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Clarice Lispector - CONTO

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O Búfalo Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova. Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, di...

Raúl Antelo - Entrevista

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ENTREVISTA RAÚL ANTELO / ÚLTIMA PARTE O apóstolo da dissidência Na terceira parte da entrevista, o professor e crítico literário Raúl Antelo discorre sobre a importância da construção dos sentidos a partir de si próprio, sem imposição, fala da pouca receptividade da poesia — dado o imediatismo da vivência cotidiana — e enfatiza que não é a adesão imediata das massas à poesia o que conta, mas sim o tipo de vínculo que estabelecem. Demonstra, com entusiasmo, seu interesse pela renegada literatura considerada marginal, porque a ação pelo diferimento é o que o move. Confira a última parte da entrevista concedida ao Jornal Opção. Priscila Marília Martins — Parece-me alinhado o discurso de muitos críticos a respeito da poesia visual. Falam insistentemente na tese nietzschiana do eterno retorno, das linguagens poéticas utilizadas na atualidade como se fossem uma releitura, uma espécie de retorno diferenciado da poesia concretista. Em entrevista ao Jornal Opção, a também crítica Célia Pedrosa...

Raúl Antelo - Entrevista

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ENTREVISTA RAÚL ANTELO / 2ª PARTE A poesia sem trégua Na segunda parte da entrevista, o escritor e professor Raúl Antelo fala de sua infância, de suas influências, da proximidade com Carlos Drummond de Andrade e afirma que existe uma supervalorização de alguns escritores, como Ernesto Sábato e Vinicius de Moraes. Francisco Perna — O senhor foi organizador de uma das obras mais interessantes que já vi, que é a do poeta Oliverio Girondo. Gostaria que o senhor falasse sobre a importância de Girondo para a poesia na América Latina e, especificamente, para a poesia brasileira. Em termos de literatura latino-americana, Girondo é um marco inaugural fortíssimo. Pense que em 1922, quando ele publica o primeiro livro, Veinte Poemas Para Ser Leídos En El Tranvía, já capta uma tensão que Oswald de Andrade só vai plasmar com o Manifesto [Pau-Brasil, de 1924] alguns anos depois. A epígrafe do livro está dedicada ao grupo ao qual ele pertencia, porque eles seriam portadores de um estômago eclético, c...

Raúl Antelo - Entrevista

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Entrevista com Raúl Antelo - 1ª PARTE A poesia sem trégua Professor titular do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, Raúl Antelo, além de ter sido professor visitante nas universidades de Yale, Duke, Texas at Austin e Leiden, na Holanda, presidiu a Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). Autor de vários livros, dentre eles, Literatura em Revista; Na Ilha de Marapatá; João do Rio: o Dândi e a Especulação; Transgressão & Modernidade, o intelectual de nacionalidade argentina, porém de alma brasileira, fala sobre os processos de difusão da poesia partindo da Europa, passando pela América Latina e culminando com Goiás. Discute, ainda, o esvaziamento das instituições públicas, a educação pela arte e alguns dos grandes nomes da literatura. Confira a entrevista cedida com exclusividade ao Jornal Opção. Francisco Perna — Platão expulsou a poesia de sua República. O senhor acha que ainda há espaço para a poesia no mundo moderno? Sem sombra de dúvida que ...

Régis Bonvicino - Entrevista

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INESGOTÁVEL MEDIOCRIDADE O paulista Régis Bonvicino sustenta que a poesia brasileira está se tornando previsível e quantitativa Natural da cidade de São Paulo, onde nasceu em 1955, o escritor Régis Bonvicino estreou em livro com Bicho de papel, obra poética publicada em 1975. Desde então mergulhou na poesia contemporânea, como editor das revistas Poesia em Greve, Qorpo Estranho e Muda. Formado em direito pela USP, é juiz estadual de São Paulo desde 1990 e também tradutor. Em 1997, organizou, com Michael Palmer e Nelson Ascher, a antologia poética Nothing the sun could not explain, bilíngüe, publicada em Los Angeles, nos Estados Unidos. Traduziu, também, ensaios sobre o simbolista francês Jules Laforgue. Régis Bonvicino é autor, entre outros livros, de Régis Hotel (1978), Sósia da cópia (1983), 33 poemas (1990), Num zoológico de letras (1994) e Céu-eclipse (1999), entre outros. A poesia de Bonvicino apresenta influências diversas, que vão do modernista Oswald de Andrade ao tropicalista ...