Postagens

Arnaldo dos Santos - Poema

Imagem
Arnaldo dos Santos BEIJOS-DE-MULATA Para a Zeza Os beijos-de-mulata não têm perfume Apenas a limpidez do seu desejo branco Ou uma concêntrica fúria acesa de tacula-roxo-carmesim além de ser a melhor droga contra o câncer. Pra que perfume...? Onde elas crescem morrem as outras plantas... (17.5.86) In. Antônio Miranda. Imagem retirada da Internet.

Arnaldo dos Santos - Poema

Imagem
Arnaldo dos Santos Arnaldo Santos énatural de Luanda onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50 integrou o chamado "grupo da Cultura". Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. É membro fundador da UEA. Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ocupa um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70. Arnaldo Santos é um autor que se situa num nível singular de tratamento da linguagem. É um preciosista na depuração do texto narrativo curto e de todos os seus recursos e elementos. Daí que a sua ficção narrativa não tenha conhecido até à década de 90, variações ...

Rainer Maria Rilke - Poema

Imagem
Rainer Maria Rilke Exercícios ao Piano O calor cola. A tarde arde e arqueja. Ela arfa, sem querer, nas leves vestes e num étude enérgico despeja a impaciência por algo que está prestes a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe agora mesmo, oculto, do seu lado; da janela, onde um mundo inteiro cabe, ela percebe o parque arrebicado. Desiste, enfim, o olhar distante; cruza as mãos; desejaria um livro; sente o aroma dos jasmins, mas o recusa num gesto brusco. Acha que a faz doente. (Tradução: Augusto de Campos) In. Vasco Cavalcante. Imagem retirada da Internet: Piano .

Rainer Maria Rilke - Poema

Imagem
Rainer Maria Rilke O Fruto Subia, algo subia, ali, do chão, quieto, no caule calmo, algo subia, até que se fez flama em floração clara e calou sua harmonia. Floresceu, sem cessar, todo um verão na árvore obstinada, noite e dia, e se soube futura doação diante do espaço que o acolhia. E quando, enfim, se arredondou, oval, na plenitude de sua alegria, dentro da mesma casca que o encobria volveu ao centro original. (Tradução: Augusto de Campos) In. Vasco Cavalcante Imagem retirada da Internet: Fruto Mor.

Cesário Verde - Poema

Imagem
Cesário Verde NUM BAIRRO MODERNO A Manuel Ribeiro Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada; Pelos jardins estancam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada. Rez-de-chaussée repousam sossegados, Abriram-se, nalguns, as persianas, E dum ou doutro, em quartos estucados, Ou entre a rama dos papéis pintados, Reluzem, num almoço, as porcelanas. Como é saudável ter o seu conchego, E a sua vida fácil! Eu descia, Sem muita pressa, para o meu emprego, Aonde agora quase sempre chego Com as tonturas duma apoplexia. E rota, pequenina, azafamada, Notei de costas uma rapariga, Que no xadrez marmóreo duma escada, Como um retalho da horta aglomerada Pousara, ajoelhando, a sua giga. E eu, apesar do sol, examinei-a: Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algodão azul da meia Se ela se curva, esguelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos. Do patamar responde-lhe um criado: "Se te convém, despacha; não converses....

Cesário Verde - Poema

Imagem
Cesário Verde IRONIAS DO DESGOSTO "Onde é que te nasceu" - dizia-me ela às vezes - "O horror calado e triste às coisas sepulcrais? "Por que é que não possuis a verve dos franceses "E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais? "Por que é que tens no olhar, moroso e persistente, "As sombras dum jazigo e as fundas abstrações, "E abrigas tanto fel no peito, que não sente "O abalo feminil das minhas expansões? "Há quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso; "Mas quando tentas rir parece então, meu bem, "Que estão edificando um negro cadafalso "E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém! "Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio, "No campo, a quietação banhada de prazer! "Não vês, ó descorado, as vestes com que saio, "E os júbilos, que abril acaba de trazer? "Não vês como a campina é toda embalsamada "E como nos alegra em cada nova flor? "Então por que é que tens na fronte constern...

Cesário Verde - Poema

Imagem
Cesário Verde A DÉBIL Eu, que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal. Sentado à mesa dum café devasso, Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura, Nesta Babel tão velha e corruptora, Tive tenções de oferecer-te o braço. E, quando socorreste um miserável, Eu, que bebia cálices de absinto, Mandei ir a garrafa, porque sinto Que me tornas prestante, bom, saudável. "Ela aí vem!" disse eu para os demais; E pus-me a olhar, vexado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinais. Via-te pela porta envidraçada; E invejava, - talvez que não o suspeites! - Esse vestido simples, sem enfeites, Nessa cintura tenra, imaculada. Ia passando, a quatro, o patriarca. Triste eu saí. Doía-me a cabeça. Uma turba ruidosa, negra, espessa, Voltava das exéquias dum monarca. Adorável! Tu, muito natural, Seguias a pensar no teu bordado; Avultava, num largo arborizado, Uma estátua...