Postagens

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  Sentença social Fora pego cheirando cocaína, ainda que negasse. Levado para o presídio, durante anos cheirou o pó da cela, dos corredores e do pátio. Foi o que disseram. Um dia, sem que soubesse, deram-no por morto. O diário local estampou na manchete: Do pó ao pó. Texto e fotografia: @franciscopernafilho

Francisco Perna Filho

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  Purgatório A moça colhendo a bosta do cão, A mosca na boca da moça, A sopa, sem mosca e sem pão, O pão, sem mosca e sem boca. O cão, se sentindo cuidado, sente-se livre para borrar a calçada. A moça, com total afeição, contabiliza sua dura jornada. Do outro lado, na antiga estação, olhos cansados espiam assustados, É o poeta esquálido, sem eira nem beira, na fila da carne, exercitando a palavra esperança. Desenho: caneta sobre guardanapo @franciscopernafilho

Francisco Perna Filho

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  Ruídos Ainda na ativa, a septuagenária professora, que ficara surda, aprendeu leitura labial. Com a peste, vieram as máscaras e as restrições. Foram-se as bocas e a esperança. Tentou telepatia, em vão. Perdeu o emprego, e, debilitada, morreu na fila do pão. Era sexta-feira!. Foto @franciscopernafilho 

POESIA

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  A lírica existencial de Maria Lúcia Gigonzac A Revista Banzeiro traz a poesia de Maria Lucia Reis Duarte Gigonzac e ilustração do Artista Plástico e Arquiteto M.Cavalcanti, que gentilmente nos presenteou com os desenhos da séria "Linhas e Sombras" - caneta acrílico sobre papel. Os poemas aqui apresentados são inéditos e foram escritos em diversas épocas. Maria Lúcia nasceu em 1947, em Icem (SP). Ainda criança, acompanhando os pais, mudou-se para Minas e, depois, para Goiás. Em Goiânia, fez o segundo grau e, logo após, começou um curso de física, na Universidade Católica. Em 1972, mudou-se para ilha da Gudalupe, Departamento francês na América Central, onde se casou, teve dois filhos. Naquela ilha, cursou francês e história da arte, foi quando começo a pintar. Ao cabo de quatro anos, mudou-se para a França metropolitana, terra que viu nascer sua filha caçula. Lá morou primeiramente em Bordeaux, depois em Créteil, em Rueil-Malmaison, até desaguar em Taverny, no Val d’Oise. No...

O Tempo da Memória - Adalgisa Nolêto Perna

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  Sobre ser mulher... Quero dizer que aos  53 anos, que hoje tenho, me sinto jovem, leve e solta! Mais ou menos... porque ser mulher nesta sociedade é  uma condição de plena resistência!  Resistência por ter de se (re)fazer  representada constantemente, sempre vista e ouvida! D. Adalgisa teve a felicidade de formar uma família de maioria feminina: Márcia, Magada, Magaly, Madel, Marja e, lógico, ela: Adalgisa! Manoel, Franciscos (02) e Maurício são os outros que compõem essa linda família! Mas o fato de ser composta da maioria feminina me enche de orgulho por poder assinalar o que é o empoderamento feminino: mulheres livres, resistentes (ao seu modo) e conscientes de sua identidade feminina em uma sociedade patriarcal. D. Adalgisa traz essa resistência em suas histórias contadas e, nessa sociedade de classe, de relações de poder, quero dizer do orgulho que sinto por ter minha sogra, aos quase 90 anos, lançando um livro. Uma obra que reflete seus dilemas cotidiano...
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Crédito: Pedro França/Agência Senado SERÁS MINISTRO Carlos Drummond de Andrade — Esse vai ser ministro — sentenciou o pai, logo que o garoto nasceu. — E você, com esse ordenado mixo de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro? — duvidou a mãe. — Então, só porque meu ordenado é mixo ele não pode ser ministro? A Rádio Nacional deu que Abraão Lincoln trabalhava de cortar lenha no mato e chegou a presidente dos Estados Unidos. — Isso foi nos Estados Unidos. — E daí? Nem eu estou querendo tanto pra ele. Só quero uma de ministro. — Tonzinho, deixa isso pra lá. — Pra começar, a gente convida o ministro pra padrinho dele. — O ministro não vai aceitar. — Não vai por quê? Trabalho no gabinete há dois anos. — Ele é muito importante, filho. — Por isso mesmo. Com padrinho importante, o garotinho começa logo a ser importante. — O ministro é tão ocupado, você mesmo diz. Vê lá se tem tempo pra batizar filho de pobre. — Pois sim. Ele me trata com toda a consideração, de igual pra igual. Ho...

James Frederico Rocha Coelho

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"Sem título"   - Iberê Camargo  A Revista Banzeiro, neste tempo de pandemia, traz, mais uma vez, a escrita precisa e a reflexão profunda de James Frederico Rocha Coelho, sem sombra de dúvidas, um dos melhores contistas brasileiros. Natural de Carolina – MA, James é formado em Letras e Direito. Em 1989, publicou o romance Quarto 16 . O conto O Homem que não havia faz parte do livro Histórias Civilizadas. Goiânia: América, 2015. Logo após o conto, no final desta página, você poderá conhecer um pouco mais sobre o autor. A imagem que ilustra este conto é do artista Gaúcho Iberê Camargo.                                                                                                             ...