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João Cabral de Melo Neto - Poema

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Noturno O mar soprava sinos os sinos secavam as flores as flores eram cabeças de santos Minha memória cheia de palavras meus pensamentos procurando fantasmas meus pesadelos atrasados de muitas noites De madrugada,meus pensamentos soltos voaram como telegramas e nas janelas acesas toda a noite o retrato da morta fez esforços desesperados para fugir. Imagem retirada da Internet: noturno

Otto Lara Resende - Crônica

           Foto by Sergi R. M. Vista cansada Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei d...