sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ITANEY FRANCISCO CAMPOS - SELETA DE POEMAS


Itaney Campos - Fonte: ASMEGO

Geografia Lírica: A Poética do Espaço 



A Revista Banzeiro apresenta a Seleta de Poemas do Escritor Goiano Itaney Francisco Campos. Com apurada percepção estética, o Poeta goiano, que também é Desembargador, traça sua arquitetura poética ao empreender viagem pela geografia lírica de toda uma vida. Ao refazer os caminhos da infância, na cidade natal, Uruaçu,  revisita a casa paterna, reencontra-se com o menino que foi e faz o seu inventário poético. São muitos os lugares, os olhares, o imaginário de um cosmopolita que flana pelas ruas de New York, Madrid, Lisboa, Angola, compondo uma poética do espaço. O Poeta não se rende ao efêmero,  é um sobrevivente legendário a planger sua Cantiga de ViagemOs poemas aqui reunidos, com exceção de New York, que faz parte da Antologia Goyaz (2015), Organizada pelo poeta Adalberto de Queiroz,  compõem a obra Inventário do Abstrato. Goiânia: Kelps/UCG, 2009.  

Infância


Frederick Dielman, The Mora Players
Etching, 1883
Onde morávamos
duas janelas
altas e paralelas
abriam-se para o medo.
Entulhos e detritos
pelas frestas da porta
diziam da morta
que não conhecemos.
Nos fundos, um quintal
perdia-se em cavernas
profundas e eternas
e em culpa venial.
Monótono e plangente
o pranto da chuva
na calha; uma viúva
vagava soturnamente.
Pendurados na janela
colhíamos sonhos na mão,
um papudo com seu papo
vivia em nossa canção.
Onde morávamos,
escadas sem corrimão
precipitavam-se em campos
férteis de assombração.

In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p17.

 

A Uruaçu 

Não és um nome apenas,
no dicionário incrustado,
és muito de minhas penas
nas viagens merencórias
em que às vezes me percorro;
Não és pra mim aquele outro
município, demarcação,
produtor de amianto,
és pausa do meu pranto,
a duras penas contido;
nem mera reminiscência
de indígena língua morta,
és a duradoura porta
de perene adolescência,
ou a navalha que corta
o tenuíssimo cordão
que me aprisiona ao concreto.
és o lusco, lusco-fusco
deste moço introvertido,
ressentido de si mesmo,
sem porque, ressabiado;
frutificas o futuro
do germe do meu passado
e te limitas no meu
coração ilimitado.

 In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p.15.

Em Lisboa

Lisboa - Fonte: Foto Fetiche




























Como que retorna à casa da infância
não frequentada, mas vista em sonhos,
confiro as marcas humanas nos postigos cerrados
da cidade de Lisboa.
Circulo por suas ruas estreitas,
vagando por livrarias, empórios, cafeterias
entre sobrados sonolentos e a opulência dos reis.
No entanto, brilha o sol
por sobre o Tejo sereno.
Os grandes navegadores dormem seu sono eterno
nas praças onde bando de pombas arrulham e
saltitam de espanto.
Negros orgulhosos e belos
desfilam (que gritam no seu silêncio
ao passado de surrupio
e de sangue que marca a sua história?)
O Marquês de Pombal sossega os seus leões
e contempla o seu pedestal
a Avenida da Liberdade, descendo célere rumo ao mar.
A melancolia do fado
escapa de um beco perdido,
e das dores do sal e do azar
mas resta a fragrância suave
de cravos
despejando-se das floreiras.
O ruído irritante das buzinas impacientes
dos motoristas de táxis
pelas ruas torturantes
não retiram da antiga Lisboa
o ar melancólico e tranquilo
de quem descansa em sossego à beira do Tejo formoso...

Onde D. Sebastião? Onde a gentil Inês de Castro?
Onde a luz dos olhos cegos da angústia de Castilho?
O silêncio gesta os versos do rei poeta D. Diniz.
De repente o vulto esquivo do Poeta Fernando Pessoa
em seu sobretudo etéreo
cruza a praça do Comércio
evolando-se no Tejo, em busca do seu eu perdido.

In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p30.


Viagem Para Angola

Face  - Fonte:Black Faces















Primeiro, tu me fizeste te amar com o desespero
dos náufragos,
abissalmente,
como o sol ao amanhecer do dia,
e então sem mais aquela
disseste, subitamente,
que te irias
para Angola,
e quem sabe se retornarias?

