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Antônio Ramos Rosa - Poema

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Maio de 68 As linhas, mil linhas, novas linhas do ar que circula numa língua desligada, de uma fábrica de ervas violentas, jovens, nutrindo o pulso e os membros, água de silêncio, no ar agora, nas avenidas abertas ao silêncio, nas pedras sem memória, sem medo, vitória que se perde na frescura rápida, princípio irrefragável desvanecido, vindo, lanço a fronte no ar para a linguagem viva que respira na espessura fragmentada morta perseguida no vazio, obscura carga, peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado, no entusiasmo irreparável da língua por viver do corpo imediato no centro - turbilhão - da árvore. Terra, o solo comum, originário, em que descalços surgir, ó boca, surgir como só um de nós, na praia de um presente aberto, o vulcão surdo convertido em jorro de ar, a boca restituída ao corpo, a língua dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer, razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única razão, anterior chama de ar submersa, que nos lábios soçobra, agora se levanta, fr...

Antônio Ramos Rosa - Poema

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Antônio Ramos Rosa Se não vivo ainda de um país branco e vermelho ou de uma mulher de um magnífico fruto se por ela não tremo e por ti não digo ou não tremo e escrevo sem uma estrela viva sem uma sombra de amor é porque saí do teu ventre e pela interdição de o fender de o abrir na tua fenda primeira numa Primavera derradeira e por ti e por ela poderei viver ainda e num arco-íris de sombra ou de areia respirar como um astro subterrâneo o espaço do mar o sono de um canto adolescente ó maravilhoso gemido de um abandono sem futuro! Lisboa, 24/11/06 In. Revista Poesia Sempre. nº 26, Ano 14. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, p.24, 2007. Imagem retirada da Internet: arco-íris

Brasigóis Felício - Ensaio

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Por Brasigóis Felício A liturgia da caneta No lançamento do livro “Pescando peixes graúdos em águas goianas”, do poeta Geraldo Pereira, representando a Ube-go, fui chamado a dizer algumas palavras. Disse da diferença que existe entre as pessoas que planejam, alimentam sonhos, e as que se deixam levar como peraus na correnteza: as primeiras têm futuro, enquanto as outros têm destino. Falei da decadência a que se entregam as nações que não escutam as vozes de seus poetas. Ou de estadistas que honram a liturgia dos cargos que exercem, esmerando-se em dar exemplos positivos aos povos que lideram, animando-os com palavras sábias, nobres e belas, e outros, que agem como se fossem animadores de circo, acrobatas de buteco, e piadistas indecorosos, envaidecidos de não lerem livros, e de não gostar dos que os lêem ou escrevem – como diz o senador Mão Santa, ele prefere fazer duas horas de esteira a ler, de um livro, uma página inteira! A história de Geraldo Pereira, este poeta longilíneo, espand...

Paulo Leminski - Poema

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Amor Amor, então, também acaba? Não, que eu saiba. O que eu sei é que se transforma numa matéria-prima que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima. In. Caprichos & nrelaxos. Paulo Leminski. São Paulo: Brasiliense, 1983, p.89. Imagem retirada da Internet: amor meu grande amor

Ivan Junqueira - Poema

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INÊS: O NOME Inês é nome que se pronuncia Para instigar ou seduzir prodígios, é senha que as sibilas balbuciam ao decifrar enigmas cabalísticos. É mais do que isto: códice da língua, raiz da fala, bulbo do lirismo. É gênese da raça e do suplício, arché do amor e substância prima. É mais ainda: tálamo do espírito, dessa alquimia de morrer em vida e retornar na antítese do epílogo. E quem disser que Inês é apenas mito - mente. E faz dela inútil pergaminho. E da poesia um animal sem vísceras. In. A rainha arcaica. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p.114. Imagem retirada da Internet: Pedro e Inês

Ana Cristina César - Poema

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O tempo fecha Sou fiel aos acontecimentos biográficos. Mais do que fiel, oh! tão presa! Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos? Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional. In. A teus pés. São Paulo: Brasiliense, 1982, p.9. Imagem retirada da Internet: Ana Cristina César

Carlos Nejar - Poema

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Contra a esperança É preciso esperar contra a esperança. Esperar, amar, criar contra a esperança e depois desesperar a esperança mas esperar, enquanto um fio de água, um remo, peixes existem e sobrevivem no meio de litígios; enquanto bater a máquina de coser e o dia dali sair como um colete novo. É preciso esperar por um pouco de vento, um toque de manhãs. E não se espera muito. Só um curto-circuito na lembrança. Os cabelos, ninhos de andorinhas e chuvas. A esperança, cachorro a correr sobre o campo e uma pequena lebre que a noite em vão esconde. O universo é um telhado com sua calha, tão baixo e as estrelas, enxame de abelhas na ponta. É preciso esperar contra a esperança e ser a mão pousada no leme de sua lança. E o peito da esperança é não chegar; seu rosto é sempre mais. É preciso desesperar a esperança como um balde no mar. Um balde a mais na esperança e sobre nós. In. Os melhores poemas. Carlos Nejar. São Paulo: Global, 1984, p.46. Imagem retirada da Internet: corra-tempo