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Francisco Perna Filho - Poema

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Lavandiere - Cesare Bacchi (1881-1971) - Italiano Metáfora Agreste, a flor de couro floresce nas fendas do acaso. O tempo a dedilhar-lhe as entradas, as entranhas, os vazios, na secura do sertão. Serena, A flor de couro floresce na relva esquecida, no comprido lamento dos chocalhos, no guizo das serpentes a espreitá-la. Alheia, a flor de couro floresce desencantada, e na sua fome de cactos e pedras desconhece outras fomes que se avizinham. Agreste, a flor de couro floresce para a colheita. Este Poema ganhou o 2º lugar no Prêmio OFF Flip de Literatura - Paraty - 2014

Gabriel Garcia Márquez - conto

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Só Vim Telefonar Numa tarde de chuvas primaveris, quando viajava sozinha para Barcelona dirigindo um automóvel alugado, Maria de la Luz Cervantes sofreu uma pane no deserto dos Monegros. Era uma mexicana de 27 anos, bonita e séria, que anos antes tivera certo nome como atriz de variedades. Estava casada com um prestidigitador de salão, com quem ia se reunir naquele dia após visitar alguns parentes em Saragoça. Depois de uma hora de sinais desesperados aos automóveis e caminhões que passavam direto pela tormenta, o chofer de um ônibus destrambelhado compadeceu-se dela. Mas avisou que não ia muito longe. - Não importa – disse Maria. – Eu só preciso de um telefone. Era verdade, e só precisava para prevenir seu marido que não chegaria antes das sete da noite. Parecia um passarinho ensopado, com um agasalho de estudante e sapatos de praia em abril, e estava tão atordoada por tudo que esqueceu de levar as chaves do automóvel. Uma mulher que viajava ao lado do c...

Francisco Perna Filho - Crônica

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Eu jamais imaginara a dor da alma Quando eu era pequeno, ficava horas deitado no colo da “Mamãeninha” a ouvir o barulho sonolento e longínquo dos barcos a vapor, que cruzavam o Tocantins, precisamente em Miracema do Norte (Tocantins, até então, era só o rio), e ficava ali, na mais pura inocência, contemplando as estrelas, quando ela me fazia cafuné e me contava histórias, que iriam me marcar para sempre. Quantas e quantas vezes, ali, naquela meia-lua de cimento, em que eu me sentava e deitava no seu colo macio (ela sentada em tamborete) eu pude vê-la chorar, sem entender o que se passava, o que de fato ela estava sentindo. Eu era muito jovem para compreender o universo, e chorar, para mim, era apenas algo exterior, eu jamais imaginara a dor da alma. O tempo passou, eu cresci, ela se foi. A partir daí eu comecei a materializar a dor, o sofrimento, a ausência e a solidão, já não era mais o mesmo, apesar dos vinte e poucos anos, ainda cheio de muitos sonhos e ...

Francisco Perna Filho - Conto

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“Não há desejo do carrasco que não seja sugerido pelo olhar da vítima” ( Pasolini) 1 Você precisa matar, precisa matar. Use uma arma branca, não pode ser de outro tipo. Tem de matar. Só assim eles vão te reconhecer, vão te respeitar. Ali estava o corpo caído, o homem ainda ofegante. Quase ninguém percebeu. Já era tarde da noite. Uma sirene ao longe, um miado espaçado, algum gato perambulava pelos telhados vizinhos. E o corpo ali, ainda com vida. Ele parado, parado e frio, como a noite de terça. Na altura do tórax, a faca, branca, branca. Pintada de branco, mas já não tão branca. Havia sangue nela, sangue coalhando, como ele, ali congelado, não ouvia mais nada. Um táxi passou em disparada. As vozes sempre me perseguiram, não tem momento certo. De noite, de madrugada, de dia, como se alguém falasse no meu ouvido. Já me acostumei com elas, às...