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Conto - João Guimarães Rosa

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Famigerado         Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranquilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.          Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.         Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte ti...

O Passado Remoto - Giovanni Papini

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Cartão postal: Torre Eiffel 1908 PRIMAVERA EM PARIS          Nunca vi Paris tão jubilosamente inundada de sol e de inteligência como na Primavera de 1914. Parecia que a velha Europa, antes de se envolver no manto de fogo e de luto, quisera oferecer a si própria uma última course aux flambeaux, num dos seus mais famosos boulevards.         O tempo estava quase sempre bonito, o céu tinha a amenidade perlada do mais cordial setentrião, a gente parecia contente de viver, e de viver precisamente naquela germinante estação. Nas árvores, que se erguiam entre as fortalezas burguesas dos grandes palácios negros, despontavam as primeiras folhas, a despeito do ar que cheirava a gasolina e a asfalto ainda húmido.          Por toda a parte reinava uma vida alacridade, uma temeridade de experiências, uma vontade de tentar e ir mais além que dava alm...

Giovanni Papini - O Afago do Anticristo

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    D e Inverno, quando o tempo estava sereno e havia sol, a minha mãe levava-me, antes do cair da tarde, até Lungarno [1] , para ver quem voltava das Cascine [2] . Naqueles tempos, senhores e estrangeiros todos os dias se dirigiam, como num ritual, ao longo do rio, até o túmulo do príncipe indiano, e voltavam depois juntos para a cidade. Aquele festivo regresso era um dos espetáculos mais caros aos Florentinos, que então se contentavam com pouco. Até os mais pobres assistiam com agrado àquele desfilar de carruagens reluzentes, puxadas por parelhas a trote e guiadas por cocheiro majestosos, de botas altas e cocares. Lá dentro, seguiam belas senhoras, luxuosamente agasalhadas, segundo a moda de então, e sorridentes senhores de barba loira, com altas e vistosas cartolas na cabeça. Passavam ainda, à mistura, carros de aluger e de praça com passageiros de menor categoria, mas o conjunto assumia uma nota alegre de nobreza, de graça e de fausto. Entre as demais, destaca...

Da minha terra à Terra

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Sebastião Salgado   Um retrato verbal do fotógrafo Capa do livro de  Isabelle Francq F otógrafo brasileiro multipremiado e de renome internacional,  Sebastião Salgado conta, em seu livro "Da minha terra à Terra", escrito pela jornalista Isabelle Francq , aspectos mais variados de sua vida pessoal e profissional;  esta repleta de acontecimentos interessantes, colhidos em suas andanças pelo mundo em busca de fotografias Sinésio Dioliveira "Da minha terra à Terra", livro lançado pela Editora Paralela, é fruto de uma série entrevistas que Sebastião Salgado, o mais premiado dos fotógrafos brasileiros e de renome internacional, concedeu à jornalista Isabelle Francq. Na apresentação da obra, ela ressalta que a escreveu para "fazer a voz de Sebastião falar" e assim lhe permitir mostrar "sua história pessoal, as raízes políticas, éticas e existenciais de seu engajamento fotográfico" até então "ignoradas...

Resistência e Linguagem: O Inventário Poético de Ítalo Francisco Campos

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Nesta Edição, a Revista Banzeiro traz a poesia de Ítalo Francisco Campos. Ítalo é goiano de  Uruaçu, mas vive em Vitória,Espírito Santos, desde 1976.Psicanalista e psicólogo formado pela UFMG, é Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. É também membro da Academia Espírito-santense de Letras e da Academia Uruaçuense de Letras. É criador do Varal de Poesia, evento cultural que se realiza anualmente no Vagão Espaço de Arte, em Manguinhos (Serra/ES). Com ampla participação na vida cultural e política da cidade, o autor colabora regularmente na imprensa com artigos e resenhas. Destaca-se ainda sua participação como organizador de importantes publicações na área da saúde: "Drogas em Debate" (1991); "DST/AIDS: uma experiência capixaba" (2003); e "Vidas Interrompidas" (2009). Escreveu e publicou "Interiores" (1995); "O Sádio e o Mentecap-to" (1998); "Sabor da Letra" (1999); "Anil Bucólica(s)" (2006); e ...