Postagens

Manuel Maria Barbosa du Bocage - Poema

Imagem
BOCAGE Sonetos Oh tranças, de que Amor prisões me tece, Oh mãos de neve, que regeis meu fado! Oh tesouro! oh mistério! oh par sagrado, Onde o menino alígero adormece! Oh ledos olhos, cuja luz parece Ténue raio de sol! Oh gesto amado, De rosas e açicenas semeado, Por quem morrera esta alma, se pudesse! Oh lábios, cujo riso a paz me tira, E por cujos dulcíssimos favores Talvez o próprio Júpiter suspira! Oh perfeições! oh dons encantadores! De quem sois?...Sois de Vénus? - É mentira Sois de Marilia, sois de meus amores. In. Sonetos e outros poemas. Bocage. São Paulo: FTD, 1994, p.25 Imagem: Catherine Zeta-Jones . B y Artemisia_2008 .

Francisco Perna Filho - Crônica

Imagem
VISGO ILUSÓRIO* Por Francisco Perna Filho Começo este texto dizendo que uma das coisas mais difíceis na vida é encontrar a palavra certa para aquilo que queremos expressar. Pois bem, escritores, poetas, compositores, todos eles de alguma forma já trataram desse assunto, falaram da luta diária pelo verbo preciso, pelo vocábulo não corrompido, pela palavra ideal para traduzir um estado de espírito, um sentimento vivido, ou para, simplesmente, relatar as impressões do cotidiano. Carlos Drummond de Andrade muito bem tratou desse assunto: “Lutar com palavras é a luta mais vã./Entretanto lutamos/mal rompe a manhã.” A luta de que fala Drummond é a mesma a que me refiro: o embate cotidiano daqueles que se debruçam sobre a escrita, que vislumbram a recifração de um mundo em ruína, que se alimentam em sonhos de uma escrita encantada, de um pensamento materializado. Pensar a palavra é querê-la na sua condição plural, representativa, desconcertante, dilacerante, às vezes. Cada vocábulo, no texto/c...

Murilo Mendes - Poema

Imagem
Murilo Mendes Estudo Para Uma Ondina Esta manhã o mar acumula ao teu pé rosas de areia, Balançando as conchas de teus quadris. Ele te chama para as longas navegações: Tua boca, tuas pernas, teu sexo e teus olhos escutaram. Só teus ouvidos é que não escutaram, ondina. Minha mão lúcida sacode a floresta do teu maiô. Ao longe ouço a trompa da caçada às sereias E um peixe vermelho faz todo o oceano tremer. Tens quinze anos porque já tens vite e sete, tens um ano apenas... Agora mesmo nasceste da espuma, E na incisão do ar líquido alcanças o amor dos elementos. In. Metamorfoses . Murilo Mendes. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 65. Imagem: Nu - Filipe - Braga, Portugal

Francisco Perna Filho - Conto

Imagem
Francisco Perna Filho Encontro de amigos F ui o primeiro a chegar, tudo era silêncio, as luzes ainda estavam apagadas. Entrei, deixei alguns livros sobre a escrivaninha, sentei-me e fiquei esperando para ver quem entrava depois de mim. Era muito cedo, li alguns textos, fiz algumas pesquisas, conferi a manchete dos principais jornais, e esperei. Por algum momento, tive a impressão de que alguém havia chegado. Pura impressão! Somente eu permanecia ali. Impacientei-me, deixei um aviso de que eu estava presente, mas que me ausentaria por um instante. Saí, fui à padaria da esquina, tomei um café delicioso, li o jornal diário, e voltei para interagir com os amigos, mas nada, eles ainda não tinham chegado. Fiquei preocupado, será que eu me enganara quanto ao horário? Não! Pude ver que já passava das oito e eles não chegavam, ninguém dava sinal de vida. Resolvi adiantar umas atividades, escrevi algumas páginas, permaneci ali na expectativa, coloquei uma m...

Murilo Mendes - Poema

Imagem
Murilo Mendes Minha Órfã Porque não quis te olhar, ficaste cega. Sei que esperas por mim Desde o tempo em que usavas tranças e brincavas com arco. Sei que esperas por mim, Mas eu não quis olhar Porque me debrucei sobre o mito de outras, Porque não me sabes dar, pobre amiga, O sofrimento e a angústia que formam a catástrofe. Roxelane, Roxelane: Porque tens olhar morto e cabelos sem brilho, Boca sem frescura e sem expressão, Eu te desdenhei e não ouvi teu apelo, Teu último apelo vindo da solidão e da infância remota. Roxelane, Roxelane: Tua tristeza recairá sobre mim, assumirei tua orfandade, conhecerás o gozo e verás desdobrar-se a esperança, Enquanto eu recolherei para sempre A tua, a minha e a miséria de outros, Triste e apagada Roxelane, vitoriosa Roxelane. In. As Metamorfoses. Murilo Mendes. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 25 Imagem: la-nota-y-el tono-nostalgia-tristeza

Sinésio Dioliveira - Fotopoema

Imagem
Sinésio Dioliveira MALQUERENÇA Em vez de pedras, quero borboletas nas mãos. As pedras não vão longe; as borboletas sim: sozinhas e voando. A dor da pedra fere apenas a pele. A dor da borboleta machuca o coração. (E por isso pode até virar flor...) Foto by Sinésio Dioliveira - Todos os direitos reservados

Sinésio de Oliveira - Fotopoema

Imagem
Sinésio Dioliveira ANTROPOFAGIA No princípio só havia olhares. O desejo, demônio faminto, se aproximou mais: dos olhos chegou às bocas. Foram poucas palavras distantes daquilo que os olhos gritavam. O verbo então se fez carne... Foto by Sinésio Dioliveira - Todos os direitos reservados