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Ymah Théres - Poema

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                                                                      Sonata O corpo - presilha verde na rede da vida imersa pouco a pouco se dissipa dos loucos búzios, dos mares.              Vira um lago, uma enseada em que os espelhos transmigram o corpo - corpo bebido de veneno, morte lenta. O corpo - metade breve de arlequinadas memórias nos mastros ocres da angústia na devassa de ilusão. Irmão vencido na guerra das horas por sobre as horas dos anos idos, dos vindos o corpo - flor decepada.                 Da haste, um relógio-pênsil que se alteia e se debruça nos movediços da argila o corpo - fe...

Sergio Napp - Poema

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                         XII não se beija o morto ao morto se agradece pela vida cerca de pedra subitamente interrompida não se lamenta o morto do morto se registram as virtudes e o inúmeros vícios não se culpa o morto ao morto se perdoa o que ficou nas entrelinhas e os silêncios não se julga o morto do morto guarda-se o último registro carteira de identidade um anel de pedras falsas não se purga o morto o morto é quadro na parede das lembranças saudade que acontece em repentes do morto não te despeças o morto é tempo que não te abandona In. Poetas do Brasil Imagem: Sergio Napp

Gabriel Nascente - Poema

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POEMA PARA THIAGO                         I Me dê cá a mão, filho. A caminhada depois da infância é dura. O sonho depois da infância é duro. A vida depois da infância é duro. Depois da infância a infância é dura.                         II Filho, me dê cá a mão. Do berço à maturidade celestial de teus olhos, caminharás pelas escarpas do mundo com teu pesadíssimo fardo de sonhos e medo.                         III É inútil, filho, combater os fantasmas dentro da luz. O ódio, a traição e a morte são invisíveis na trajetória da vida, apesar do velho lume estendido na cabeça deste planeta. É inútil, filho, beijar a face de Eros, melhor seria libertar o pensamento do maior subversivo da história que ainda jaz sangrando na cruz, ou no fundo de alguma prisão.     ...

Machado de Assis - Conto

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A IGREJA DO DIABO Capítulo I De uma idéia mirífica Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. — Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se divi...

Carlos Drummond

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Poema da purificação Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio. As água ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram. Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo, e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador. Imagem retirada da Internet: Anjo de LUz

Guilherme de Almeida - Poema

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Essa que eu hei de amar Essa que eu hei de amar perdidamente um dia será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela, que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela, trazer luz e calor a essa alma escura e fria. E quando ela passar, tudo o que eu não sentia da vida há de acordar no coração, que vela… E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia, quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro, e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro do poente, me dizia adeus, como um sol triste… E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado, mas ias tão perdido em teu sonho dourado, meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!" Imagem retirada da Internet: loura e bela

Yara Ferreira - Poema

  Vestal Cartesiana   há um deus que perfura as almas para ver o que elas têm por dentro como se alí ao procurar fosse encontrar a si mesmo. deus, olhai-me dentro. procure e ache o que não posso ver: minha própria imagem num espelho negro. meu coração agora é todo chamas, a incendiar-me inteira a cada pensamento. e comigo eu sei, também morre um deus desfeito nas cinzas da esperança mostrando sua real face: a minha imagem à minha semelhança. Imagem retirada da Internet: vestal