PRIMAVERA


Francisco Perna Filho








Amá-la

ou amar ela

são duas formas válidas de amar.

a primeira, culta;

a segunda, popular.

Amá-la, fechada por ser mala.

Amar ela, aberta por ser cor:

AMARELA.



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MEMÓRIA - Entrevista com Affonso Romano de Sant'Anna






Originalmente, esta entrevista foi publicada no Jornal Opção www.jornalopcao.com.br e na Revista Bula www.revistabula.com, em julho de 2004, tendo como entrevistadores o poeta e professor universitário Francisco Perna Filho (Chico Perna), o poeta e jornalista Carlos Willian Leite, o poeta João de Aquino, e a publicitária Tainá Corrêa.



Affonso Romano de Sant'Anna

Chico Perna - Hoje em dia, assistimos à banalização da violência: Guerras, tráfico de drogas, assaltos, seqüestros, tudo isso tem contribuído para que o cidadão sinta-se cada vez mais inseguro e desprotegido. A natureza tem sido brutalmente agredida, principalmente pelas grandes potências. No Brasil, o que tem sido feito na área de preservação é ainda incipiente; com relação à violência, vivemos uma verdadeira guerra civil. Diante desse panorama que se nos afigura, há espaço para poesia? Qual é o papel do poeta?

Affonso - Estamos vivendo uma situação insólita, e não é só no Brasil essa questão da violência enlouquecida e aleatória. O que me preocupa no nosso caso é algo que se realizou uma profecia que fiz há vinte e tantos anos.Eu havia escrito um artigo intitulado: “A história de um país é também a história de seus bandidos”, onde propunha que à maneira dos estudos sobre as diversas gerações/autores/estilos em literatura, fazer uma “história” de nossos bandidos nos ajudaria a entender melhor o país. Daí, que quando houve aquele episódio do Tim Lopes e publiquei a crônica “Nós os que matamos Tim Lopes” (que muitos acharam que era um poema, por ter anáforas),um editor pediu-me para reunir num livro, que levou aquele título (Ed.Expressão e Cultura)- as crônicas sobre violência. Espantei-me. Pois ao recolhê-las, dei-me conta de que havia, sem saber, de alguma maneira, escrito a história da violência e dos bandidos do país. Até eu fiquei chocado. Por outro lado, dei-me conta que muitos de meus poemas relatam também essa história, que passou do plano militar-guerrilheiro para o descalabro na sociedade civil. Num poema de quase 30 anos atrás “Crônica policial”, eu terminava pateticamente dizendo:

Minha porta já em 100 trincos

Depois de 6 revólveres, comprarei 5 bazucas

8 granadas

12 miras telescópicas

embora nada me garanta que não me ponham a porta abaixo

com seus tanques.

Mas fora isto, não sei ainda o que fazer.

Mas não vou ficar aqui como um personagem de Hemingway

Que cansado de fugir

Se deita velho como um cão

Aguardando que me trucidem

A mim , minha família

E mandem a foto autografada ao Presidente

Como sinal da mais estima e elevada consideração.”

Carlos Willian - O Texto “A Implosão da Mentira” que foi imortalizado por Tônia Carrero no cd da “coleção Poesia Falada”, remete às mentiras cotidianas que ouvimos e retransmitimos todo o tempo. Em sua opinião, o Brasil do governo Lula continua sendo um país de mentiras?

Affonso - Sabe que para minha tristeza, toda vez que leio esse poema em apresentações públicas há um vigoroso aplauso que interpreto como revolta e protesto contra algo inerente aos governos. Ainda agora vim do Chile, onde passei dez dias falando poemas em diversas cidades, dentro das comemorações do centenário de Neruda. E lia sempre o poema. E a reação era idêntica. Um tradutor americano me dizia que esse poema retrata o governo Bush e que deveria ser publicado no “The New York Times”- o que me agradaria muito. Quanto ao Brasil, reconheço que tem havido uma melhora ética com esse governo. Mas é própria da política a fala ambígua e dupla o negar afirmando. como disse em “Sobre a atual vergonha de ser brasileiro”- escrito no governo Figueiredo:

“Este é o país do diz e do desdiz

onde o dito é desmentido

no mesmo instante em que e dito.

