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Mostrando postagens de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

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MEMÓRIA abundância de rastros que não se cancelam fascinados pelo assombro de atravessar as esperas com seus passos abortos subindo pelas artérias em busca de outro corpo (Do livro Entre as junturas dos ossos , Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006) Imagem retirada da Internet: passos

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

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OS PÁSSAROS os pássaros de pedra dilatam as oferendas os pássaros de carne batem-se contra as grades os pássaros de lata arrulham nas ferrovias dos nervos os pássaros de madeira mascam o macio dos músculos os pássaros de papel voam para dentro das crases os pássaros de carvão rabiscam suas asas no ventre os pássaros de fogo puxam os pássaros de chuva os pássaros de pano acalentam os pássaros de pranto (Do livro Entre as junturas dos ossos , Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006) Imagem retirada da Internet: pássaros

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

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PAISAGEM solidão de morros solidão de tetos mudos solidão congênita de estradas um cão manco um passante apressado uma touceira um muro uma calçada Imagem retirada da Internet: solidão (Do livro Entre as junturas dos ossos , Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

A LAMA a lama de que brotou o osso a lama de casa própria pegadiça e lenta a lama de fundo de quintal a lama de chuva fina (ancoradouro de enxurradas) a lama por onde deflui a essência do nosso sangue a lama onde roça o nosso pisado a lama de que se molda a substância do cordão umbilical (Do livro Entre as junturas dos ossos , Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

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ONDE onde vou buscar as areias onde vou buscar o barulho do branco no sol a palavra do branco e seu avesso onde vou buscar as pegadas no branco os ossos moídos no branco os cemitérios brancos (Do livro Entre as junturas dos ossos , Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006) Imagem retirada da Internet: cemitério

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

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PELO FOGO DA FALA pelo fogo das palavras pela sarça ardente das palavras pisando por rugas de telhas enquanto o coração crescia pelo fogo da fala pelo pavio secreto da língua pela fagulha ardente crescia meu coração como crescem as folhas que o vento arrasta no ardor da combustão (Do livro Entre as junturas dos ossos , Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006) Imagem retirada da Internet: centelha

Vera Lúcia de Oliveira - Poema

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  Neste final de ano, o Banzeiro Textual apresenta uma coletânea de  Poemas de Vera Lúcia de Oliveira, gentilmente organizada pela Autora para este Blog. Vera é uma das maiores vozes da Poesia Brasileira Contemporânea.  Vera Lúcia de Oliveira é doutora em Línguas e Literaturas Ibéricas e Ibero-Americanas pela Università degli Studi di Palermo (Itália). Atualmente ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia (Itália). O livro inédito La carne quando è sola, escrito originalmente em italiano, foi o vencedor do Prêmio Internacional de Poesia Piero Alinari, organizado pela Fundação Alinari, de Florença, em colaboração com Cátedra Giuseppe Ungaretti da Columbia University, de New York. O mesmo será publicado pela editora SEF (Società Editrice Fiorentina). Em 2006, o Ministério da Educação outorgou-lhe o Prêmio Literatura para Todos, na categoria de poesia, pelo livro Entre as junturas dos ossos, publicado pelo MEC em 110 mil e...

Fiódor Dostoiévski - Conto

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A árvore de Natal na casa de Cristo Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo...

Pablo Neruda - Poema

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Foto by  Walter Rosa A canção desesperada Emerge a tua lembrança da noite em que estou. O rio junta ao mar o seu lamento obstinado. Abandonado como o cais de madrugada. É a hora de partir, oh abandonado! Sobre meu o coração chovem frias corolas. Oh porão de escombros, feroz caverna de náufragos! Em ti se acumularam as guerras e os voos. De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto. Tudo engoliste, como a distância. Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio! Era a alegre hora do assalto e do beijo. A hora do espanto que ardia como um farol. Ansiedade de piloto, fúria de um megulhador cego turva embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio! Na infância de nevoa minha alma alada e ferida. Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio! Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo. Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio! Fiz retroceder a muralha de sombra. andei mais para l do desejo e do ato. Oh carne, carne minha, mulher que amei e...

