segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Alexandre Bonafim - Poema









CELEBRAÇÃO DAS MARÉS


I

Um risco de veleiros em fuga

sempre foi o teu nome.

Arquipélagos de incandescentes pássaros

os teus olhos. Os frutos do sal,

a íris do sol na filigrana das águas,

os cardumes do outono, clamam em teus pulsos

a presença de um fogo vivo,

cicatriz de um oceano em fúria.



Sempre foi o teu nome as marés.

Em cada palavra do teu ser,

navegam barcos de pólen,

peixes de constelações ardentes.

Em cada silêncio dos teus gestos,

nasce o azul dos cavalos marinhos,

movimento dos remos singrando o mistério.



O teu nome sempre foi os promontórios,

as ilhas desvairadas pelo verão.

Sobre tua nudez repousam

a brancura das velas infladas,

a plena luminosidade do meio-dia.



Em teu destino os corais tramaram

a encantação das estrelas marinhas,

a memória dos búzios.

Essa é a convocação das marés:

fazer do teu rosto o destino das ondas,

a areia desfeita nas orlas.



No teu nome o sono das crianças

apascentou a cólera dos naufrágios.


Imagem retirada da Internet: marés