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Fernando Py - Poema

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Cave Canem Aviso bem-humorado na fachada das casas de Pompéia. Mudam-se os tempos, mudam-se os desígnios e o aviso permanece curiosidade arqueológica do pai na fachada de minha casa. Porém hoje mais certo seria poupar os cães desse cuidado e escrever à entrada de toda casa toda cidade todo país mesmo na caixa-alta do itálico latim CAVE HOMINES In. Jornal de poesia Imagem retirada da Internet: cão

Francisco Perna Filho - Poema

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Para o meu filho, distante Cada vez que meu filho se vai É como um pedaço de mim que se solta, Como a carne talhada à faca, Nunca é a mesma. Cada vez que meu filho se ausenta, Fico mais limitado no olhar, É o como se tudo se tornasse distante, Não me permitindo alcançar a beleza do grito. Sempre que fico só, sem o meu filho, Algo em mim se torna frio, Torno-me silencioso e triste, Não sabendo recompor-me em tanta ausência. Sempre que fico assim, só, sem o meu filho, Passo a buscá-lo no espelho, Tentando encontrar no meu rosto Sombras do que se foi. Imagem retirada da Internet: trilhos

Humberto de Campos - Conto

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  O MONSTRO Pelas margens sagradas do Eufrates, que fugia, então, sem espuma e sem ondas, caminhavam, na infância maravilhosa da Terra, a Dor e a Morte. Eram dois espetros longos e vagos, sem forma definida, cujos pés não deixavam traços na areia. De onde vinham, nem elas próprias sabiam. Guardavam silêncio, e marchavam sem ruído olhando as coisas recém-criadas. Foi isto no sexto dia da Criação. Com o focinho mergulhado no rio, hipopótamos descomunais contemplavam, parados, a sua sombra enorme, tremulamente refletida nas águas. Leões fulvos, de jubas tão grandes que pareciam, de longe, estranhas frondes de árvores louras, estendiam a cabeça redonda, perscrutando o Deserto. Para o interior da terra, onde o solo começava a cobrir-se de verde, velando a sua nudez com um leve manto de relva moça, que os primeiros botões enfeitavam, fervilhava um mundo de seres novos, assustados, ainda, com a surpresa miraculosa da Vida. Eram aves gigantescas, ...

Henriqueta Lisboa - Poema

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A menina selvagem  A menina selvagem veio da aurora acompanhada de pássaros, estrelas-marinhas e seixos. Traz uma tinta de magnólia escorrida nas faces. Seus cabelos, molhados de orvalho e tocados de musgo, cascateiam brincando com o vento. A menina selvagem carrega punhados de renda, sacode soltas espumas. Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios. E há de relance, no seu riso, gume de aço e polpa de amora. Reis Magos, é tempo! Oferecei bosques, várzeas e campos à menina selvagem: ela veio atrás das libélulas. Publicado: Lírica (1958) Fonte: Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: menina selvagem

Henriqueta Lisboa - Poema

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Não a face dos mortos.  Não a face dos mortos. Nem a face dos que não coram aos açoites da vida. Porém a face lívida dos que resistem pelo espanto. Não a face da madrugada na exaustão dos soluços. Mas a face do lago sem reflexos quando as águas entranha. Não a face da estátua fria de lua e zéfiro. Mas a face do círio que se consome lívida no ardor. Publicado: A Face Lívida (1945) Fonte: Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: círio

Henriqueta Lisboa - Poema

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Ciranda de mariposas  Vamos todos cirandar ciranda de mariposas. Mariposas na vidraça são jóias, são brincos de ouro. Ai! poeira de ouro translúcida bailando em torno da lâmpada. Ai! fulgurantes espelhos refletindo asas que dançam. Estrelas são mariposas (faz tanto frio na rua!) batem asas de esperança contra as vidraças da lua. Publicado: Menino Poeta (1943) Fonte: Jornal de Poesia

Hélio Pólvora - Os Dez Mandamentos do Conto

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  Uma poética do Conto Literário Horacio Quiroga, autor de Cuentos de la selva, El desierto e Los desterrados, entre outros livros, elaborou em Buenos Aires, 1927, o Decálogo do Perfeito Contista. O contista gaúcho Sérgio Faraco submeteu o decálogo a alguns contistas brasileiros, entre eles Hélio Pólvora, que emitiu os seguintes pareceres:                                                                   I Crê num mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchékhov — como na própria divindade. Creio em Edgar Poe, que estudou a estrutura da história curta e para ela cunhou o tributo de “singular efeito único”. Poe foi o mestre do gothic appeal — e convenhamos que o leitor gosta de mistérios, sejam os do sobrenatural, sejam os da personalidade. Não creio mais em Maupassant, porque concordo com Sherwood Anderson: não há, ...