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CRIAÇÃO

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Dá ao rei, ó Deus, o teu dom de julgamento, E ao filho do rei o teu senso de justiça (salmo 72 (71) – O Reino do Rei Messias ) Francisco Perna Filho A madrugada é louça mal acabada, e o oleiro tenso arremata o sonho, moldando o barro da própria existência. Deus de si mesmo, julga-se capaz das próprias inconclusões ao acompanhar o martelar das horas que ainda estão por vir. Ele só, sozinho só, ali atento aos ruídos de sua rudeza, nos arredores de si mesmo, silencia em pó, em pós, no reino. The Creation of Adam, detail of Adam , 1508-12 - Michelangelo Buonarroti (Painter) Pintor, Escultor e Arquiteto Italiano (Alta Renascença) 1475-1564 - Sistine Chapel Ceiling - (Vaticano, Rome, Italy).

FRAGMENTOS

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Francisco Perna Filho O meu amor é feito de fragmentos, mosaico de bocas e pernas que foram ficando nas bancas de revistas, torres de catedrais, portos de rio, e na celebração das praças. No meu amar estou eu, multiplicado cem vezes por mim, temporal e relativo, composto de absoluto. Imagem: Study of a young Man Beside the sea . Hippolyte Flandrin. Pintor Francês 1809-1864 - (Musée du Louvre, Paris, France)

KOSOVO

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Francisco Perna Filho A dor da separação castiga minh'alma. A raça à qual pertenço condena os meus passos. A água que me dessedenta congelou o meu grito. Sirenes, explosões, desolação e mortes eis o meu cardápio. Que mal fiz aos adultos do mundo? com cinco anos e já participo das primeiras lições de ódio, onde se urde, secretamente, o desdém (DRESDEM) à raça humana. Quisera ter nascido árvore, sem clamor, sem dor, sem família. Quisera ter nascido lama e, dessa forma, sem precisar conviver com irmãos.. apodrecendo em cativeiros da loucura humana. Quisera ter nascido pedra para não ter de ver tantos corações empedernidos por ideologias. Quisera não ter nascido! Deus meu, clamo pelo colorido das praças, pela mesa posta em família, pelos clows nas tardes de Domingo. Clamo por todos aqueles que se perderam no labirinto e, cativados pelo minotauro, foram seduzidos ao ódio de uma guerra, uma guerra, uma guerra. Estou com ci...

RUAS DE DOMINGO

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Francisco Perna Filho Ruas em movimento: arredondadas, ovais, curvas como os carros que comportam. Por serem ruas, vias, caminhos transportam o cheiro salobro do desencanto; A fúria magenta da depressão, o desejo compacto das virgens. A carne das ruas é de metal pesado, composta em vírgulas e interrogações, Mal-passada, às vezes; esturricada, outras, mas sempre rua. Olhando-as de cima, parecem riscos. De baixo, rios infindáveis, transportando almas. As ruas suam ao meio-dia, são turvas ao anoitecer, são curvas na madrugadas, e morrem a cada domingo, a cada feriado, trespassadas por si mesmas. Imagem: http://i34.tinypic.com/10dfep2.jpg

O que sabemos a respeito de nós mesmos?

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No meio do caminho desta vida me vi perdido numa selva escura, Solitário, sem sol e sem saída. (Dante Alighieri) Por Francisco Perna Filho A luz, que para muitos pode cegar, torna-se essencial para outros, já que enxergar é ir além do que a vista alcança, quando, ao traduzir o visível, ampliamos o sentido das coisas e, com elas, compomos a alegoria da existência. Tudo o que sabemos a respeito de nós, de algum modo, nos foi dado a partir dos outros, a despeito de qualquer vontade nossa. Impressões que vão compondo os esteriótipos do mundo, apesar de serem, muitas vezes, rasas demais. É bem certo que não sabemos quase nada, mas algumas respostas poderemos encontrar, quando passarmos a observar o mundo mais detidamente, e isso, de certa forma, poderemos aprender com a arte, bendito fruto dos nossos artistas, tributadores da nossa inexperiência, do nosso convívio, das nossas diminutas percepções. São eles redesenhadores de um mundo que sempre quis...

ENRIQUECIMENTO DE URÂNIO - CONTO

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Francisco Perna Filho Urânio, até os 12 anos, era um menino retraído, raquítico, sem perspectiva nenhuma. Vivia numa casinha velha, de pau-a-pique, e não conhecia cidade grande. Cresceu ouvindo história de trancoso, superstições e outras inculcacões. Sempre dormiu em rede e criou-se andando a cavalo, correndo pelas quintas do seu avô, e nadando nu pelos riachos das cercanias. Aos oito anos, ganhou da sua avó um pente de chifre e um espelhinho, daqueles ovalados, com a foto de uma mulher pelada. Depois disso, precipitava-se pelos córregos, matas, banheiros, buracos de portas, fechaduras, rachaduras nas paredes, debaixo das camas, sempre querendo roubar, nem que fosse por pequeno espaço de tempo, algum seio, bunda ou, simplesmente, a ligeira visão de uma comportada ou esvoaçada penugem. Contava as horas para o banho das suas vizinhas, sempre com um olhar ligeiro, galopante nas suas fantasias. Inclinou-se, desde logo, para aquilo que ele viria, mais tarde, a chamar de predestinação: um e...

SÍNCOPE - CONTO

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Francisco Perna Filho As pernas não respondiam. Por mais que tentasse, nada. Estavam ali imobilizadas, soltas, distendidas, presas à cama. Algo que ele demorou a compreender. Somente tomando consciência da real situação em que se encontrava, quando, num átimo, sentiu um leve formigamento na perna esquerda, o que o fez, subitamente, tentar tocá-la, mas não pôde, estava preso, do tronco para baixo, totalmente à mercê do que ele sempre temera: a total dependência dos outros. O quarto velho e desgastado compunha um ambiente triste e desolador, imprimindo no branco manchado de suas paredes a história de muitas vidas que por ali passaram. Do teto, também pintado de branco, um pouco mais conservado, pendiam duas finas correntes, nas quais os tubos de soro eram fixados, servindo, muitas vezes, aos olhos toldados de algum paciente, como apêndice dos seus delírios. Era longe demais para chorar, para lembrar-se de qualquer coisa que o tornasse ao comum, ao familiar. Uma feição grave se apossou ...