E me disseste das crianças
da África
nos lixos, comendo a morte,
dos velhos sem braços, sem membros,
os olhos secos de prantos,
das cidades e sua aura de miséria,
crescendo como um cancro, ou um câncer,
e eu senti doendo
a inutilidade  dos versos, que são como ganidos
dispersos
neste mundo unido pelo sofrimento.
E lembrei-me da canção
da garota de Angola
e seu chocalho dependurado,
e do movimento para libertação de Angola
e do poeta Agostinho neto
que fez do seu verso uma cantiga e um archote
para libertação.
E de Leopold Sengnor, o terno poeta
das hóstias negras, semeador de nações livres, e dos
sonhos do socialismo,
e do branco Fernando de Castro Soromenho
que cantou como ninguém a beleza
da negritude
e dos homens sem caminhos.
E lembrei-me que o sal desse mar de Portugal
é um pouco também do sal
das lágrima de Luanda.

E tudo fluiu por minha mente
como um filme oito milímetros
um documentário delirante,
com sua sucessão vertiginosa de imagens:
os negros, negros, negros,
com seus dentes brancos, brancos,
e seus olhares entristecidos
e suas crianças magérrimas.
Oh o Zaire, oh, Biafra, oh, Senegal, e suas aldeias de fogo
e sangue
oh nossos avós renegados, com seus ombros
chicoteados, suas algemas
perenes,
suas guerra intermináveis como um legado
maldito dos impérios coloniais.
Seus deuses mal conhecidos, suas tribos tão
Semelhante.

E tu disseste, como num sonho,
estou indo para Angola,
como se dissesse estou indo ali na esquina e já volto.
E todos os sonhos pairaram por um instante no ar, para
depois se
esborracharem
no piso árido do real, Ah, os sonhos, que ridículos, de
pueris, com tanto
sangue esguichando
das veias da velha mãe.
Das suas faces tão retalhadas
entre França e Portugal, entre Itália
e Alemanha, entre Inglaterra e Bélgica,
entre Espanha e Portugal...
Ah, os tristes trópicos desertos
com suas negras sensuais
sua flora luxuriante
e as savanas com sua fauna
de trepidante vitalidade.

Tu irás por Congo Belga, passarás em Madagascar, ou
ficarás em
Marrocos, e só mais tarde em Moçambique?
Tu lembrarás deste pobre
quando vires Bujumbura
ou talvez Addis Abeba ou a formosa Luanda
da janela do avião?
Se ao longe vires Casablanca
lembra-te do nosso sonho, desde o começo impossível,
como o do
romance tão célebre,
desce então em Kampala
a capital de Uganda, ou em Dar es Salaam, a cidade da Tanzânia
e saúda Olorum, com uma máscara dos Balunda,
ao ritmo do atabaque,
bem como o espírito das águas da sociedade secreta
e dos altares do Sekuapu.
Saúda Desmond Tutu.
e diz que aqui exilado
meu sangue clama saudades
e dá vivas a Amílcar Cabral.
  
E tu disseste vou pra Angola
como se dissesse “vou ali comprar cigarros”
e um grito de angústia rebentou
atávico em minha memória...

Lembranças a Nelson Mandela!...

In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p.55-58.



 

Elegia a Nova York



New York City, New York City
não me seduzirás, ainda que me ofereças
a polpa suculenta de tuas entranhas umedecidas
onde flui, no azul, a música de jazz
sobrepondo-se à confusão hipnotizante de tuas retas avenidas.

Não me cegarás com tuas fachadas envidraçadas
onde pássaros perdidos se suicidam.
Nem me farás perder o juízo
com alarido das vozes e o babel de língual
que se erguem em meio aos gritos, anúncios
luminosos, estátuas vivas
e o irritante ruído das buzinas dos teus automóveis em procissão.

E ainda que te faças cálida
na intimidade do teu crepúsculo
encarnado nas águas serenas do Hudson,
não irei além do Soho, nem do sonho,
porque as sombras e as cicatrizes
permanecem como pesadelos
nas ruas desertas do Bronx.
Já não me apetecem, big NYC,
o esplendor démodé das loiras platinadas
nem a voluptuosa exuberância da negritude
que se exibe no multicolorido do teu espetáculo cotidiano.

Nos braços evanescentes de tua aurora de néon,
jazem mortos os lúcidos poetas
que vagavam outrora pelos pubs e praças do Village.
Eles que vagavam, como profetas ordenadores,
em meio à neblina do dia precoce
vagando pelas ruas boêmias e sonolentas

Indiferentes ao ruído tonitroante e caótico
da multidão sôfrega, se entregando ao trabalho inútil,
Aos labores do nada.

