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Mostrando postagens de setembro, 2010

Brasigóis Felício - Ensaio curto

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A glória de criar galinhas “Muito da literatura não vale um dente de alho”. Se a matéria da literatura não pulsa, e se não sangra, a tão glorificada criação não teria a dignidade que pode ter uma criação de galinhas. Compartilho com o pensamento de Raduan Nassar, um escritor genial, que renunciou à literatura, depois de consagrar-se, com a publicação de Lavoura arcaica e Um copo de cólera. Penso que os escritores e artistas, em geral (e aí eu me incluo) padecem de enxurrilho e incontinência verbo-borral, e danam a produzir livros, quadros e músicas às pencas, sendo a maioria repetição do já feito, e de qualidade bem chinfrin, depois de haverem criado o que neles foi um instante de beleza e perfeição, em que a forma entrou em acordo com o conteúdo. As pessoas que se dizem artistas deveriam ter o senso da prudência e parar quando tenham atingido o seu auge. Gênios da literatura, de...

Pettras Felício - Crônica

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O sincericídio do Tiririca Pettras Felício * Falo nesta crônica da tentativa de assassinato político do Tiririca, que se propõe a ser palhaço político em uma casa onde tantos militam, impávido-colossos, como arautos boquirrotos de causas inconfessáveis e abaixo de qualquer suspeita. Muitos o criticam e deploram, embora centenas de milhares, em ato de irresponsabilidade ou de protesto, se dizem dispostos a dar-lhe o seu sagrado voto. Sendo eleito, mesmo fazendo palhaçadas de todo tipo, não será mais lamentável do que as brigadas companheiras, a defender com unhas e dentes a roubania e os desmandos dos governos. Muitos tem erguido alto a luz de seus fachos e gritado a plenos pulmões contra a carnavalização da política, representada, dizem, pelo palhaço Tiririca. Defensores da alta política, do fino jogo ideológico, senhores versados nas ciências e nos meandros da política estão envergonhados com a jocosidade, licenciosidade, ou deboche mesmo, com que Tiririca, e outros de maquiagem m...

Isabel Dias Neves – Belinha - Crônica

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RECADO A QUEM VIVE NO CERRADO Viemos a este mundo para aproveitar a vida! Se isto é verdade, nada melhor que usar a natureza para tornar a existência mais prazerosa. Assim, não ligue para as idéias desses ambientalistas nem para as campanhas dos órgãos públicos sobre meio ambiente! Eles estão com os bolsos empilhados de dinheiro. Não pare de usar o Cerrado. Abuse mesmo dele, um biomazinho que nem patrimônio nacional é. Até agora, só conseguimos destruir 48,4% do seu patrimônio. Temos que ser mais eficientes! Comece a trabalhar pela sua casa. Se houver árvores na calçada, corte-as. Assim, o vento fica mais livre para nos acariciar a pele e o sol, bem mais solto para nos iluminar e aquecer. Dizem que duas árvores substituem um aparelho de ar condicionado, mas chique mesmo não é ter muitas máquinas em casa? Para que sombra? Tem muita gente desocupada e folgada deitada debaixo de árvores. É verdade que elas transformam gás carbônico em oxigênio. No mais, é exagero de cientista. ...

Alexandre Bonafim - Poema

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CELEBRAÇÃO DAS MARÉS I Um risco de veleiros em fuga sempre foi o teu nome. Arquipélagos de incandescentes pássaros os teus olhos. Os frutos do sal, a íris do sol na filigrana das águas, os cardumes do outono, clamam em teus pulsos a presença de um fogo vivo, cicatriz de um oceano em fúria. Sempre foi o teu nome as marés. Em cada palavra do teu ser, navegam barcos de pólen, peixes de constelações ardentes. Em cada silêncio dos teus gestos, nasce o azul dos cavalos marinhos, movimento dos remos singrando o mistério. O teu nome sempre foi os promontórios, as ilhas desvairadas pelo verão. Sobre tua nudez repousam a brancura das velas infladas, a plena luminosidade do meio-dia. Em teu destino os corais tramaram a encantação das estrelas marinhas, a memória dos búzios. Essa é a convocação das marés: fazer do teu rosto o destino das ondas, a areia desfeita nas orlas. No teu nome o sono das crianças apascentou a cólera dos naufrágios. Imagem retirada da Internet: marés

