela e subo no benjamim do terreiro, para espiar melhor se alguém desembarca no meio da escuridão. Inutilmente apuro a vista, como sempre faço desde que me entendo por gente. Ao contrário do que era de se esperar, a minha angústia (minha espera...