quarta-feira, 16 de maio de 2012

João Cabral de Melo Neto - Poema


Alguns Toureiros


Eu vi Manolo Gonzáles 
e Pepe Luís, de Sevilha: 
precisão doce de flor, 
graciosa, porém precisa. 
Vi também Julio Aparício, 
de Madrid, como Parrita: 
ciência fácil de flor, 
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri, 
dos confins da Andaluzia, 
que cultiva uma outra flor: 
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez, 
que cultiva flor antiga: 
perfume de renda velha, 
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez, 
Manolete, o mais deserto, 
o toureiro mais agudo, 
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira, 
de punhos secos de fibra 
o da figura de lenha 
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava 
o fluido aceiro da vida, 
o que com mais precisão 
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número, 
à vertigem, geometria 
decimais à emoção 
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez, 
Manolete, o mais asceta, 
não só cultivar sua flor 
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão 
com mão serena e contida, 
sem deixar que se derrame 
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la 
com mão certa, pouca e extrema: 
sem perfumar sua flor, 
sem poetizar seu poema.

In.João Cabral de Melo Neto. Antologia Poética. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p.156.
Imagem retirada da Internet: toureiro