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Cláudio Manuel da Costa - Poema

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ODES A MÍLTON 1 Contigo me entretenho, Contigo passo a noite, e passo o dia, E cheia a fantasia Das imagens, ó Milton, do teu canto, Contigo desço às Regiões do espanto, Contigo me remonto a imensa altura, Que banha de seu rosto a formosura. 2 Tamisa, que nos deste Dentro do seio teu alto engenho, Que o sagrado desenho Do divino Poema lhe inspiraste, Como o cofre dos males derramaste Sobre a sua fortuna? Como ao Fado O trazes desde o berço abandonado? Não basta além da Pátria Peregrino vagar estranhas terras, No horror das civis guerras Ensangüentar o braço às Musas dado, Da torpe, e vil pobreza inda vexado Queres que gema, e conte em baixo preço De seus estudos o cansado excesso? 4 Sim, esta é a ventura, Estas as murtas, e as grinaldas de oiro Que ao século vindoiro Hão de levar os que de Aônia bebem: Fortuna, os teus tesoiros só recebem Bastardas Gentes, que da tenra infância Afagou nos seus braços a ignorância. 5 Tu o sabes, ó Tejo, O teu grande Camões o geme, e chora; Nem mais riso...

Manuel Botelho de Oliveira - Poema

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Sol e Anarda O sol ostenta a graça luminosa, Anarda por luzida se pondera; o sol é brilhador na quarta esfera, brilha Anarda na esfera de formosa. Fomenta o sol a chama calorosa, Artarda ao peito viva chama altera, o jasmim, cravo e rosa ao sol se esmera, cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa. O sol à sombra dá belos desmaios, com os olhos de Anarda a sombra é clara, pinta maios o sol, Anarda maios. Mas (desiguais só nisto) se repara o sol liberal sempre de seus raios, Anarda de seus raios sempre avara. Fonte: Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet

Padre José de Anchieta - Poema

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Compaixão da Virgem na morte do filho Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas, e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas? Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto, que a morte tão cruel do filho chora tanto? O seio que de dor amargado esmorece, ao ver, ali presente, as chagas que padece? Onde a vista pousar, tudo o que é de Jesus, ocorre ao teu olhar vertendo sangue a flux. Olha como, prostrado ante a face do Pai, todo o sangue em suor do corpo se lhe esvai. Olha como a ladrão essas bárbaras hordas pisam-no e lhe retêm o colo e mãos com cordas. Olha, perante Anás, como duro soldado o esbofeteia mau, com punho bem cerrado. Vê como, ante Caifás, em humildes meneios, agüenta opróbrios mil, punhos, escarros feios. Não afasta seu rosto ao que o bate, e se abeira do que duro lhe arranca a barba e cabeleira. Olha com que azorrague o carrasco sombrio retalha do Senhor a meiga carne a frio. Olha como lhe rasga a cerviz rijo espinho, e o sangue puro risca a face toda arminho. Po...

Antonin Artaud - Carta

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disegno di W.Hogart , 1679-1764. Carta aos Médicos-Chefes dos Manicômios Senhores, As leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredicto. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreendemos com vosso despreparo dia...

Sinésio Dioliveira - Crônica

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Prefeito, mate a sede dos passarinhos! Os pássaros são notas musicais duma canção celeste. Eles poesiam o céu. O chupim, também conhecido como vira-bosta e melro (ou merro), é um pássaro bem malandro. Sua malandragem consiste no fato de ele não construir ninho nem tratar dos seus filhotes. Em vez disso, o trapaceiro deposita seus ovos em ninhos de outros pássaros, como tico-tico, sabiá, joão-de-barro. Eu mesmo já fiz fotografia de um sabiá-laranjeira tratando de um filhote de chupim na Praça Cívica. Por quase 15 dias, os involuntários pais adotivos dão comida no bico ao filhote alheio, que, para conseguir alimento, emite um som cara...

Alexandre Bonafim - Poema

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Outono Nas antecâmaras do silêncio o amor estende os lençóis de luto o linho suave do lamento esculpindo nas sombras da ausência um pergaminho de lágrimase tormentos. O que fazer dos braços do peito o que fazer da carne quando a dor torna excesso o tudo mais além do eu? O que fazer das chuvas das horas mais tristes da infância o que fazer dos gestos quando a hora torna cicatriz o todo infinito aquém do eu? Em pequenos barcos de papel escoam-se os risos do menino de outrora, as cirandas de cinzas e aurorasdo Nada. E em tudo nasce a névoa, o sortilégio do vazio o pó da memória. Ante os escombros do invisível nasce apenas o desejo do movimento urgente, a vontade de andar contra os acasos e acidentes. Entretanto, apesar do silêncio a vida estoura rápida, precisa conclamando à luta as mãos e o poema. Mesmo sem itinerários a vida ergue seu cântico para além de todas as noites para além de todas as ausências. In. Blog do Autor Imagem retirada da Internet: outono

Mario Vargas Llosa Nobel de Literatura 2010

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Peru foi apanhado de surpresa com notícia e demorou Foi o próprio Prémio Nobel, ao agradecer horas depois do anúncio oficial a Espanha o empurrão que deu na sua carreira, que permitiu a apropriação parcial por parte deste país ibérico do galardão que a Academia Sueca concedera a Mario Vargas Llosa. O jornal El Mundo destacou-se e até titulava ontem na primeira página "Vargas Llosa, o 6.º Nobel espanhol". .. Claro que não há qualquer inverdade na situação, já que o autor tem dupla nacionalidade, desde que o ex-presidente Fujimori lhe retirou a peruana e foi Felipe González quem lhe deu pátria, enquanto não recuperou a cidadania com que nascera. Ontem, se feridas havia na relação entre Vargas Llosa e o Peru, elas foram tratadas com o forte medicamento chamado Prémio Nobel. Não era para menos, pois desde 1982 - com Gabriel García Márquez - que o continente sul-americano não ganhava o Nobel. Mas foi na cidade onde nasceu em 1936 que a alegria foi mais genuína e a festa até con...