Não há lingüista e erudito

Que apure o sentido inscrito

Nesse discurso invertido.

Aqui o discurso se trunca.

O sim é não

O não, talvez

O talvez

-nunca.”

Chico Perna - Como o senhor vê a atuação do governo Lula com relação à área cultural, mais especificamente ao setor de bibliotecas públicas, já que o senhor, à frente da Biblioteca Nacional, fez um trabalho belíssimo, valendo destacar o PROLER, que tanto contribui para difusão do livro e da leitura?

Affonso - Eu teria gostado mais se desde o princípio tivessem surgido ações concretas no sentido de retomar o Proler. Só agora estou sabendo que chamaram Galeno Amorin (ex-secretário de Cultura de Ribeirão Preto) e o Edmir Perroti para atuarem nessa área. Estão tentando recuperar o tempo perdido, que foi esse interregno entre 1996 e 2004. Oito anos perdidos, é uma lástima. Mas a tragédia maior foi durante FHC e o desastroso equívoco chamado Weffort. De resto, no dia em que o governo ao invés de apenas dizer que o livro e a cultura são importantes, desenvolver ações concretas e inovadoras acabaremos com o que chamo de “discurso duplo”: Fala-se uma coisa e faz-se outra.

Tainá Corrêa - O senhor publicou poemas de cunho político nos principais jornais do país durante a ditadura militar. Um exemplo: “Que país é este” que foi traduzido para diversos idiomas, transformado em pôster e colocados em universidades e sindicatos. Essa atitude contestadora que marcou toda a sua trajetória poética não lhe trouxe problemas? Sobretudo com a censura?

Affonso - Uma vez uma cerimônia de formatura foi interrompida porque o formando resolveu ler um dos meus poemas. O prefeito se retirou da mesa, acabou a festa. De outra feita, eu tinha que fazer conferência em Furnas e o presidente da instituição ficou assustadíssimo e tentou me desconvidar. Quando fui convidado para dar aulas na Alemanha, o governo brasileiro cortou a ajuda que dava tradicionalmente ao “leitor brasileiro”, porque o SNI não recomendava meu nome. Enfim, há vários episódios. Não faziam censura explícita como com a música popular, porque a poesia literária atinge um público menor, mas havia coibições de várias ordens.

Carlos Willian - Ainda jovem, o senhor foi considerado pelo critico Wilson Martins como sucessor de Carlos Drumonnd de Andrade. Como foi carregar esse fardo?

Affonso - Complicado, primeiro porque descobri que havia muitos candidatos a esse título que passaram a se sentir “despossuídos”. Em segundo lugar, o Wilson Martins depois ,em outro artigos, desenvolveu melhor esse pensamento ressaltando que eu vinha do que ele chama de “linhagens” poéticas, às quais pertencia também Drummond. Realmente minha obra dialoga com a tradição e procurando avançar. Há pessoas por aí que acham que estão reinventando tudo, a poesia, o verso, a história. É o messianismo literário. Dentro dessa questão da “sucessão” também seria até interessante ressaltar uma coisa, uma síndrome: temos que parar com essa idéia de que a poesia brasileira é uma monarquia, com príncipes herdeiros. A toda hora vem alguém dizer que “agora” o maior poeta é fulano, como se só houvesse lugar para cada um de uma vez. Tem pelo menos uns 10 poetas do primeiro time por aí.

João Aquino - Guardadas as diferenças e avultadas as semelhanças, o que há na sua poesia que remeta a Carlos Drummond de Andrade?

