sábado, 1 de março de 2014

Irma Galhardo - Ensaio Poético



RIOS E GÊNEROS LITERÁRIOS 


Conheço muitos rios: Rio das Éguas, Rio São Francisco, Rio Formoso, até o Rio Tâmisa! O Rio Tocantins, porém, é especial!

Nasci às margens do Rio das Éguas, um rio corrente, de águas puras e cristalinas, o mais lindo que já vi. Para mim, é como se fosse poesia. Poesia em seu mais amplo sentido! Tive minha infância e adolescência banhada por suas águas e chorei sua ausência quando fui estudar em Goiânia, onde rios com nome de meia e leite* não calçaram nem nutriram minha saudade. O Rio das Éguas continua em meu coração como o poema mais lindo já escrito.

O Rio São Francisco foi meu segundo rio. Eu, com apenas quatro anos o atravessei pela primeira vez em um pequeno barco a remo. Uma coisa gigante que parecia que não acabava mais! Depois continuei atravessando, pois ficamos morando por um tempo em Bom Jesus da Lapa, na mesma época que o Capitão Lamarca desertou e passou por lá. Eu sempre assustadíssima, pelo rio, pela história mal contada sobre o Lamarca e pelos peixes que sabia que haviam ali: surubins gigantes que comíamos na semana santa, ao leite de coco, postas enormes que denunciavam o tamanho. O São Francisco, para mim é como uma novela. Sua existência em minha vida não foi longa, porém intensa. Cheia de episódios marcantes, como a chegada do meu irmão, minhas primeiras memórias de cinema e minha consciência de muita coisa no mundo.

O Rio Tâmisa eu o cruzei por cinco meses. Há tanta história em seu leito, que deixo a extensa produção cinematográfica falar por mim sobre o assunto. Direi apenas que também morri de amores por ele. Trouxe comigo pedrinhas do seu leito, bem lisas e redondas, lapidadas por milênios! Em termos de comparações literárias, para mim se assemelha a um conto. Claro que um conto muito envolvente, de um medalhão tipo Machado de Assis. Ou, para ser mais europeu, tipo um Tchecov ou Maupassant.

Tem um outro Rio bem cantado,aquele que Gilberto Gil insiste que continua lindo. Tom Jobim disse que foi feito para ele e Vinícius popularizou seu bairro na canção mais ouvida no mundo! Dele não vou falar, porque só irei conhecê-lo em Janeiro. Nem sei se existe rio por lá, sei do mar e de suas famosas praias. Rio, rio demais! Para mim, não passa de um ensaio. Longo, pois são tantos anos que ensaio conhecê-lo, que até perdi as contas.

Muitos outros rios passaram por minha existência. Envolvi-me com todos sentimentalmente, pois tenho muito de elemento água em mim. Foram assunto do meu dia, porém, breve, duraram apenas o tempo de uma crônica.

Mas, o Rio Tocantins... Ah, esse é denso, longo, interminável como um romance! Apaixonante como aqueles romances que não queremos que acabem nunca, como uma Montanha Mágica do Thomas Man. Ou para ser mais nacional, um “O tempo e o Vento” do Érico Veríssimo ou “A República dos Sonhos” de Nélida Piñon.

O Rio Tocantins toca fundo, ao mesmo tempo é mistério e poesia. É história, fonte de alimentos e elementos folclóricos, possibilidade de locomoção que ajuda no desenvolvimento da região. É vida! A vida do tocantinense está intimamente ligada ao rio, não é à toa que ele empresta o nome ao estado. Quem banha em suas águas fica eternamente refém dos seus encantos. Em cada cidade ele assume um charme diferente! Quem conhece Miracema sabe bem do que estou falando. Lá a praia, ou o local de lazer assim chamado, é submerso. Com mesas, cadeiras e pessoas com água até a cintura. Os bares e palcos são flutuantes ou palafitas e o salão de dança fica na água. Com a alegria inundando tudo!

Do outro lado do rio está Tocantínia. É impressionante como o mesmo rio assume características diferentes na outra margem. Os moradores também. Tocantínia e Miracema, separadas apenas pelo rio, tem habitantes com realidades tão diferentes como suas margens. Só quem morou em Tocantínia sabe dos seus predicados, escondidos na simplicidade e aconchego do seu minúsculo mundo. Cidade de muitos índios, para mim é o lar da Buiúna, personagem lendária de um livro meu. Foi lá que ouvi sobre a Buiúna, a primeira vez. Ali crianças me contaram da cobra gigante e de como as águas saiam do leito para dar lugar ao monstro, tão caudaloso como o próprio rio. Morei em Tocantínia, concebi aí minha primeira filha e tive que cruzar águas para trazê-la ao mundo em Miracema. Foram tantos acontecimentos importantes testemunhados por esse rio, tantos sentimentos como só em romance! Um longo romance que fica para sempre, como o rio Tocantins, que deságua em nossas vidas transformando tudo em uma linda história de amor, um verdadeiro romance!