Sinésio Dioliveira - Poema

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Meu re-Seio é encontrá-lo árido pra mim e meus lábios morrerem de sede. Sei-o de cor na ponta da língua. Imagem retirada da Internet: seio

Anna Akhmátova (Anna Andreyevna Gorenko) - Poema

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Aprendi a viver com simplicidade Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, a olhar o céu, a fazer minhas orações, a passear sozinha até a noite, até ter esgotado esta angústia inútil. Enquanto no penhasco murmuram as bardanas e declina o alaranjado cacho da sorveira, componho versos bem alegres sobre a vida caduca, caduca e belíssima. Volto para casa. Vem lamber a minha mão o gato peludo, que ronrona docemente, e um fogo resplandecente brilha no topo da serraria, à beira do lago. Só de vez em quando o silêncio é interrompido pelo grito da cegonha pousando no telhado. Se vieres bater à minha porta, é bem possível que eu sequer te ouça. Tradução de Lauro Machado Coelho Anna Akhmátova. Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM. Imagem retirada da Internet: Anna

Affonso Romano de Sant'Anna - Poema

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Separação Desmontar a casa e o amor. Despregar os sentimentos das paredes e lençóis. Recolher as cortinas após a tempestade das conversas. O amor não resistiu às balas, pragas, flores e corpos de intermeio. Empilhar livros, quadros, discos e remorsos. Esperar o infernal juizo final do desamor. Vizinhos se assustam de manhã ante os destroços junto à porta: -pareciam se amar tanto! Houve um tempo: uma casa de campo, fotos em Veneza, um tempo em que sorridente o amor aglutinava festas e jantares. Amou-se um certo modo de despir-se de pentear-se. Amou-se um sorriso e um certo modo de botar a mesa. Amou-se um certo modo de amar. No entanto, o amor bate em retirada com suas roupas amassadas, tropas de insultos malas desesperadas, soluços embargados. Faltou amor no amor? Gastou-se o amor no amor? Fartou-se o amor? No quarto dos filhos outra derrota à vista: bonecos e brinquedos pendem numa colagem de afetos natimortos. O amor ruiu e tem pressa de ir embora envergonhado. Erguerá outra casa, o ...

Francisco Perna Filho - Poema

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COBRA DE FOGO Não sabem os homens que o fogo consome, assim como a água, tudo que vê. Um corredor de fogo, uma serpente de labaredas, uma convulsão de calor e amarelidão. O cerrado treme, grita, estrala. Rapidamente, é consumido. Os homens, endemoniados, roubam dos deuses o fogo, e lançam suas chamas, queimando o seco que brotaria, o verde ainda tenro. Os homens, sem escrúpulos, sem culpa, sem misericórdia, roubam da natureza a vida. De um lado, o rio, “cobra de vidro”, singra. Do outro, o cerrado, cobra de fogo, sangra. Os homens, senhores do fogo, zombam dos deuses, ao anunciarem a sua incúria, a sua insensatez, passeando pelas ruas largas da cidade, nos seus carros de som. Os bairros, doídos de abandono, com suas ruas engasgadas de fumaça, gemem desolados. As casas, que também gritam, vomitam a fuligem das queimadas folhas, o pó que se alastra pelos seus alpendres, assistidas pelo mormaço desses longos dias. Palmas, 21 de setembro de 2010 Imagem retirada da Internet: cobra de fogo

Anna Akhmátova (Anna Andreyevna Gorenko) - Poema

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LENDO "HAMLET" I No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé e, por trás dele, brotou um rio azul. Tu me disseste; "Então vai para o convento ou casa-te com um idiota..." Só os príncipes falam sempre assim. Mas eu lembro dessas palavras: deixem que elas flutuem por cem séculos como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros. II E como por engano eu disse: "Tu..." Iluminou-se a sombra com o sorriso suave de meu amado. Esse é o tipo de deslize da língua que faz com que todo mundo fique te olhando... Mas eu te amo, como quarenta meigas irmãs. Anna Akhmátova. Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM. Imagem retirada da Internet: Anna

