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Gonçalves Dias - Poema

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Seus olhos Oh! rouvre tes grands yeux dont la paupière tremble, Tes yeux pleins de langueur; Leur regard est si beau quand nous sommes ememble! Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble Que tufermes ton coeur. Turquety Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, Estrelas incertas, que as águas dormentes Do mar vão ferir; Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Têm meiga expressão, Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta De noite cantando, — mais doce que a frauta Quebrando a solidão, Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, São meigos infantes, gentis, engraçados Brincando a sorrir. São meigos infantes, brincando, saltando Em jogo infantil, Inquietos, travessos; — causando tormento, Com beijos nos pagam a dor de um momento, Com modo gentil. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos, Às vezes vulcão! Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,...

JJ Leandro - Conto

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               O segredo dos hamsters do nazista Cresci ouvindo todo mundo dizer que o alemão da nossa rua era nazista. Mas só anos depois descobri toda carga de ódio histórico que a palavra carrega. Antes disso o via com olhos indulgentes. Era solitário, e não parecia opção sua. Só isto bastava para eu me encher de pena. Diziam que se isolava porque seus segredos eram tantos e tamanhos que vivia com medo de cometer inconfidências durante o sono que o prejudicassem irremediavelmente. Por isso, diziam também, nem mulher arranjara desde a chegada ao Brasil. Era criança e pensava na implicância das pessoas como puro despeito por ele viver num belo sobrado ao pé da ladeira entre casas humildes de empregados da fábrica de tecidos que logo cedo acordava o bairro com um apito estridente, descoroçoando os galos nos quintais. Com chuva ou neblina, frio ou calor, os trabalhadores beijavam mulheres e crianças e dirigiam-se pontualmente ao servi...

JJ Leandro - Conto

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Garotas, cuba libre e cigarros Carolina oferecia a noite para diversão de um adolescente de minha idade no final da década de 1970. E só. A partir da sexta-feira, formava um grupo com amigos do colégio e apostava quem beijaria primeiro uma garota na boate Itapuã. Íamos mesmo a pé porque ninguém tinha carro, chutando gorgulho e cachorro nas ruas sem calçamento até a beira do rio. A Itapuã era um quiosque de madeira, grande e redondo, pregado perigosamente no barranco do Tocantins. De longe o ritmo rebolante da  dance music  excitava nossas libidos. Lá dentro as meninas esperavam o nosso assédio. Convencional, quase um tácito jogo de gato e rato. Udinei, baixinho falante, cabelos pretos e lisos, adiantava-se ao grupo, fazia-o estacar quase com a autoridade de um comandante que põe o pelotão em ordem antes da batalha, para defender com ares de péssimo filósofo a igualdade entre os sexos: — Se nós estamos loucos por uns beijos, elas não estão menos. Um estímulo e tanto para ...

Álvares de Azevedo - Poema

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Foto by   Lev Dolgatshjov Quand on te voit, il vient à maints Une envie dedans les mains De te tâter, de te tenir... Clément Marot Seio de virgem    O que eu sonho noite e dia, O que me dá poesia E me torna a vida bela, O que num brando roçar Faz meu peito se agitar, E' o teu seio, donzela!   Oh! quem pintara, o cetim Desses limões de marfim, Os leves cerúleos veios, Na brancura deslumbrante E o tremido de teus seios!   Quando os vejo, de paixão Sinto pruridos na mão De os apalpar e conter... Sorriste do meu desejo? Loucura! bastava um beijo Para neles se morrer!   Minhas ternuras, donzela, Votei-as à forma bela Daqueles frutos de neve... Aí duas cândidas flores Que o pressentir dos amores Faz palpitarem de leve.   Mimosos seios, mimosos, Que dizem voluptuosos: "Amai-nos, poetas, amai! "Que misteriosas venturas "Dormem nessas rosas puras E se acordarão num ai!"   Que lírio, que nívea rosa, Ou camél...

Álvares de Azevedo - Poema

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  Foto by Lev Dolgatshjov À T... Amoroso palor meu rosto inunda, Mórbida languidez me banha os olhos, Ardem sem sono as pálpebras doridas, Convulsivo tremor meu corpo vibra: Quanto sofro por ti! Nas longas noites Adoeço de amor e de desejos E nos meus olhos desmaiando passa A imagem voluptuosa da ventura... Eu sinto-a de paixão encher a brisa, Embalsamar a noite e o céu sem nuvens, E ela mesma suave descorando Os alvacentos véus soltar do colo, Cheirosas flores desparzir sorrindo Da mágica cintura. Sinto na fronte pétalas de flores, Sinto-as nos lábios e de amor suspiro. Mas flores e perfumes embriagam, E no fogo da febre, e em meu delírio Embebem na minh'alma enamorada Delicioso veneno Estrela de mistério! Em tua fronte Os céus revela, e mostra-me na terra, Como um anjo que dorme, a tua imagem E teus encantos onde amor estende Nessa morena tez a cor de rosa Meu amor, minha vida, eu sofro tanto! O fogo de teus olhos me fascina, O langor de teus ol...

Álvares de Azevedo - Poema

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Foto by  Ivan Grlic Amor                                                    Quand la mort est si belle,  Il est doux de mourir.  V. Hugo Amemos! Quero de amor Viver no teu coração! Sofrer e amar essa dor Que desmaia de paixão! Na tu'alma, em teus encantos E na tua palidez E nos teus ardentes prantos Suspirar de languidez! Quero em teus lábio beber Os teus amores do céu, Quero em teu seio morrer No enlevo do seio teu! Quero viver d'esperança, Quero tremer e sentir! Na tua cheirosa trança Quero sonhar e dormir! Vem, anjo, minha donzela, Minha'alma, meu coração! Que noite, que noite bela! Como é doce a viração! E entre os suspiros do vento Da noite ao mole frescor, Quero viver um momento, Morrer contigo de amor!

Olavo Bilac - Poema

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  Foto by Jaime  Brum Deixa o olhar do mundo X Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido, se, mais cedo, Todo o afeto que sentes se mostrasse? Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens, afrontando-os face a face: Quero que os homens todos, quando eu passe, Invejosos, apontem-me com o dedo. Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh'alma se consome De te exaltar aos olhos do universo... Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: E, fatigado de calar teu nome, Quase o revelo no final de um verso.