Affonso - Isto ficaria melhor na fala de analistas e não na minha voz. Posso insinuar algumas diferenças. Primeiro, de temperamento: sou uma pessoa que adora viajar mundo afora, e CDA ficou plantado aqui. Minha poesia está cheia de referências a todos os lugares do mundo por onde tenho passado. Ainda agora estou voltando do Irã, e alguns poemas relativos a isto estarão no meu próximo livro. Em segundo lugar, uma das minhas vertentes é a batida do versículo bíblico, devido à minha formação protestante. Outra diferença: CDA diferia muito sua poesia de sua prosa. Ao contrário, misturo poesia e prosa na minha crônica. Muitos poemas foram extraídos delas. E quem pesquisar verá uma simbiose, vasos comunicantes, entre esses dois gêneros, em mim. Tem nas crônicas versos esparsos que recapturei na poesia. Mesmo minha crônica é mais participante, acho que o cronista pode e deve interferir no cotidiano. Acho que também o tratamento da temática amorosa é diferente. A imagem da mulher em minha poesia, a relação entre homem-mulher é diferente. Ele vem de uma formação de filho de fazendeiro, de uma geração mais machista. Eu venho de outra, aquela que nos anos 60 tinha outra visão de mulher, casamento e sexo.

Chico Perna - Ultimamente, pelo menos nos grandes jornais com exceção de O Globo, com Wilson Martins, não temos mais a figura do crítico literário, atividade que tem se restringido ao meio acadêmico, não chegando ao público em geral. A pergunta que eu faço é a seguinte: Em sua opinião, a crítica é necessária? No que ela pode contribuir para o engrandecimento do fazer literário?

Affonso - A crítica é essencial. Ela é o espelho social para o autor. E pode ser um guia estético. Se tivéssemos uns 10 bons críticos pelos quais passassem os principais livros lançados teríamos como avaliar melhor as coisas. Mas o que há é, de repente, uma pessoa que não tem lastro, não tem curriculum nem peso cultural apresentar o “corpus” da poesia brasileira como sendo a sua pequena e mesquinha visão. Por outro lado, o que há hoje, como já disse, são reportagens e entrevistas. O leitor vê uma pagina inteira com foto imensa de um autor e vai achar que isto é sinal de valorização. O jornal transformou-se muito em revista, voltado para o espetacular. Falta ao Brasil um bom número de publicações literárias. Imagine que Portugal tem o “Jornal de Letras”, quinzenal, que dá um painel democrático do que ocorre na literatura portuguesa. Aqui não conseguimos nem isto. E dentro das revistas universitárias, o que há são estudos acadêmicos, e não a critica que tem que se arriscar a opinar sobre o que está surgindo.

Tainá Corrêa - Quem é o maior poeta brasileiro vivo?

Affonso- Tá vendo? Eu nem sabia que essa pergunta ia pintar aqui em baixo e disse aquelas coisas lá em cima. Veja bem: se os próprios poetas mortos têm o seu valor constantemente renovados e questionados, o que dizer dos poetas vivos tão sujeitos às deformações da política literária?

João Aquino - Com exceção de Gilberto Mendonça Teles, o que o senhor conhece da poesia goiana?

Affonso - Mantive contato com muitos poetas do estado durante décadas. E estive aí com vários deles.

Tainá Corrêa - Ainda existe espaço para metalinguagem na poesia?

Affonso -Claro, sempre haverá. O que tem ocorrido com a modernidade é que os poetas começaram a falar para dentro, para si mesmos e perderam o elo com o leitor e com o público. Já não se trata nem de hermetismo, senão de um equívoco e perversão literária. Algo perto da masturbação poética.

Carlos Willian - Recentemente o senhor falou de um lirismo envergonhado na poesia brasileira, isso deve ser atribuído a quê?

Affonso - Aos concretistas paulistas que trouxeram para a poesia brasileira censura institucionalizada, um AI-5, que dizia que o verso acabou, que a lirismo morreu, enfim, uma série de coisas tolas ditas de maneira pomposa, e que não resistiram a dois segundos de vida. Tanto assim que todos eles voltaram arrependidos sobre os próprios passos e ficam traduzindo Rilke e outros “líricos”, porque têm vergonha de assumir a própria poesia.

João Aquino - O poeta Alexei Bueno disse em entrevista: "O normal da nossa poesia atual é a poesia cocô de cabrito, sequinha, apertadinha e idêntica." Concorda com ele?