Brasigóis Felício - Crônica

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A revolução dos catrumanos O homem é o único animal que, sabendo-se humano, pode se tornar desumano. Supra-sumo sapiente, embora insano e cruel, inclusive em relação aos seus irmãos. Não saber ter “o poder de ser bom”, que é a vacina mais certa contra todas as formas de maldade. “O alto poder existindo para os braços da maior bondade”, conforme intuiu Riobaldo, nos intervalos das travessias do Grande Sertão:Veredas , em que rasgava gerais, em suas lutas jagunceiras, antes de atravessar a terra sinistra e deserta do Liso do Sussuarão. Encarnação de milagre foi Riobaldo (um rio baldo), tão tosco e brejeiro, mas tendo clarões da eternidade, ao perceber que existem “semeados na terra” que não fazem parte da humanidade, pois que tendo nascido como pessoas, não conseguiram tornar-se humanos. Separa-os da humanidade “o não saberem das redes de proibições e alianças que preside...

Paulo Henriques Brito - Poema

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elogio do mal 1 A uma certa distância todas as formas são boas. Em cada coisa, um desvão; em cada desvão não há nada. À mão direita, a explicação perfeita das coisas. À esquerda, a certeza do inútil de tudo. Ter duas mãos é muito pouco. Por isso, por isso os nomes, os nomes que embebem o mundo, e os verbos se fazem carne, e os adjetivos bárbaros. 2 O mundo se gasta aos poucos. A coisa se basta a si mesma, mas não basta ao que pensa um mundo atulhado de coisas que se apagam sem pudor, que se deixam dissipar como quem não quer nada. Existir é muito pouco. Por isso, por isso os nomes, os nomes que se engastam nas coisas e sugam o sangue de tudo e sobrevivem ao bagaço e negam a tudo o direito de só durar o que é duro, e roubam do mundo a paz de não querer dizer nada. 3 Bendita a boca, essa ferida funda e má. In. Antônio Miranda Imagem retirada da Internet: mãos

Joaquim Cardozo - Poema

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O RELÓGIO Quem é que sobe as escadas Batendo o liso degrau? Marcando o surdo compasso Com uma perna de pau? Quem é que tosse baixinho Na penumbra da ante-sala? Por que resmunga sozinho? Por que não cospe e não fala? Por que dois vermes sombrios Passando na face morta? E o mesmo sopro contínuo Na frincha daquela porta? Da velha parede triste No musgo roçar macio: São horas leves e tenras Nascendo do solo frio. Um punhal feriu o espaço. . . E o alvo sangue a gotejar, Deste sangue os meus cabelos Pela vida hão de sangrar. Todos os grilos calaram Só o silêncio assobia; Parece que o tempo passa Com sua capa vazia. O tempo enfim cristaliza Em dimensão natural; Mas há demônios que arpejam Na aresta do seu cristal. No tempo pulverizado Há cinza também da morte: Estão serrando no escuro As tábuas da minha sorte. In. Joaquim Cardozo Imagem retirada da Internet: relógio

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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Madrigal Lúgubre Em vossa casa feita de cadáveres, ó princesa! ó donzela! Em vossa casa, de onde o sangue escorre, quisera eu morar. cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico, é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada. Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu. O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo. Princesa: acordada, sois mais bela, princesa. E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição. arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós. tão completo desprezo se transmudará em tanto amor... Dai-me vossa cama, princesa, vosso calor, vosso corpo e suas repartições, oh dai-me! que é tempo de guerra, tempo de extrema precisão. Não vos direi dos meninos mortos (nem todos mortos, é verdade, alguns, apenas mutilados). In. Sentimento do Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002,p.69. Imagem retirada da Internet: na rua