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Mostrando postagens de junho, 2011

Amadeus Amado - Poema

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Miragem Pura miragem, esta tarde: o vermelho ilude os teus olhos; nada me faz entristecer. Só o vento, aqui, é verdadeiro. Tombam homens, mansões, torres e sonhos. Eu permaneço firme, fincado, contemplando os teus olhos: vermelhos e ausentes. Imagem retirada da Internet: ventania

Mário Jorge Bechepeche - Ensaio Crítico

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              Foto by Sinésio Dioliveira Peripécias sagazes de Valdivino Braz "O Gado de Deus”, de Valdivino Braz, pode ser considerado uma das referências insignes do romance brasileiro A pertinácia escritural de Valdivino Braz é um cenário de incontido jorro fervilhante e contínuo de galopes fráseos, de lépidos e desvairados petardos estruturais, linguísticos; enfim, um perfilamento e culminação de um remodelismo conjuntivo de décadas literárias. A prosa, com “Cavaleiro do Sol” (1977), e a poesia, “As Faces da Faca” (1978), ressentem-se do assanho impactador de neófito que assoma os horizontes deslumbrantes e irresistíveis da criação literária, mas ainda subjugado pelo imediatismo das temáticas e das influências de autores impregnantes e irresistíveis (como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo.) que ainda não revelam aquele seu futuro buril raiado que ele instauraria nas publicações posteriores, fantasticamente aguç...

Cecília Meireles - Poema

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Primeiro Motivo da Rosa Vejo-te em seda e nácar, e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera, toda a Beleza em lágrimas por ser bela e ser frágil. Meus olhos te ofereço: espelho para face que terás, no meu verso, quando, depois que passes, jamais ninguém te esqueça. Então, de seda e nácar, toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero o rosto meu, nas lágrimas do teu orvalho... E frágil. Imagem retirada da Internet: Cecília Meireles

Cecília Meireles - Poema

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Timidez  Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve... - mas só esse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes... - palavra que não direi. Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponho vestidos noturnos, - que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres, os mundos vão navegando nos ares certos do tempo, até não se sabe quando... e um dia me acabarei. Imagem retirada da Internet: Cecília Meireles

Sinésio Dioliveira - Poema

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Buscando a eufonia Buscando a eufonia das cores da música que a poesia canta, minha lingu'estica minha língu'ag'em busca do mel poético que há nas coisas. Buscando a eufonia das cores da música que a poesia canta, faço serem suaves os pleonasmos viciosos, hiatizo um ditongo , ditonguizo o hiato . Imagem retirada da Internet: O Mel

Sinésio Dioliveira - Poema

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Nervo na flor da pele O nervo na flor da pele no fundo do vale a fúria expele o furor deságua e enxágua o suor carnal dos dois. O biquini de renda a flor, a fenda caminho que o espinho se enfia e se afia ferindo o vórtice voraz que afaga o afã da fome da faca. O nervo na flor da pele - estrela de pelos negros - ate-nua a agonia da pele bebendo o suor da outra estendida do lençol.

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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Amar Que  pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. Imagem retirada da Internet: Carlos Drummond de Andrade  

Pablo Neruda - Poema

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Gosto quando te calas Gosto quando te calas porque estás como ausente e me escutas de longe; minha voz não te toca. É como se tivessem esses teus olhos voado, como se houvesse um beijo lacrado a tua boca. Como as coisas estão repletas de minha alma, repleta de minha alma, das coisas te irradias. Borboleta de sonho, és igual à minha alma, e te assemelhas à palavra melancolia. Gosto quando te calas e estás como distante. Como se te queixasses, borboleta em arrulho. E me escutas de longe. Minha voz não te alcança. Deixa-me que me cale com teu silêncio puro. Deixa-me que te fale também com. teu silêncio claro qual uma lâmpada, simples como um anel. Tu és igual a noite, calada e constelada. Teu silêncio é de estrela, tão remoto e singelo. Gosto quando te calas porque estás como ausente. Distante e triste como se tivesses morrido. Uma palavra então e um só sorriso bastam. E estou alegre, alegre por não ter sido isso. Tradução :Domingos Carvalho da Silva In....