Affonso - Quem disse isso (também) foi o Bruno Tolentino. É um tipo de poesia que provem de uma leitura pobre de Oswald de Andrade, que era um poeta menor e ocasional, que nunca desenvolveu uma obra poética como projeto, que teve apenas uma interferência momentânea no princípio do modernismo. Em geral, os críticos que se detêm muito sobre Oswald, são pessoas que não gostam de poesia. Vingam-se da poesia através dele. E os poetas que vivem fazendo esse poesiazinha optaram pelo facilitário.

Tainá Corrêa - Hoje os universitários estudam através de textos xerocopiados. Qual a conseqüência de só estudarmos trechos e não toda a obra de um escritor?

Affonso - Este é um problema complexo. Quando dirigi a BN participei de seminários nacionais e internacionais sobre a questão do xerox, analisando soluções. No caso brasileiro a ausência de livrarias, o fraco poder aquisitivo, a pobreza das bibliotecas, a dificuldade de achar obras esgotadas explicam o uso do xerox. Isto não é um mal em si. Se o professor estiver dando um curso sistêmico o aluno juntará as partes em sua cabeça. Nos Estados UNIDOS, em cada andar de uma biblioteca universitária tem dezenas de maquinas xerox que você usa colocando um cartãozinho lá dentro. Copia o que quiser.

Carlos Willian - Como foi sua experiência de lecionar literatura brasileira nos Estados Unidos, Alemanha e França?

Affonso - Complexa e rica.O aluno americano tem à sua disposição as melhores bibliotecas do planeta.Ele faz as tarefas todas que você passa.Quando lá estive a primeira vez (1965) o português era uma das 5 línguas estratégicas recomendadas pelo Departamento de Estado, e havia muito aluno. Hoje caiu muito. Mas são produzidas teses interessantes. Diria mesmo que há uma produção sobre a literatura brasileira lá fora, que aqui não se conhece. A Alemanha foi o país onde me senti mais estrangeiro. Também com essa cara de marroquino! Aliás, na França, no primeiro dia que cheguei em Aix-en-Provence e saí com a família para comer na rua, fui perguntar por um restaurante e me mandaram para um restaurante marroquino. É uma experiência estranha lecionar fora, porque nos obrigam a ver o país de fora para dentro, rever valores e redescobrir outros.

Chico Perna - Recentemente, o senhor visitou o Irã, e o que pude constatar pelos seus relatos ensaísticos em O Globo, é que naquele país a figura do poeta é muito valorizada, cultuada pelas pessoas, sem distinção de classe social. Aqui, o poeta, para ter certa visibilidade, precisa aparecer nos grandes jornais, ou pertencer a uma comunidade acadêmica, caso contrário ele jamais chegará a uma grande editora. Qual é a razão disso tudo? Por que a poesia não é valorizada no Brasil?

Affonso - Aqui há uma coisa curiosa. Vejam o que ocorreu com Drummond, virou um ícone. Vinicius é outro exemplo de ligação com o público, pelo menos com a classe média. Em todos os países a ascensão de um poeta, socialmente, é complexa. Mas a sociedade faz questão de eleger e cultuar seus poetas. No meu restrito espaço tenho recebido demonstrações comoventes de leitores. Mas há uma coisa que hoje é característica, você tem razão, o autor tem que passar pela mídia, enquanto elemento legitimador. No tempo de Castro Alves e Bilac a mídia não era tão forte, mas havia outras instâncias igualmente legitimadoras. No Brasil, por outro lado, a poesia de cordel e a própria poesia na música popular é bastante reverenciada e estudada.

João Aquino - A mídia, especialmente a televisão, contribui para o conhecimento ou banaliza as grandes obras poéticas?

Affonso - Depende de como é apresentada. Quando comecei a fazer poemas para TV, me lembro que o Henfil me alertou: “cuidado!” E eu sabia. E tinha consciência de que estava produzindo algo que não era mais a poesia literária convencional, mas um produto diferente, novo, que somava jornalismo, literatura, cinema etc.. Você tem que produzir textos dentro de um determinado tempo, tamanho, com imagens e ser entendido. Mas quando pegam o “Morte e vida Severina”, como fizeram, e dão um tratamento digno, o resultado é excelente.