Aqueles mesmos que denunciavam
As falácias das vitrines, a ilusão obsedante do consumo.

Suas escadarias de ferro, que sobrepairam as ruas,
Suas estátuas deslocadas,
suas lembranças de Paris, Dublin e Amsterdã
levitam sob a garoa sobrepairando as alturas da ponte do Brooklin.
colunas da inimaginável ponte do Brooklin.

Não, New York, não te percas em tua sede de vingança
Porque feriram seus prédios de vidro, suas muralhas de concreto
Que despontavam orgulhosas e arrogantes no horizonte do
teu perfil citadino.

Ainda que me entreabras, sorridente,
a polpa caudalosa da tua maçã,
não me prostrarei, não me entregarei a essa volúpia, New York,
porque à minha fome não se aniquilam as lembranças do Éden perdido,
nem se aproximam a minha boca do cálice
transbordante de sal e de sangue
última lembrança das promessas da terra do pão e do mel.

God save my soul!

Vade retro, com suas ostentações de neon, de laser, de raio gama,
porque o seu fruto já se massificou, de transgenia,
tornou-se carente de doçura mas não perdeu
o aroma do desejo e o malefício do veneno.

Desse quintilhão de objetos iluminados,
anodizados, vitrificados
que me expões, NY, só me interessam, efetivamente,
a sonoridade do sax soprano de Coltrane,
a melancolia vocal de Lady Blue
e a utopia permeada de resistência
                                       Na voz libertária do poeta Walt Whitman.

In. Literatura Goyaz, Antologia 2015. Org. Adalberto de Queiroz. Goiânia: Livres Pensadores, 2015, p.68-70.


bola de gude - Fonte:Blog Melhores Brincadeiras da Infância










Cantiga de Viagem


Volvo em silêncio a terra
em que dormem os ancestrais
com suas longas, infinitas barbas brancas
(pai Gaspar, tio Neco, tio Zeco, tio Chico)
ao lado de suas mansas mulheres.
Vago pelo vilarejo trespassado de luz,
As raízes da infância espalham-se pelas ruas de ontem.
Tudo é calma e sossego
de mistério sem mistério
e pressinto o menino que fui
emergindo descalço das sombras dos becos
preso à sua timidez
e às estrelinhas de gude
que carrega nas algibeiras.
O velho do saco já não vaga pelas ruas
carregando meninos teimosos,
Mira Doida é uma tênue lembrança
encoberta  pelo limo do tempo.
Em silêncio, as casas da velha família
Espiam lenta demolição da capelinha.
a noite é úmida de tanta ternura
e a confusão que me habita
se esvai
enquanto me entrego sem medo
à memória desvelada e simples
que escorre desses telhados.
A magia é palpável como a aspereza
dos troncos das árvores centenária
às fraldas da Serra Dourada.
Observo esses campos
(em breve estarão submersos),
respiram os seus últimos dias
ao cálido abraço solar.
Revolvo a melancolia dos caminhos solitários
a roça
e a angústia indefinida
do planger de sinos na distância.
Tudo é quietude:
a bondade  da vida escorre pelas calçadas
farta como o calor da tarde.
A humilde cidadezinha se dilui
na névoa imperscrutável do tempo.

E ouço o silêncio eterno
do sono dos ancestrais.

In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p.64.


 Em Madrid

Federico Garcia Lorca




























Que sonham as meninas madrilenas
nas calçadas noturnas de Fuencarral?
Saudades de Nova Iorque
Nunca dantes mas sonhada?

Que buscam essas brujas álacres
no seu andar altaneiro
esmagando seringas, cigarros
por bucólicas alamedas?

Já não bailam ao som do flamenco
quem vem da Andaluzia,
que querem a doces gitanas
além de que não venha o dia?

Leves, por certo não levam
a dor de saber que um dia
fuzilaram Garcia Lorca
só por ódio à poesia.

In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p71.


O Homem de Setenta Anos

Insolite - Fonte: Le Tribunal du Net

Olho para este homem e seus sapatos envelhecidos,
de setenta anos de estrada,
e imagino em quantas pedras tropeçou nos descampados
que percorreu.
Olho para este homem que o tempo amadurece,
em calma, como o tempo faz saboroso o bom vinho.
E penso que a vida é um breve instante,
mas não se perdeu.

que o homem de setenta anos beba no poço da tranquilidade;
e não lhe falte o abraço amigo do filho
refrigério
como a sombra das árvores que semeou pelo caminho,
e a ternura dos amigos que se saciaram na fartura de sua mesa.

