Cláudio Manuel da Costa - Poema
ODES A MÍLTON 1 Contigo me entretenho, Contigo passo a noite, e passo o dia, E cheia a fantasia Das imagens, ó Milton, do teu canto, Contigo desço às Regiões do espanto, Contigo me remonto a imensa altura, Que banha de seu rosto a formosura. 2 Tamisa, que nos deste Dentro do seio teu alto engenho, Que o sagrado desenho Do divino Poema lhe inspiraste, Como o cofre dos males derramaste Sobre a sua fortuna? Como ao Fado O trazes desde o berço abandonado? Não basta além da Pátria Peregrino vagar estranhas terras, No horror das civis guerras Ensangüentar o braço às Musas dado, Da torpe, e vil pobreza inda vexado Queres que gema, e conte em baixo preço De seus estudos o cansado excesso? 4 Sim, esta é a ventura, Estas as murtas, e as grinaldas de oiro Que ao século vindoiro Hão de levar os que de Aônia bebem: Fortuna, os teus tesoiros só recebem Bastardas Gentes, que da tenra infância Afagou nos seus braços a ignorância. 5 Tu o sabes, ó Tejo, O teu grande Camões o geme, e chora; Nem mais riso...