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O Poeta da Totalidade - Ensaio Crítico

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Por Rodrigo Petrônio* S e o poeta é mesmo um mediador, como queria Platão, aquele que intercede pelos deuses e faz falar em sua voz humana as palavras numinosas e divinas, que encarna na língua dos homens aquela linguagem ancestral de onde não só promana o verbo, mas que possibilita a própria existência da linguagem, poucos poetas deram um testemunho tão arrebatador dessa potência da poesia do que Saint-John Perse. E esse milagre se realiza com tanta pujança que, no seu caso, falar de poesia como se essa fosse um correlato do sagrado chega a ser quase um truísmo. Não só poesia e sagrado são a única e mesma coisa, como a melhor metáfora para o poema seria a de um altar em chamas, onde se consuma o fogo dos deuses e onde o homem se imola, sacrifica-se em sua finitude humana para, assim e somente assim, ingressar no reino da Totalidade que lhe fundamenta em seu ser e aderir ao devir de um tempo finalmente redimido. N ão é por acaso que, tendo-se em mente tal natureza de criação poé...

Gottfried Benn - Poema

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                                 Ah, o país distante Ah, o país distante, onde aquilo que desgarra o coração sobre seixos redondos ou sobre juncos, como libélulas frementes murmura, e a lua de luz astuta       - metade madura, metade branca de espigas – ergue, tão consoladora, o duplo fundo da noite –        ah, o país distante, onde o fulgor dos lagos aquece as colinas, por exemplo Asolo, onde repousa a Duse; todos os navios de guerra, mesmo os ingleses, baixaram as bandeiras quando “Duílio” passou por Gibraltar, trazendo-a de Pittsburg, de volta –         lá, monólogos sem relação com o que é próximo, sentimentos íntimos precoces mecanismos, fragmentos de totem no ar brando – um pouco de pão doce na jaqueta – assim passam os dias, até que depois de um longo voo os pássaros possam p...

Escritor e filósofo Benedito Nunes morre aos 81 anos

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Companhia das Letras Da Folha. com Ilustrada O escritor e filósofo paraense Benedito Nunes, 81, morreu na manhã deste domingo (27). Ele estava internado havia dez dias no Hospital Beneficência Portuguesa de Belém (PA). Às 20h de sábado (26), foi transferido ao CTI (Centro de Terapia Intensiva), após sofrer hemorragia no estômago, mas não resistiu. O corpo está sendo velado na igreja Santo Alexandre. Amanhã, às 9h será realizada uma missa de homenagem ao escritor e logo após, às 11h, o corpo será cremado no cemitério Max Domini, localizado no município de Marituba (20km de Belém). VIDA E OBRA Nascido em Belém em 21 de novembro de 1929, Benedito José Viana da Costa Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, posteriormente incorporada à Faculdade Federal do Pará. Por "A Clave do Poético", Nunes recebeu o prêmio Jabuti na categoria crítica literária, em 2010. No mesmo ano, ganhou o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo co...

Diléa Frate - Conto

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Palhaçada        Eram dois palhaços: o palhaço esperto e o esperto palhaço. O palhaço esperto era exatamente igual ao esperto palhaço. Impossível reconhecê-los, assim, a olho nu. O único que sabia exatamente quem era o esperto palhaço era o palhaço esperto. O palhaço esperto era responsável por todos os números engraçados do circo, enquanto o esperto palhaço apenas aproveitava do talento e semelhança do outro, para ficar fazendo micagens. Apesar da confusão, o palhaço esperto nunca se importou com as enganações do outro; ao contrário: achava graça em ver que o público se divertia, enganado pelo falso talento do outro. Já o esperto palhaço morria de inveja do talento de seu semelhante e, um dia,  durante um número perigoso de equilíbrio no fio, cortou um pedaço da rede que devia sustentar o companheiro, que caiu no chão e morreu. Ninguém pôde acusar o esperto palhaço, que, esperto, escondeu todas as provas. Conseguiu se esconder até de si mesmo. Sem...

Imortal da Academia de Letras, Moacyr Scliar, morre aos 73 anos

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Graciliano Rocha De Porto Alegre (RS) Morreu neste domingo (27) o escritor e colunista da Folha Moacyr Sclyar, 73. A morte ocorreu à 1h. Segundo o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, onde ele estava internado, Scliar teve falência múltipla dos órgãos. O velório acontece hoje na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, a partir das 14h. O escritor sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) isquêmico no dia 17 de janeiro. Ele já estava internado para a retirada de pólipos (tumores benignos) no intestino. Moacyr Scliar morreu aos 73 em Porto Alegre; corpo será velado a partir das 14h na Assembléia do RS Logo depois do AVC, o escritor foi submetido a uma cirurgia para extirpar o coágulo que se formou na cabeça. Depois da cirurgia, ele ficou inconsciente no centro de terapia intensiva. O quadro chegou a evoluir para a retirada da sedação, mas no dia 9 de fevereiro o paciente foi abatido por uma infecção respiratória e teve de voltar a ser sedado e à respira...

Maria Teresa Horta - Poema

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POEMA PARA A NOITE            Beijo    o à vontade das mãos    na imagem dos homens         O oceano    por entre o oceano         a paz estagnada    no contorno dos espelhos         Beijo-te    na terra à secreção    dos passos         ódios redondos    acuado de seios         a noite na espessura      quente    das almofadas sem manhã         a imortalidade      abortada    que mulheres conduzem    presas    pelo ventre e saciadas    de filhos         Beijo    o absoluto contido    nos objetos sem casta         a incerteza branca    das paredes    imóveis  ...

Vasco Graça Moura - Poema

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Auto-retrato com a musa 1 . vejo-me ao espelho: a cara severa dos sessenta, alguns cabelos brancos, os óculos por vezes já mais embaciados. sobrancelhas espessas, nariz nem muito ou pouco, sinal na face esquerda, golpe breve no queixo (andanças da gilette). ia a passar fumando mais uma cigarrilha medindo em tempo e cinza coisas atrás de mim. que coisas? tantas coisas, palavras e objectos, sentimentos, paisagens. também pessoas, claro, e desfocagens, tudo o que assim se mistUra e se entrevê no espelho, tingindo as suas águas de um dúbio maneirismo a que hoje cedo. e fico feito de tinta e feio. 2 quem amo o que é que pode fazer deste retrato? nem sabê-lo de cor, nem tê-lo encaixilhado, nem guardá-lo num livro, nem rasgá-lo ou queimá-lo, mas pode pôr-se ao lado e ter prazer ou pena por nos achar parecidos ou não achar. quem amo não fica desenhado, fica dentro de mim e é quando mais me apago e deixo de me ver e apenas me confundo,...