Pablo Neruda - Poema

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Todos Eu talvez eu não sei, talvez não pude, não fui, não vi, não estou: ― que é isto? E em que Junho, em que madeira cresci até agora, continuarei crescendo? Não cresci, não cresci, segui morrendo? Eu repeti nas portas o som do mar, dos sinos, eu perguntei por mim, com encantamento (com ansiedade mais tarde), com chocalho, com água, com doçura, sempre chegava tarde. Já estava longe minha anterioridade, já não me respondia eu a mim mesmo, eu me havia ido muitas vezes. Eu fui à próxima casa, à próxima mulher, a todas as partes a perguntar por mim, por ti, por todos e onde eu estava já não estavam, tudo estava vazio porque simplesmente não era hoje, era amanhã. Porque buscar em vão em cada porta em que não existiremos porque não chegamos ainda? Assim foi como soube que eu era exatamente como tu e como todo mundo. Tradução: Luiz de Miranda In.  Últimos poemas . Porto Alegre: L&PM Editores,1983.  Imagem retirada da Internet: porta ...

Ulisses Tavares - Poema

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Esquizo Tem um cara dentro de mim Que faz tudo ao contrário: Não temo amar, ele se borra Sou esperto, ele é otário Não amolo ninguém, ele torra Acredito em tudo, ele é ateu Sou normal em sexo, ele tarado Agito sempre, ele fica parado sou bacana, ele escroto quem me faz infeliz e torto É sempre ele, nunca fui eu. Imagem retirada da Internet: duplo

Braulio Tavares - Poema

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A coisa Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo com pernas que ela terá de crescer de si própria;   e que seja ela uma máquina viva, uma máquina capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir. Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez. Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas e metonímias e quarks e transistores e estames e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial...   Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei, e vi a eletricidade do relâmpago abrindo seus olhos e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar, e gritei: "Levanta-te e anda!"- e a coisa era uma galáxia tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando com meus olhos de homem, me sorrindo com tantas bocas de mulher, me envolvendo com sua sintaxe de coisa nov...

Francisco Perna Filho - Poema

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Prece  Afasta de mim, meu Deus, este cinza dos olhos, a lonjura da esperança e o declive do desengano. Não permitas que a zombaria seja fato nesta tarde, mas que o afeto escandalize todo o resto do dia. Sobriedade, Senhor, é o que eu peço, para compor esta elegia em louvor às ruas desertas, aos cais abandonados, e  às ausências perpetuadas. Imagem retirada da Internet: cais abandonado

Hermann Hesse - Poema

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JUNHO EM DIA DE VENTO O lago está parado feito vidro. Na alcantilada encosta da colina ondula em prateado a relva fina. Lastimosa e com seu temor da morte, grita no ar uma ave de arribação cambaleando em curvas indecisas. Voando para cá, vem do outro lado um som de foice e um forte olor do prado. In. Andares. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.57. Imagem retirada da Internet:  Lago Llanquihue

Ferreira Gullar - Poema

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Cantiga para não morrer       Quando Você for se embora moça branca como a neve me leve me leve         Se acaso você não possa me carregar pela mão Menina branca de neve me leve no coração Se no coração não possa por acaso me levar Moça de sonho e de neve me leve no seu lembrar e se aí também não possa  por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento Moça branca como a neve me leve no esquecimento