Tainá Corrêa - O senhor já recebeu inúmeras premiações. O que um prêmio pode dar ao escritor? O prêmio é necessário?

Affonso - Drummond falava da “injustiça dos prêmios”. Tem autores com dezenas e dezenas de prêmios que não conseguem ser legitimados no sistema. Há quem não tenha ganhado nada e seja bem citado. No Brasil o prêmio não significa, como na Europa, que o livro vai vender mais. Só agora estão começando a valorizar o Jabuti, botar algo sobre os livros assinalando isto. O prêmio deveria ser um sinal de rito de iniciação para certos autores. Quanto a mim, já ganhei, já perdi e até já ganhei e perdi ao mesmo tempo. Houve um prêmio, por exemplo, que me foi dado e depois retirado, quando o júri descobriu meu nome. Quer dizer, isto também passa pela indisfarçável política literária.

Carlos Willian - Qual o maior poeta de todos os tempos?

Affonso - Não sei. Cada poeta que leio me serve alguma coisa, me alimenta de alguma maneira. Às vezes um verso reorienta nossa vida. Acho que os maiores poetas são aqueles que são necessários à nossa vida e não aqueles que satisfazem nossa erudição.

João Aquino - O poeta brasileiro da atualidade está cumprindo com o seu papel social?

Affonso -Eu tento cumprir o meu.

Chico Perna - O senhor, sem dúvida alguma, é um dos grandes poetas brasileiros, com uma poesia de fôlego e com alto teor crítico. Qual é análise que o Senhor faz do atual momento das letras brasileiras?

Affonso - Costumo dizer que o “sistema” literário brasileiro está meio como a maionese que desandou. Até os anos 70 tinha-se uma noção mais nítida do que estava acontecendo, quais os valores. Agora, acontece uma coisa que é boa por um lado: aumentou muito o número de autores novos. Mas, por outro lado, como o sistema não funciona (sistemicamente como deveria) não se tem noção exata de quem é quem e do valor de cada um. Em parte isto se deve também ao clima da chamada “pós-modernidadae”, que privilegia só o superficial. Veja as listas de best-sellers. Compare-as com as listas dos anos 70. Há trinta anos havia escritores na lista. Hoje há livros de auto-ajuda e humorismo. Baixou o nível. Por outro lado, a reportagem e a entrevista substituíram hoje a resenha e a crítica. E há muito espaço para livros estrangeiros, maior que para os brasileiros. Num seminário que Alberto Dines organizou no CCBB, há uns três anos, apresentei um texto analisando isto, que foi publicado

Carlos Willian - O que é poesia? O que é o poema?

Affonso- Estou há 50 anos tentando definir isto. Não sei quantos poemas fiz a respeito, e “A grande fala do índio guarani”, no fundo é uma grande pergunta sobre isto, a começar do primeiro verso: “Onde leria o poema de meu tempo?” A esse “onde”, adiciono depois o “como”, o “quando”, o “quem” etc. For a isto tenho um outro livro “Poesia sobre poesia”, onde há uma série de poemas- ensaios dobrados sobre essa questão

Saiba mais sobre o escritor na sua página oficial: http://www.affonsoromano.com.br/

Fonte da imagem: http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/11/affonso.jpg

LADRILHOS - PARA ASTOR PIAZZOLA


Francisco Perna Filho


















Todos os tombos,
a comiseração.
Abatido,
o homem perde-se.
Em si é algo alheio,
estrela em dissonância.
Alma, mar,
barco desfeito.
Tenta ser.
Espelho, desordem,
vinil num mundo moderno.
Velho,
pedaço,
vítima.

Nos ladrilhos do tempo,
ele espera.
Ãnos de soledad,
ninhos vazios,
asas quebradas.
Cansado, desespera-se.
Vaga em vão,
Voci[fera].
Como cães que
repetem as noites,
nadifica-se.



