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Mostrando postagens de 2021

Poema - Francisco Perna Filho

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  Na Padaria Alguém disse:"frio!" retruquei, pensando que fosse comigo. "Não!", disse-me a outra, tiritando. Estendeu-me a mão. Servi-lhe café e pão. Fiquei frio, congelado. Encolhi. (uma música no rádio) Pensei comigo: "pão ou pães, é questão de opiniães". Alguém gritou: "Guimarães, volta pro livro, amanhã você tem prova." Despertei! Poema inédito @franciscopernafilho
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O céu é dos pássaros, mas a todo instante eles se chocam com aviões, no instantâneo dos sonhos, e se arrastam como cavalos selvagens. Assestei meu olhar para lá do que eu podia discernir, até atingir os seus cantos, até que um silêncio de estrondo apagasse o meu coração, quando as pedras borradas de sangue formaram dissonantes acordes como flores devotas em precipício. Eu joguei pedra nos pássaros, mas eles nunca explodiram, só aí me dei conta: Só sobraram os aviões, essas máquinas de fogo, voando a jato, num lapso de tempo, tão mortíferas como o veneno da rastejante serpente que sonhou comigo. Assim, apesar da fome que a mim me consumiu, senti inveja dos pássaros, emudecido me pus, a ouvir o lamento dos aviões, quando cruzaram o instante da minha ignorância. Agora me pergunto: para onde foram todos os passarinhos, que o meu olhar tão pálido não vê? Só ouço ruídos e um vazio de avestruz. @franciscopernafilho Foto: Os pássaros no céu - Pixabay.com

Gabriel García Márquez

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  "Sem dúvida a primeira notícia sensacional que se produziu - depois da criação - foi a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Teria sido uma primeira página inesquecível: Adão e Eva expulsos do Paraíso (em oito colunas). 'Ganharás o pão com o suor do teu rosto', disse Deus. - 'Um anjo com espada de fogo executou ontem a sentença e monta guarda no Éden. Uma maçã, a causa da tragédia." (Gabriel García Márquez) 10 de agosto de 1954, El Espectador, Bogotá. Trad.: Joel Silveira, Léo Schlafman, Remy Gorga, Filho. Editora Record, 2020. Foto @franciscopernafilho
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  Sentença social Fora pego cheirando cocaína, ainda que negasse. Levado para o presídio, durante anos cheirou o pó da cela, dos corredores e do pátio. Foi o que disseram. Um dia, sem que soubesse, deram-no por morto. O diário local estampou na manchete: Do pó ao pó. Texto e fotografia: @franciscopernafilho

Francisco Perna Filho

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  Purgatório A moça colhendo a bosta do cão, A mosca na boca da moça, A sopa, sem mosca e sem pão, O pão, sem mosca e sem boca. O cão, se sentindo cuidado, sente-se livre para borrar a calçada. A moça, com total afeição, contabiliza sua dura jornada. Do outro lado, na antiga estação, olhos cansados espiam assustados, É o poeta esquálido, sem eira nem beira, na fila da carne, exercitando a palavra esperança. Desenho: caneta sobre guardanapo @franciscopernafilho

Francisco Perna Filho

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  Ruídos Ainda na ativa, a septuagenária professora, que ficara surda, aprendeu leitura labial. Com a peste, vieram as máscaras e as restrições. Foram-se as bocas e a esperança. Tentou telepatia, em vão. Perdeu o emprego, e, debilitada, morreu na fila do pão. Era sexta-feira!. Foto @franciscopernafilho 

POESIA

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  A lírica existencial de Maria Lúcia Gigonzac A Revista Banzeiro traz a poesia de Maria Lucia Reis Duarte Gigonzac e ilustração do Artista Plástico e Arquiteto M.Cavalcanti, que gentilmente nos presenteou com os desenhos da séria "Linhas e Sombras" - caneta acrílico sobre papel. Os poemas aqui apresentados são inéditos e foram escritos em diversas épocas. Maria Lúcia nasceu em 1947, em Icem (SP). Ainda criança, acompanhando os pais, mudou-se para Minas e, depois, para Goiás. Em Goiânia, fez o segundo grau e, logo após, começou um curso de física, na Universidade Católica. Em 1972, mudou-se para ilha da Gudalupe, Departamento francês na América Central, onde se casou, teve dois filhos. Naquela ilha, cursou francês e história da arte, foi quando começo a pintar. Ao cabo de quatro anos, mudou-se para a França metropolitana, terra que viu nascer sua filha caçula. Lá morou primeiramente em Bordeaux, depois em Créteil, em Rueil-Malmaison, até desaguar em Taverny, no Val d’Oise. No...

O Tempo da Memória - Adalgisa Nolêto Perna

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  Sobre ser mulher... Quero dizer que aos  53 anos, que hoje tenho, me sinto jovem, leve e solta! Mais ou menos... porque ser mulher nesta sociedade é  uma condição de plena resistência!  Resistência por ter de se (re)fazer  representada constantemente, sempre vista e ouvida! D. Adalgisa teve a felicidade de formar uma família de maioria feminina: Márcia, Magada, Magaly, Madel, Marja e, lógico, ela: Adalgisa! Manoel, Franciscos (02) e Maurício são os outros que compõem essa linda família! Mas o fato de ser composta da maioria feminina me enche de orgulho por poder assinalar o que é o empoderamento feminino: mulheres livres, resistentes (ao seu modo) e conscientes de sua identidade feminina em uma sociedade patriarcal. D. Adalgisa traz essa resistência em suas histórias contadas e, nessa sociedade de classe, de relações de poder, quero dizer do orgulho que sinto por ter minha sogra, aos quase 90 anos, lançando um livro. Uma obra que reflete seus dilemas cotidiano...