Pablo Neruda - Poema

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FAREWELL  Desde o fundo de ti, e ajoelhado um menino triste, como eu, nos olha. Pela vida que arderá nas suas veias teriam que amarrar-se nossas vidas. Por essas mãos, filhas das tuas, teriam que matar as minhas mãos. Pelos seus olhos abertos na terra verei nos teus lágrimas um dia. Eu não o quero, Amada. Para que nada nos amarre que nada nos una. Nem a palavra que perfumou tua boca nem o que disseram as palavras. Nem a festa de amor que não tivemos, nem os soluços junto à janela. (Amo o amor dos marinheiros que beijam e partem. Deixam uma promessa. Não voltam nunca mais. Em cada porto uma mulher espera: os marinheiros beijam e partem. Uma noite deitam-se com a morte no leito do mar. Amo o amor que se reparte em beijos, leite e pão. Amor que pode ser eterno ou que pode ser fugaz. Amor que quer libertar-se para voltar a amar. Amor divinizado que se chega amor divinizado que se vai.) Já não se encantarão meus olhos nos teus, já não abran...

Fagundes Varela - Poeta

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Juvenília VII Ah! quando face a face te contemplo, E me queimo na luz de teu olhar, E no mar de tua alma afogo a minha, E escuto-te falar; Quando bebo no teu hálito mais puro Que o bafejo inefável das esferas, E miro os róseos lábios que aviventam Imortais primaveras, Tenho medo de ti!... Sim, tenho medo Porque pressinto as garras da loucura, E me arrefeço aos gelos do ateísmo, Soberba criatura! Oh! eu te adoro como a noite Por alto mar, sem luz, sem claridade, Entre as refegas do tufão bravio Vingando a imensidade! Como adoro as florestas primitivas, Que aos céus levantam perenais folhagens, Onde se embalam nos coqueiros presas Como adoro os desertos e as tormentas, O mistério do abismo e a paz dos ermos, E a poeira de mundos que prateia A abóbada sem termos! ... Como tudo o que é vasto, eterno e belo; Tudo o que traz de Deus o nome escrito! Como a vida sem fim que além me espera No seio do infinito. Imagem retirada da Internet: Fagundes Varela...

Luiz de Miranda - Poema

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No coração Mais que bela aquela que o poema não deu e se quebrou no cristal do bar Mais que esta a festa que o amor perdeu diluindo-se nas palavras sem voz Mais que a despedida a vida que se acende no coração com a esperança de quem chega Imagem retirada da Internet: Ibisco

Jacques Prévert - Poema

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Familiale La mère fait du tricot Le fils fait la guerre Elle trouve ça tout naturel la mère Et le père qu'est-ce qu'il fait le père? Il fait des affaires Sa femme fait du tricot Son fils la guerre Lui des affaires Il trouve ça tout naturel le père Et le fils et le fils Qu'est-ce qu'il trouve le fils? Il ne trouve absolument rien le fils Le fils sa mère fait du tricot son père des affaires lui la guerre Quand il aura fini la guerre Il fera des affaires avec son père La guerre continue la mère continue elle tricote Le père continue il fait des affaires Le fils est tué il ne continue plus Le père et la mère vont au cimetière Ils trouvent ça naturel le père et la mère La vie continue la vie avec le tricot la guerre les affaires Les affaires la guerre le tricot la guerre Les affaires les affaires et les affaires La vie avec le cimetière. Imagem retirada da Internet:: combatente

Francisco Perna Filho - Poema

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Geografia Mando o meu endereço no envelope, não quero que me respondas, apenas que me visites. Certeza  eu não tenho a respeito do rio, das corredeiras e do desbotado silêncio de suas lendas. Mas necessito que venhas, para eu entender de vez a tua geografia. Imagem retirada da Internet:   mulher

Luiz de Miranda - Poema

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By Paolo Pagani:   Mulher nua sentada Liricamente O amor na distância sempre trai fico sem alicerce nesse início de abandono descalço na rua de dentro do meu próprio amor que é sabido mas surpreende iluminando-me Amor, espécie de felicidade passageiro do verão de maio amor, silêncio de música assemelhado à cor ao cheiro às linhas do teu corpo nu In.Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Instituto Estadual do Livro, 1995, p. 275.