Imagem: "Café da Manhã de Um Homem Cego", de PABLO PICASSO. http://www.risconotempo.blogger.com.br/picasso8.jpg

ILUSÃO



Francisco Perna Filho











A luz na lâmina d’água,
o rosto nela refletido,
cirandas ondeantes
e o menino sorri do próprio rosto.
O balde desce ao fundo do poço
Experimenta tocar no menino,
Mas só encontra água.
O menino pula no poço.
Toca no balde,
Bebe da água
E não reflete mais.



Fonte da imagem: Marquinhos - Título: ESPELHO D'ÁLMA (nanquim sobre papel). ARQUIVO PESSOAL DE ANA VÍRGINIA http://www.aventureirodotraco.blogger.com.br

REGISTRO


Francisco Perna Filho

















O toque,
a primeira impressão:
digital.
Imperceptível
ela passa do dedo para a pele.
Na pele impressa e na pressa da ida
o registro do olhar.
O corpo,
o primeiro abraço fica,
mesmo sem querer o corpo
absorve o cheiro do outro.
A alma,
bastou uma impressão para ser descoberta.
As outras impressões
são apenas papel.



In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p.77.

Imagem: Pablo Picasso - The Lovers, 1923 - (National Gallery, Washington)

DA NECESSIDADE DE ENVELHECERMOS









Francisco Perna Filho











Quando nos damos conta, constatamos que o tempo passou tão depressa, que nós envelhecemos, pois já não somos mais aquela jovialidade que nos supúnhamos. Perdidos, às vezes, ficamos impossibilitados de não podermos mais fazer muito daquilo que fazíamos, as nossas forças, há muito, se esvaíram. Não há mais tempo para buscar o perdido, recuperar o irrecuperável.

Envelhecer poderia ser sinônimo de amadurecimento, de responsabilidade, de paz e tranquilidade, no entanto, temos constatado que não é bem assim, já que muitas pessoas, às vezes pela própria sorte, outras pela inconsciência, terminam por desvirtuar o verdadeiro sentido do que venha a ser envelhecer.

Amadurecer requer tomada de consciência, reflexão constante, aceitação; apesar de existirem os que envelhecem e não se dão conta disso, em si, permanecem como verdadeiros mocinhos, à revelia de tudo e de todos, ridiculamente expõem-se em trajes e atavios de uma idade que há muito se foi. Outros, por medo de envelhecer, unem bocas e orelhas, peitos e costas, virilhas e bundas, nas inúmeras plásticas que fazem, adquirindo deformidades que só aumentam o descontentamento, a baixa auto-estima e as crises existenciais, que levam à depressão.

Envelhecer traz responsabilidades, atitude, muitas vezes, não alcançada por algumas pessoas, já que, apesar dos anos, muitos indivíduos persistem na falta de compromisso, em não honrar acordos, buscando uma vida fácil à custa da boa vontade dos outros. São pessoas que desperdiçam o tempo, não querem progredir, não vislumbram melhoras, não têm expectativas. Tudo é momentâneo, não existe amanhã, até que o amanhã chegue e lhes mostre, outra vez, a necessidade.

Apesar de a velhice ser um momento de tranquilidade e paz, quantos indivíduos envelhecem com fel, falando mal da vida e do mundo, culpando a Deus pelas desgraças e desacertos, sempre perseguindo os seus semelhantes. Este tipo de gente insiste em destilar o seu veneno, a maledicência, a continuar explorar o próximo, a ordenar destruição e assassinatos. A sua bandeira é a prepotência e a arrogância. Quantos não estão por aí a ocupar cargos representativos: presidentes, governadores, juízes, só para citar algumas categorias, sem falar no simples escriturário, no estelionatário, no ladrão de galinhas. São seres que contribuem, e muito, para o caos social, já que não estão preocupados nem com o bem-estar das pessoas e nem com a harmonia planetária.

