Gilberto Mendonça Teles - Poema


SINTAXE


ORIGEM


Agarro o azul do poema pelo fio
mais delgado de lã de seu discurso
e vou traçando as linhas do relâmpago
no vidro opaco da janela

Seu novelo de nuvens reduplica
a concreta visão deste animal
que se enreda em si mesmo, toureando
a púrpura do mito se exibindo
diante da minha astúcia de momento

Sou cheio de improviso. Sou portátil.
E sou noite e falácia. Sou impulso
e excesso de acidentes. Sou prodígios.
E agora que há sinais de ressonância
sou milícia verbal configurando
a subversão na zona do silêncio




In. Teologia de Bolso. Gilberto Mendonça Teles. Goiânia: PUC Goiás/Kelps, 2009,p.43
Imagem retirada da Internet: opaco

José Paulo Paes - Poema

Madrigal



Meu amor é simples, Dora,

Como a água e o pão.


Como o céu refletido

Nas pupilas de um cão.




(PAES, José Paulo. Melhores poemas. São Paulo: Global, 1998.)
Imagem retirada da Internet: Água e pão

Manuel Bandeira - Poema

Neologismo



Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teodora.




In. BANDEIRA, Manuel. Meus poemas preferidos.

São Paulo: Ediouro, 2002.

Imagem retirada da Internet: Teadorar

Paulo Henriques Brito - Poema


Ontologia sumaríssima



Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.
A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.


A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.


A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve para coisa alguma.


A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.


Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.



Imagem retirada da Internet: Gás

Cecília Meireles - Poema


Leveza


Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.


Imagem retirada da Internet: pássaros

Cecília Meireles - Poema


Primeiro Motivo da Rosa


Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.



Imagem retirada da Internet: rosa orvalhada

Cecília Meireles - Poema


Lamento do oficial por seu cavalo morto



Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.


Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!


E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado - melhor que nós todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?


Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...

Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...

Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!




In Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.

Imagem retirada da Internet: átomo

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