Renato Russo - Poema

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Tempo perdido Todos os dias quando acordo, Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir, Lembro e esqueço como foi o dia: "Sempre em frente, Não temos tempo a perder". Nosso suor sagrado É bem mais belo que esse sangue amargo E tão sério E selvagem. Veja o sol dessa manhã tão cinza: A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos. Então me abraça forte e me diz mais uma vez Que já estamos distantes de tudo: Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora. O que foi escondido é o que se escondeu E o que foi prometido, ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido; Somos tão jovens. Imagem retirada da Internet: Renato Russo

Jacques Prévert - Poema

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PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO                                                                             Para Elsa Henriquez Primeiro pintar uma gaiola com a porta aberta pintar depois algo de lindo algo de simples algo de belo algo de útil para o pássaro depois dependurar a tela numa árvore num jardim num bosque ou numa floresta esconder-se atrás da árvore sem nada dizer sem se mexer… Às vezes o pássaro chega logo mas pode ser também que leve muitos anos para se decidir Não perder a esperança esperar esperar se preciso durante anos a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro nada tendo a ver com o sucesso do quadro Quando o pássaro chegar se chegar guardar o mais profundo silêncio esperar que o pássaro entre na gaiola e quando já estiver lá dentro fech...

Jacques Prévert - Poema

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O combate com o anjo Não vás Tudo já foi combinado A luta é fraudulenta E quando ele aparecer no ringue Nimbado de relâmpagos de magnésio Eles entoarão aos berros o TEU DEUM E antes que te levantes da cadeira Tocarão os sinos sem parar Jogarão no teu rosto A esponja sagrada E não terás tempo de voar-lhe nas penas Cairão sobre ti E ele te golpeará no baixo-ventre Desabarás Os braços estupidamente em cruz Na serragem E nunca mais poderás fazer amor. Tradução de Dora Ferreira da Silva Imagem retirada da Internet: Jacques Prévert

J. Guillén - Poema

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Uma Porta Entreaberta, uma porta. A quem busca essa luz? Fluente o claro-escuro.         Transparente e foge - Para quem o silêncio - Um âmbito de clausura.                        Chama, talvez promete                   A incógnita. Vislumbres.                   Pra que sol tal repouso?         E o trajeto propõe, Dirige por um ar Vazio e persuasivo.          Interior. As paredes Enquadram bem a incógnita. Aqui? Nogal, cristal.                          Um silêncio se isola.                       Familiar, muito urbano?                       Cheira a uma rosa diária.   ...

Allen Ginsberg - Poema

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Arte é ilusão, pois eu não ajo Fico ou Parto – com constante alegria Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados Santa prece para o conhecimento ou puro fato. Então enceno a esperança de que posso criar Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais Um triste paraíso é o que imito E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros. Neste estado não mundano em que me movimento Minha Fé e Esperança são diabólica moeda corrente Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos Em torno de mim, e troco minha alma por amor. Tradução Cláudio Willer Imagem retirada da Internet: Allen Ginsberg

François Villon - Poema

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BALADA DA GORDA MARGOT Se amo e sirvo a dama de bom grado, Pensareis que sou vil e cabeçudo? Ela faz tudo que é do meu agrado, Por seu amor eu cinjo adaga e escudo. Se vem cliente, a um trago mais graúdo De vinho me recolho, a um canto perto. De água, pão, fruta e queijo faço oferta. “Bene stat” – eu digo a quem mais vaza – “E volte sempre se embaixo lhe aperta, Aqui neste bordel que é a nossa casa.” Mas ocorre que as coisas ficam pretas Quando sem prata vem dormir Margot. Mal posso vê-la, de ódio às suas tretas. Tomo cinto e jaqueta, e o que mais for. E juro que me servem de penhor. Ela, punhos nas ancas “Anticristo!” Grita e jura por Nosso Senhor Jesus Cristo, Que não dará. Com um pau lhe quebro as asas E em seu nariz lhe gravo o meu escrito Aqui neste bordel que é nossa casa. Depois vem paz e solta um peido bruto, Venenoso qual sapo dendrobata. Logo me acerta, rindo, o cocuruto: “Vem vem, neném”, nas coxas me arrebata. E dormimos qual saco de batat...