Viver não é fácil, é uma experiência muito dolorosa, mas gratificante. O que falta ao ser humano é uma tomada de consciência de que a alegria que brota na casa ao lado pode ser a ilusão de felicidade que trazemos. Não se constrói uma vida sem dor, e é da natureza humana envelhecer, Graças a Deus!. Envelhecemos para nos darmos conta de que o tempo não para, da possibilidade majestosa de outros seres virem ao mundo, da necessidade de nos vermos como pais, tios, avós. Tudo isso é muito belo e nos conforta. A natureza é sábia e nos cobra muito caro pelos nossos atos, tendo em conta que nos foi confiada a vida, que nos foi confiado um corpo, com o qual haveremos de enfrentar muitas dificuldades, muitas intempéries e percalços; difíceis caminhos teremos de percorrer.

Sendo assim, o sentimento de potência que trazemos é a primeira prova de que somos perecíveis, de que caminhamos com as nossas pernas, mas que uma força grandiosa nos conduz, apesar de pensarmos diferente, é assim que as coisas acontecem. Iludimo-nos com a eternidade, com a nossa juventude, com a perenidade, perdemos-nos nas nossas vontades e vaidades, nos nossos desejos e imposições. Quando Iludidos estamos pela eternidade, humanamente envelhecemos, humanamente partimos.


Pablo Picasso - La Vie, 1903 - (Cleveland Museum of Art, Ohio, U.S.)

ATÉ AS PEDRAS CANTAM - CRÍTICA MUSICAL






Originalmente, este texto foi publicado no dia 03 de julho de 2008, na Revista Bula: www.revistabula.com

Por Francisco Perna Filho



Minas Gerais já legou ao Brasil grandes nomes no campo das Artes. Na Literatura, destacamos Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Autran Dourado, Ziraldo, Ruy Castro, Mário Palmério e tantos outros; nas artes, mais especificamente na Música, os valores também são grandiosos, para apenas exemplificar, falemos de Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta, Flávio Venturini, Beto Guedes, Wagner Tiso, os grupos: Skank e Jota Quest.

Quando falei que Minas já legou, poderia ter mencionado outros nomes tão bons, mas sem o peso midiático, sem o conhecimento devido, sem a valorização, ainda do belo e grande trabalho que desenvolvem. Sei muito bem que o Brasil desconhece o Brasil, como bem sei, também, que Minas Gerais desconhece muito dos seus talentos artísticos, como é o caso do Mestre Obolari, como é conhecido o músico e professor universitário Geraldo Magella Obolari de Magalhães: Matemático, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental,e, para completar, piloto privado de avião.

As estações, a natureza, os nomes e as coisas vivem em perfeita harmonia na musicalidade marcante do Mestre Obolari, nelas estão o ritmo, a leveza e os tons, colhidos na alegre infância, na paisagem mineira rica em fauna e flora; em mitos e lendas, em muita musicalidade e força telúrica.

Obolari, que atualmente vive em Palmas – TO, no Centro-Norte do Brasil, é um cara tranqüilo, de bom papo, muito culto, apaixonado por literatura; um grande conhecedor da obra de Nelson Rodrigues. Obolari, com sua visão perquiridora, enxerga bem além da simples realidade, traz essa visão apurada para introspecção de suas músicas, sempre melodiosas, que falam de amor, relacionamentos e reencontros. Quem ouve Obolari, sem sombra de dúvidas, tem um registro para sempre das melodiosas baladas que, por certo, ainda embalarão muitos casais, serão temas de muitos romances e comporão a alegria das belas manhãs tropicais.

Será preciso conferir, em breve, suas belas canções, como: “Jamais” e “Fly Away” em parceria com Ed Porto; “Encontro “Até as Pedras Cantam”; “Doroty (Querendo Dizer)”; “Amor Interestelar”, já que o músico prepara seu primeiro CD, uma obra que já sai madura e com muita qualidade. Enquanto isso, para não ficarmos tão distante de suas melodias, uma palinha de “Fly Away”, ao vivo, em Ouro Preto: você pode conferir no final da página do Blog.

Foto by Francisco Perna Filho - Buenos Aires: Praça de Maio.

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