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Clarissa Perna Filgueiras - Ensaio Poético

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TERNURA E ALGODÃO O que é que importa no fim de cada dia?   Tal questionamento veio aos meus pensamentos antes do sono chegar, exatamente no momento do dia em que me VISITO. Adormeci lendo Manoel de Barros, como se estivesse em uma praia deserta, como se aquelas palavras me deflorassem, como se a eternidade me invadisse pelos poros. É engraçado como a gente vai florescendo na solidão.   Essa mesma solidão me trouxe os acordes do Cícero :"Ainda não fazem pessoas de algodão...Ainda não fazem pessoas que enxuguem suas próprias mágoas." Pensei..pensei..Porque então não ser algodão? Sejamos essa fibra branquinha que tem o poder de absorver problemas e ultrapassar primeiras impressões. Na primeira impressão não conseguimos avançar além das formalidades e posturas defensivas, das máscaras, da beleza estéril. Primeira impressão é capa de livro, é amor de noitada. Então não filosofa, não tenta entender, não aprofunda, pode ser o ápice ou o abismo, tudo bem. ...

Pablo Neruda - Poema

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Ode à Tipografia Letras amplas, severas, verticais, feitas de linha pura, erguidas como o mastro do navio   no meio da página cheia de confusão e turbulência, Bodonis algébricos, letras cabais, finas como lebréis, submetidas ao retângulo branco da geometria, vogais elzevires cunhadas no miúdo aço da oficina junto à água, em Flandres, no norte traçado por canais, cifras da âncora caracteres de Aldus, firmes como a estatura marinha de Veneza em cujas águas-mães como vela inclinada, navega a cursiva curvando o alfabeto: o ar dos descobridores oceânicos agachou para sempre o perfil da escritura. Desde as mãos medievais avançou até teus olhos este N este 8 duplo este J este R de rei e de rocio. Ali se lavraram como se fossem dentes, unhas, metálicos martelos do idioma. Golpearam cada letra, erigiram-na pequena estátua negra na alvura, pétala do pensamento que tomava forma do caudaloso rio e que ao mar dos povos navegava com todo o alfabeto iluminando a desembocadura. O cor...