Postagens

Carlos Drummond de Andrade - Poema

Imagem
Lembrança do mundo antigo Clara passeava no jardim com as crianças. O céu era verde sobre o gramado, a água era dourada sob as pontes, outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados, o guarda-civil sorria, passavam bicicletas, a menina pisou a relva para pegar um pássaro, o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara. As crianças olhavam para o céu: não era proibido. A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo. Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos. Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas, esperava cartas que custavam a chegar, nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!! Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!! In. Sentimento do Mundo. 2ªed, Rio de Janeiro: Record, 2002, p.71. Imagem retirada da Internet: criança

Mário Quintana - Poema

Imagem
Poema da gare de Astapovo O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos E foi morrer na gare de Astapovo! Com certeza sentou-se a um velho banco, Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo Contra uma parede nua... Sentou-se ...e sorriu amargamente Pensando que Em toda a sua vida Apenas restava de seu a Gloria, Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas Coloridas Nas mãos esclerosadas de um caduco! E entao a Morte, Ao vê-lo tao sozinho aquela hora Na estação deserta, Julgou que ele estivesse ali a sua espera, Quando apenas sentara para descansar um pouco! A morte chegou na sua antiga locomotiva (Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...) Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho, E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu... Ele fugiu de casa... Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade... Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância! In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: T...

Mário Quintana - Poema

Imagem
A rua dos cataventos Da vez primeira em que me assassinaram, Perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, a cada vez que me mataram, Foram levando qualquer coisa minha. Hoje, dos meu cadáveres eu sou O mais desnudo, o que não tem mais nada. Arde um toco de Vela amarelada, Como único bem que me ficou. Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada! Pois dessa mão avaramente adunca Não haverão de arracar a luz sagrada! Aves da noite! Asas do horror! Voejai! Que a luz trêmula e triste como um ai, A luz de um morto não se apaga nunca! In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: catavento

Brasigóis Felício - Crônica

Imagem
Cidades do cio Lá se foram 40 anos da publicação do livro de contos A cidade do ócio, de José Mendonça Teles – uma obra que, junto ao romance Antes das águas, de Anatole Ramos, inscreve-se como iniciadora da ficção urbana em Goiás. Muito justa sua inclusão, pela PUC-GO, na lista das obras de leitura para o Vestibular 2011. Uma fortuna crítica substanciosa assinala importância como documento ficcional revelador das angústias, conflitos e tensões humanas da trepidante e perigosa metrópole em que se transformou nossa capital. Escreveram sobre este livro, em prefácio, Edla Pacheco Saad, Maria Terezinha Martins, José Fernandes, Nelly Alves de Almeida, Temístocles Linhares, Paulo Nunes Batista, Anatole Ramos, Gabriel Nascente, Almeida Fischer,Martiniano J. Silva, Edvaldo Nepomuceno, e este cronista. Em outubro de 1971, publiquei no Suplemento Literário do O Popular o artigo A idade do cio no Ócio da cidade. Disse à época, dos flagrantes captados pelo olhar atento de cronista,...

Almada Negreiros - Poema

Imagem
ODE A FERNANDO PESSOA Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal tu foste de verdade a voz de Portugal e não foste tu! Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. De verdade e de feito só não foste tu. A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade e tu quiseste aceitar-lhe a voz com a idade e aqui erraste tu, não a tua voz de Portugal não a idade que já era hoje. Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz de Portugal o teu sonho de ti o teu sonho dos portugueses só sonhado por ti. Tu sonhaste a continuação do sonho português somados todos os séculos de Portugal somados todos os vários sonhos portugueses tu sonhaste a decifração final do sonho de Portugal e a vida que desperta depois do sonho a vida que o sonho predisse. Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal tu foste de verdade a voz de Portugal e não foste tu! Tu ficaste para depois e Portugal também. Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal vertical sem perder pra nenhum lado o que não é dado aos po...

Almada Negreiros - Poema

Imagem
A SOMBRA SOU EU A minha sombra sou eu, ela não me segue, eu estou na minha sombra e não vou em mim. Sombra de mim que recebo luz, sombra atrelada ao que eu nasci, distância imutável de minha sombra a mim, toco-me e não me atinjo, só sei dó que seria se de minha sombra chegasse a mim. Passa-se tudo em seguir-me e finjo que sou eu que sigo, finjo que sou eu que vou e que não me persigo. Faço por confundir a minha sombra comigo: estou sempre às portas da vida, sempre lá, sempre às portas de mim! In. Jayrus Imagem retirada da Internet: Almada Negrieros

Herberto Helder - Poema

Imagem
O amor em visita Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento. Mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Seus ombros beijarei. Cantar? Longamente cantar, Uma mulher com quem beber e morrer. Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas, seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento de alegria e de impudor. Seu corpo arderá para mim sobre um lençol mordido por flores com água. Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa; e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos, os bordões da melodia, a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. - Ó cabra no ...