François Villon - Poema

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Balada dos Enforcados Irmãos humanos que depois de nós viveis. Não tenhais duro contra nós o coração. Porquanto se de nós, pobres, vos condoeis. Deus vos concederá mais cedo o seu perdão. Aqui nos vedes pendurados, cinco, seis: Quanto à carne, por nós demais alimentada. Temo-la há muito apodrecida e devorada, E nós, os ossos, cinza e pó vamos virar. De nossa desventura ninguém dê risada: Rogai a Deus que a todos queira nos salvar! Chamamo-vos irmãos : disso não desdenheis. Apesar de a justiça a nossa execução Ter ordenado. Vós, contudo, conheceis Que nem todos possuem juízo firme e são. Exculpai-nos – que mortos, mortos, nos sabeis - Com o filho de Maria, a nunca profanada; A sua graça, para nós, não finde em nada, No inferno não nos venha o raio despenhar. Ninguém nos atormente, a vida já acabada. Rogai a Deus que a todos queira nos salvar! A chuva nos lavou, limpou-nos, percebeis; O sol nos ressequiu até à negridão; Pegas, corvos cavaram nossos olhos – ...

João Bonifácio - Ensaio Crítico

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  Raymond Radiguet: o regresso do mais odiado A vida de Raymond Radiguet foram 20 anos e o tifo a ceifá-lo depois de um jorro de mulheres, escândalo, ódio popular, escrita fria e as inevitáveis comparações com Rimbaud. O seu romance de estreia, "Com o Diabo No Corpo", escrito em idade precoce, volta a estar entre nós. Foi-se embora com a mesma pressa com que surgiu e enquanto cá esteve nunca abrandou, nunca olhou para trás ou sequer para os lados: escreveu, escreveu e, consta, viveu com a ferocidade dos audazes ou dos escolhidos. E depois já lá não estava. Deixou um rasto de escândalo, obras por publicar, amigos fraternais, ódios extremos e amores, muitos amores vividos com celeridade e sangue quente. Com coração frio, dizia Cocteau - seu protector e, constam as más línguas, amante -, mas com sangue quente. Deixou, também, um livro de poesia publicado ainda em vida, bem como um romance, que espoletou iras e o tornou famoso, "Le Diable au Corps" - que finalme...

Marinalva Barros - Poema

POEMA DE AMOR E RIO VI As digitais de um rio Tatuaram meu espírito Sou por isso matizada, Povoada de estações Afeita a cidades antigas E ruas estreitas. Alinhavada de correntezas. 

Catulo da Paixão Cearense - Poema

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O CANGACEIRO     E U  me chamo Sivirino      Sapiranga, sim, sinhô.      Sou fio de Zé Fôstino,      que era fio d’um tropêro,      Frô dos Santo, meu avô. Sou naturá de Umbuzêro, da Paraíba do Norte, a terra das patativa que eu amo cum todo o amô de valente cangacêro!... apois cangacêro eu sou.      Não paga a pena, seu moço,      eu dizê pruquê rézão      já varei cum a parnaíba      mais de vinte coração! Minha históra é atrapaiada, é toda cheia de ispinho, e, cumo lá diz o outro, seu moço, as água passada já não move mais muinho. Óie, moço!... Não há munío, distante um casa de légua de S. Migué de Traipú, eu fisguei um cavaiêro, o fio d’um fazendêro, cumo quem fisga um tatu. Esse garoto e canáia um dia róbou de casa a neta de um comboêro, que era um hôme tão bondoso, e despois, aband...