Francisco Perna Filho - Poema

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VIDENTE O olho que vê o não visto precipita-se na visão do que não há. A luz que trespassa a ausência converte-se em ponto cego. A palavra que transcende o real magnifica-se em metáforas silentes. Imagem retirada da Internet: Olho  

Jules Morot - Poesia Francesa Contemporânea

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MOZART Leem-se os gregos suecos, alemães ou a doce língua de não sei quantos de não sei que imóvel pedaço de página claves de sol talvez o latim o alano o islandês e é sempre a mesma música sempre como um veio numa flor grossa obscena Diz um   um alfinete   diz outro um parafuso pois sim uma fina difusa coisinha semimorta semi-deitada semi-cerrada uma inteligente coisa muda maior que um tiro na orelha pois não uma espécie de porta de dor discreta. Meu bom senhor olhai nos prados nas tabernas nos ermitérios nos armários um rasto de cão Nos óculos do primeiro violino tudo desaparece. Tendes vós sono, desejo de novas estações? Tendes florins? Tendes, acaso, em dias já passados mãos musicais, sinais de outras mortes? in “Le mardi-gras” (Honfleur – 2003/8) Trad. Nicolau Saião Fonte: Portal Cronópios Imagem retirada da Internet: Mozart

Rosa María Teixidor - Poema

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Orfeo en el inframundo te miro a los ojos del abismo donde ya no hay salvación para los dos. *** La mujer gigante mueve la cola de serpiente y mira por la ventana la naturaleza muerta. *** Soledad que paseas en el palacio de arena y bailas  con los zapatos de cristal una triste canción. *** Eres la mujer invisible y remas entre las baldosas, buscando las estrellas que dejaste escritas cuando te marchaste. *** Fonte: LaOtra Imagem retirada da Internet: Orfeu

Rosa María Teixidor - Poesia

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El ruido de los pájaros en la máquina  de escribir Estoy muerta y vivo en el infierno. Soy yo, la que habla con los muertos. En el nuevo mundo el diablo escucha la Novena sinfonía de Beethoven. Destruyes las cadenas que el consejero te advirtió siempre no traspasar. Y has cambiado de piel sabiendo que al cruzar la puerta el eco de tus palabras te seguirá a donde vayas. *** Tú, ya no eres tú eres alguien que ha roto las ramas del árbol y se mece en los brazos de Hermes. *** Con unas tijeras recorto lo que queda de mí. *** El tejado está ardiendo y millones de estrellas te observan. *** Gritas porque te salen hormigas de los ojos y tus dedos son serpientes que trepan por los muros de las casas vecinas. No puedes dormir te escondes detrás de las cortinas y tienes la mirada de un vagabundo pidiendo limosna en la boca del metro. *** En la tela de una araña parpadean tus ojos de mortal. *** Los puntos, las rayas, las comas son sólo susurros d...

Amandio Sobral - Conto

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A podridão viva Quem pode saber ao certo, as feras horrendas, fantásticas, os monstros de outras idades que a tenebrosa África esconde no âmago das suas imensas florestas negras e no fundo de suas grandes lagoas escuras?  NOTA: Isto não é conto, nem um produto da imaginação do novelista. É apenas a reprodução fiel, autêntica, da narrativa encontrada no testamento do grande sábio paleontólogo inglês Lord Arthur Brent, que declara tê-Ia ouvido de Sir Ronald Tealer, presidente da poderosa Ivory TealerManufacruring C. Ltd. de Londres, Cape Town e Bombay, que durante muitos anos viveu nas selvas inexploradas daimensa África Austral. Esses dois cavalheiros, um, glória da ciência mundial, outro, de palavra acatadíssima no alto mundo financeirodos dois continentes, eram incapazes de uma narrativa menos verídica. ¤ No alto comércio de Londres chamavam-no por um apelido original: "O homem que tem medo d' África".  Espadaúdo, alto, muito queimado d...

Carlos Drummond de Andrade - Conto

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flor, telefone, moça  Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos. Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho. – Sei de um caso de flor que é tão triste! E sorrindo: – Mas você não vai acreditar, juro. Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira. – Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista.  Você sabe, quem mora por ali...

Marcos Crotto - Conto Vencedor do Concurso Juan Rulfo

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              Marcos Crotto Comunión Caminaba entre las tumbas. No había más de veinte, adornadas con flores y cintitas. Una huerta de cruces perdida en la cordillera recibiendo los colores del cielo. Dejó la mochila sobre una lápida y en la pantalla de su cámara digital congeló una cruz de madera armada con dos troncos y un Cristo tallado en la corteza. Me gustaría que me enterraran en un lugar así, dijo. La piel blanca que la musculosa dejaba libre se le había puesto algo rosa en esos días. Le sacó fotos a un pajarito amarillo que movía la cabeza encima de una lápida y a un abejorro que se metía una y otra vez en la trompeta de una flor que se abrazaba a una cruz de hierro. Se sentó en una piedra y prendió un porro. Es como si los propios muertos, después de recorrer toda la tierra, hubiesen decidido entrar allí, dijo, en este lugar apartado de los hombres, y dormir para siempre en la roca de colores tan cerca del cielo. Christophe, que ...