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Mostrando postagens de maio, 2012

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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Acordar, viver Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, a fábula inconclusa, suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento, qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora, algoz do inocente que não sou? Ninguém responde, a vida é pétrea. Imagem retirada da Internet: homem

Henrique Borges Machado Lima - Conto

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Foto by Margarida Dias Espaço interior Sou um cara de costumes e rotinas, faço as coisas como sei que sempre dão certo, do tipo “não se mexe em time que tá ganhando”. Até em coisas pequenas sigo certo ritual, veja esse exemplo: Quando vou à casa de minha namorada sempre faço o mesmo trajeto, na ida vou pela rua de cima, Castanhedo Lima e, na volta, venho pela de baixo, travessa Bosque das Orquídeas. Na esquina da rua de cima tem um bar, aparentemente, um bar como outro qualquer, sempre passava por ele e estava fechado, pois ia cedo para ter mais tempo junto com a figura. Mas um dia desses mudei meu roteiro e vi o bar aberto, porém, para minha surpresa, não era um bar como outro qualquer, apesar das mesas, cadeiras com a marca da cerveja patrocinadora e outras coisas que todo bar tem, tudo isso apenas na varanda que o rodeia por que não se podia ver o interior do mesmo, pelo simples fato de não haver nenhum facho de luz dentro, todo o espaço interior se encontrav...

Simbolismo Português - Eugénio de Castro (1869 - 1944) - Poema

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Um Sonho Na messe , que enlourece, estremece a quermesse... O sol, celestial girasol, esmorece... E as cantilenas de serenos sons amenos Fogem fluidas, fluindo a fina flor dos fenos... As estrelas em seus halos Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crotalos, Cítolas,cítaras,sistros, Soam suaves, sonolentos, Sonolentos e suaves, Em Suaves, Suaves, lentos lamentos De acentos Graves Suaves... Flor! enquanto na messe estremece a quermesse E o sol,o celestial girasol,esmorece, Deixemos estes sons tão serenos e amenos, Fujamos,Flor!à flor destes floridos fenos... Soam vesperais as Vésperas... Uns com brilhos de alabastros, Outros louros como nêsperas, No céu pardo ardem os astros... Como aqui se está bem!Além freme a quermesse... - Não sentes um gemer dolente que esmorece? São os amantes delirantes que em amenos Beijos se beijam,Flor!à flor dos frescos fenos... As estrelas em seus halos Brilham com brilhos sinistros... Cornamusas e crotalos, ...

Tércia Montenegro - Conto

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Uma história secreta Agora que estamos envelhecendo, Ismália, posso ter tua mão entre meus dedos enquanto penso que talvez seja improvável que me abandones, porque afinal continuo gordo e lento, mas fiquei velho e ninguém repara mais em mim, e tu também – embora tenhas conservado as medidas de solteira – perdeste o viço da pele; agora que provavelmente muitos homens já não te olham com desejo, posso ficar mais tranqüilo. É verdade, Ismália, que se torna difícil acostumar-me com o sossego, quando por vinte anos sofri, esperando que cada dia fosse o último, que me dissesses Estou farta, e batesses a porta sem mesmo levar tuas coisas. Nem quando estiveste grávida fiquei certo da tua permanência em minha casa; pelo contrário, a cada enjôo ou irritação sentia-me culpado e te levava a passeios, e te achava aborrecida comigo, pensando no que eu poderia ter feito de errado, e depois do parto, quando esperei que ficasses mais gorda, recuperaste em pouco mais de um mês a silhueta, a...

Antônio Torres - Conto

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Por Um Pé de Feijão Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (a nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida. Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar. Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar? E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os m...

Virgílio Maia - Poema

  Alvenaria Sobre pedras se eleva este soneto, em trabalhosa faina alevantado, as linhas definidas no traçado da perfeição do prumo e nível reto. Dentre tantos eleito, põe-se ereto rima por rima, embora recatado; ao martelar do metro faz-se alado, opondo ao som a luz deste quarteto. Sobre andaime de verso e de ciência necessário a erguer prova tão dura, deixa o pedreiro, alçado, o rés-do-chão. E sobranceiro ao mundo, àquela altura, Vai concluir, com brava paciência, A obra em que balança o coração. Imagem retirada da Internet: alvenaria Fonte: Jornal de Poesia