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Fernando Pessoa - Carta

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Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro sobre a Gênese dos Heterônimos Caixa Postal 147 Lisboa, 13 de Janeiro de 1935 Meu prezado Camarada, Muito lhe agradeço a sua carta, a que vou responder imediatamente e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento. Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer coisa que escrevesse, discordando, a meu respeito, sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. Á parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, ...

Fernando Pessoa - Ensaio

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Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Como todas as classificações bem pensadas, é esta útil e clara; como todas as classificações, é falsa. Os géneros não se separam com tanta facilidade íntima, e, se analisarmos bem aquilo de que se compõem, verificaremos que da poesia lírica à dramática há uma gradação contínua. Com efeito, e indo às mesmas origens da poesia dramática — Esquilo por exemplo — será mais certo dizer que encontramos poesia lírica posta na boca de diversos personagens. O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado no seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e o estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos vários e fictícios, mais imaginativo do que...

Geneton Moraes Neto entrevista o poeta Lêdo Ivo

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Geneton Moraes Neto entrevista Lêdo Ivo segunda parte QUARTA ESTAÇÃO : MANUEL BANDEIRA ENSINA QUE O POETA PRECISA SER CULTO GMN : O que ficou da amizade com Manuel Bandeira ? Ledo Ivo : “Minha ligação com Manuel Bandeira foi profunda. De todos os poetas, talvez o que mais me tenha marcado e ensinado foi Manuel Bandeira. Quando eu era menino, mandei poemas para ele. Recebi de volta um cartãozinho em que ele tocou em um ponto que ainda hoje permanece na poesia: “Há muita magia verbal em seus poemas”. Depois percebi que, para mim, a operação poética é como se fosse um encantamento da linguagem – uma magia. Sou um poeta que acha que a poesia é o uso supremo da linguagem.Bandeira fez esta descoberta em meu momento inicial. Deu-me lições perenes : por exemplo,a de que o poeta deve ser um intelectual culto. Só a cultura tem condições de abrir caminhos. Ao poeta,não basta apenas ter talento e vocação. Por que o poeta deve ser realmente um homem culto ? Porque a poesia é um sistema milen...

Geneton Moraes Neto entrevista o poeta Lêdo Ivo

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Gostaria de agradecer ao jornalista Geneton Moraes Neto pela gentileza de ceder esta maravilhosa entrevista com o poeta Lêdo Ivo (abril de 2004), um dos maiores da nossa Língua, para que ela fosse reproduzida aqui no Banzeiro. Aproveito, também, para convidá-los a assistir, dia 27 de fevereiro, às 19h, na GloboNews, no programa Dossiê GloboNews, uma nova entrevista com o poeta Lêdo Ivo, concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto . Geneton Moraes Neto entrevista Lêdo Ivo O poeta dá o conselho : "Seja como os lobos : more num covil e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.Viva e morra fechado como um caracol.Diga sempre não à escória eletrônica". Caçadores de belos versos, tremei de arrependimento: quem nunca leu um poema de Ledo Ivo, por preguiça, desinformação ou enfado, deve se penitenciar deste crime de lesa-literatura o mais rapidamente possível. Um exemplo ? É difícil encontrar uma declaração de princípios tão bela quanto "A Queimada...