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Brasigóis Felício - Ensaio Crítico

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                                                              Vidas Secas -  Foto by Evandro Teixeira Vidas secas                                                                                                                         ...

Ronaldo Costa Fernandes - Poema

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A visão dos teus quartos O parlamento do corpo na assembléia de membros, tua bunda, tuas duas luas nuas, o sistema solar do assoalho, os olhos chineses da persiana, e, tu, na ventriloquia do telefone. Tu, que és distúrbio, multidão de uma só pessoa, passeata de sopranos e bombardinos, me lanças coquetéis molotovs e me incendeias com a gasolina dos teus cheiros. Os poros como ventosas, os pelos se eriçam como línguas tremelicantes. Cai a chuva amarela da luz dos postes. Meus dedos têm memória: tocam o espinho de carne do teu seio. Teu biquinho do peito como o segredo do cofre, vou rodando até fazer clic e aí teu coração – ou o tesão – se abre. (do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000) Imagem retirada da Internet: mulher

Manuel Bandeira - Poema

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Tragédia brasileira Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria. Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo o que ela queria. Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado. Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa. Viveram três anos assim. Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa. Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos... Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e ...

Raul Bopp - Poema

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Urucungo Pai-João, de tarde, no mocambo, fuma E as sombras afundam-se no seu olhar. Preto velho afaga no cachimbo a lembrança dos anos de trabalho que lhe gastaram os músculos. Perto dali, no largo pátio da fazenda, umbigando e corpeando em redor da fogueira, começa a dança nostálgica dos negros, num soturno bate-bate de atabaque de batuque. Erguem-se das solidões da memória coisas que ficaram no outro lado do mar. Preto velho nunca mais teve alegria. às vezes pega no urucungo e põe no longo tom das cordas vozes que ele escutou pelas florestas africanas. Dói-lhe ainda no sangue uma bofetada de nhô-branco. O feitor dava-lhe às vezes uma ração de sol para secar as feridas. Perto dali, enchendo a tarde lúgubre e selvagem, a toada dos negros continua: Mamá Cumandá Eh bumba. Acubabá Cubebé Eh Bumba. In.Urucungo (1932) Imagem retirada da Internet: Pai-João

Raul Bopp - Poema

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Fórmula - Vamos fazer um trato numa conta corrente de interesses: Eu te elogio. Tu me elogias. Seremos lembrados. Seremos fortes. Seremos gênios. O povo pensa pelo que lê nos jornais. Um dia o Prefeito, lá na província telegráfica, mandará levantar um bustinho em praça pública. Imagem retirada da Internet: político

Raul Bopp - Poema (fragmentos)

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Cobra Norato I Um dia ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim. Vou andando, caminhando, caminhando; me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes. Depois faço puçanga de flor de tajá de lagoa e mando chamar a Cobra Norato. — Quero contar-te uma história: Vamos passear naquelas ilhas decotadas? Faz de conta que há luar. A noite chega mansinho. Estrelas conversam em voz baixa. O mato já se vestiu. Brinco então de amarrar uma fita no pescoço e estrangulo a cobra. Agora, sim, me enfio nessa pele de seda elástica e saio a correr mundo: Vou visitar a rainha Luzia. Quero me casar com sua filha. — Então você tem que apagar os olhos primeiro. O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas. Um chão de lama rouba a força dos meus passos. II Começa agora a floresta cifrada. A sombra escondeu as árvores. Sapos beiçudos espiam no escuro. Aqui um pedaço de mato está de castigo. Árvorezinhas acocoram-se no charco. Um fio de água at...

Raul Bopp - Poema

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História do Brasil em quadrinhos No meio do Brasil havia um rio que não tinha margens. Rio imenso. A água corria, corria. Correu tanto que um dia secou. Apareceram, então, na crosta mole, à flor da terra, montões de pedrarias de vivas rutilâncias. O sol brincava com diamante. Dos barrancos beiçudos, sangrava ouro, em veios retorcidos. O ferro relampeava nas jazidas, que se estendiam em léguas intermináveis. Deus pensou um pouco: Será melhor que o ser humano não pegue logo essas riquezas! Mandou o Anjo Número Um cobrir de terra isso. Amontou montanhas. Espalhou mato em toda parte. - Quem quiser essa opulência que a procure! E escondeu o petróleo mais pro fundo. Depois disse pro Anjo: - Vou passar aqui as minhas férias. Essa terra é mesmo tão graciosa, sem tufões, sem vulcões, sem terremotos. E ficou esperando pelos acontecimentos históricos.                            II Um dia, v...