Que os ouvidos se abram às suas palavras
porque os seus olhos viram muitas dores e os seus ouvidos
ouviram os gemidos e os risos de um mundo enlouquecido em guerras.

O homem de setenta anos é um sobrevivente legendário.
Que possa em sossego formar pastagens
onde apascente lentamente seu rebanho
isento das pragas e da fome das onças.

Que durma tranquilo o homem de setenta anos
embalado pelo sussurro da aragem do outono
sem que as ventanias ameacem as frinchas de sua casa.
Que trabalhem sem sobressaltos o homem de setenta anos,
como o seu cavalo permanece sem pesadelos nos pastos,
e suas vacas amamentam absortas, nos currais.

Vejo ainda as borboletas pousando em sua camisa de menino,
e o vejo correndo descalço pelas ruas tristes dessa aldeia pobre,
onde portas se abriram ou se fecharam à sua passagem
as alegrias mortas, a cada dia,
e a cada noite reconquistadas,
as tristezas curtidas a cada tarde
e a cada manhã subitamente renovadas.
Vejo este homem, carregando os seus setenta anos,
e me pergunto em que fotografias revelou seu espírito
e em quantos risos pode banhar sua alma.
Não sei contar às rugas que a amargura cravou em suas lembranças
mas escorrem dos seus olhos a magia da primeira leitura,
a graça do primeiro encontro,
como a sombra fugidia do gato, que certamente perseguiu,
pelos becos da infância.

Vejo a indecifrável solidão desse homem
com  suas queixas, suas raivas e seus remorsos
e posso apenas ouvi-lo, sem penetrar jamais os seus segredos.
Mas sei que a sua sabedoria é lúcida e límpida
e se ilumina nos causos mais simples da conversa domingueira
qual um bando de garças alçando o voo.
Vejo esse homem e seus gestos firmes,
Seu bando de filhos,
Sua fiel companheira,
E vejo um carvalho, de ampla folhagem, seus galhos robustos,
Sua sombra sem fronteiras.

Ao homem de setenta anos,
liberto das hipocrisias e das ilusões passageiras,
não lhe falte a mansa alegria
das aves, pelas mangueiras,
e nem fúria incontida, das tempestades rugindo
rasgando o ventre da noite,
de onde surgiria, talvez,
uma manhã alvissareira.

In. Inventário do Abstrato. Goiânia: UCG/KELPS, 2009, p.95-97.

Käthe Kollwitz,  Selbstbildnis, mit der Hand an der Stirn 
Etching, 1910

Sobre o Autor
Natural da cidade de Uruaçu/Go, fundada por seus ancestrais, a família Francisco/Fernandes de Carvalho, nasceu em 31 de dezembro de 1951. Filho do promotor de Justiça e professor Cristovam Francisco de Ávila e de Selenita Campos de Ávila. Realizou os estudos fundamentais em sua cidade natal, o ensino médio nos Seminários Santa Cruz, em Goiânia, e Nossa Senhora de Fátima, em Brasília – DF. Graduou-se em Direito pela Universidade Católica de Goiás, no ano de 1974, havendo cursado dois anos de Letras Vernáculas, pela Universidade Federal de Goiás. Exerceu a advocacia nos anos de 1975, 1976 e 1977, na região de Uruaçu, onde também exerceu o magistério, como professor de Redação e Expressão e Inglês. 

Ingressou na Magistratura estadual no ano de 1982, exercendo a judicatura nas Comarca de Formoso (1982/1985) Mara Rosa (1986/1987), Santa Helena de Goiás (1987/1992), onde exerceu a jurisdição nas áreas cível, criminal e eleitoral, e ainda na Capital deste Esta do,  para onde foi promovido, pelo critério de merecimento, no ano 1992. Passou a atuar como substituto de Desembargador, no Tribunal de Justiça do Estado, desde o ano de 1999. Pós graduou-se como especialista, em Direito Processual Civil, e como mestre, em Direito Agrário, pela Universidade Federal de Goiás, com uma disciplina – Cooperativismo – realizada na Universidade de Ávila, na Espanha. Nessa Faculdade exerceu, nos anos de 2000/2001, as funções de professor substituto, de Direito Civil e Processual Civil.

Atualmente exerce o cargo de Desembargador, integrando a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, já tendo exercido a Presidência dessa Câmara e da Seção Criminal do mesmo Tribunal.

Fonte: UBE-GO.