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Mostrando postagens de abril, 2011

Francisco Perna Filho - Poema

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SAGRADA CEIA A imagem, carcomida, age, na ilusão da mesa, na solidão do prato, comportando olhos peregrinos e santos. A imagem da amanhecida ceia ainda traz em si uma serena alma amarelecida em prantos. A imagem, que carcomida age colhendo pratos, amarelecidos em prantos, revisa a fome de santos e peregrinos. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p.105. Imagem retirada da Internet: P rofana ceia dos mendigos

Francisco Perna Filho - Poema

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ASFIXIA A cidade a[corda]. No pescoço, o im[posto]. Gasolina ou álcool, não im[porta]. A cidade sempre acorda, no pescoço, a corda. Na cidade, o posto. In. Refeição.  Goiânia: Kelps, 2001, p.79. Imagem: cartapotiguar

José Inácio Vieira de Melo

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Otto Lara Resende - Conto

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O elo partido Subitamente, não sabia mais como se ata o nó da gravata. Era como se enfrentasse uma tarefa desconhecida, com que nunca tinha tido qualquer familiaridade. Recomeçou do princípio. Uma vez, outra vez — e nada. Suspirou com desânimo e olhou atento aquele pedaço de pano dependurado no seu pescoço. Vagarosamente, tentou dar a primeira volta — e de novo parou, o gesto sem seqüência. Viu-se no espelho, rugas e suor na testa: a mão esquerda era a direita, a mão direita era a esquerda. — Vou descendo — anunciou a mulher, impaciente. — Escuta — disse ele forçando o tom de brincadeira. — Como é que se dá mesmo nó em gravata? — Engraçadinho — e a mulher saiu sem olhá-lo. Quanto tempo durou aquela hesitação? Essa coisa familiar, corriqueira, cotidiana — dar o nó na gravata. Uns poucos segundos, um minuto, dois minutos ou mais? O tempo da ansiedade, não o do relógio. Não fazia calor, e nas costas das suas mãos começou a porejar um suor incômodo. Assim como surgiu, na mesma ver...

Otto Lara Resende - Crônica

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Vista cansada  Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu e...

Augusto Meyer - Poema

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Gaita Eu não tinha mais palavras, Vida minha, Palavras de bem-querer; Eu tinha um campo de mágoas, Vida minha, Para colher. Eu era uma sombra longa, Vida minha, Sem cantigas de embalar; Tu passavas, tu sorrias, Vida minha, Sem me olhar. Vida minha, tem pena, Tem pena da minha vida! Eu bem sei que vou passando Como a tua sombra longa; Eu bem sei que vou sonhar Sem colher a tua vida, Vida minha, Sem ter mãos para acenar, Eu bem sei que vais levando Toda, toda a minha vida, Vida minha, e o meu orgulho Não tem voz para chamar. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: janela

Jorge de Lima - Poema

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Pelo silêncio Pelo silêncio que a envolveu, por essa aparente distância inatingida, pela disposição de seus cabelos arremessados sobre a noite escura: pela imobilidade que começa a afastá-la talvez da humana vida provocando-nos o hábito de vê-la entre estrelas do espaço e da loucura; pelos pequenos astros e satélites formando nos cabelos um diadema a iluminar o seu formoso manto, vós que julgais extinta Mira-Celi observai neste mapa o vivo poema que é a vida oculta dessa eterna infanta. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: musa

Amadeus Amado - poema

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Depois do  labirinto, o perigo da volta. O poeta livre professa ALELUIA!

Amadeus Amado - poema

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No momento exato, eu labirinto. Imagem retirada da Internet:  labirinto Imagem retirda da Internet

Antônio Carlos Scchin - Poema

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Siron Franco Linguagens Notei que o vôo negro da hipálage não tinha o mel dos lábios da metáfora, e mais notara, se não fora a enálage, e mais voara, se não fosse a anáfora. Chorei dois oceanos de hipérbole, duas velas cortaram a metonímia. O pé da catacrese já marchava no compasso toante dessa rima. Verteu prantos a anímica floresta, mas entramos dentro do pleonasmo, ‘stamos em pleno oceano da aférese... Vai-se um expletivo, outro e outro mais... Os poetas somos muito silépticos; os poemas, elípticos demais. Imagens: Acervo Siron Franco Paulo Darze Galeria

Antônio Carlos Scchin - Poema

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Siron Franco - Vermelho Arte  Poemas são palavras e presságios, pardais perdidos sem direito a ninho. Poemas casam nuvens e favelas e se escondem depois no próprio umbigo. Poemas são tilápias e besouros, ar e água à beira de anzóis e riscos. São begônias e petúnias, isopor ou mármore nas colunas, rosas decepadas pelas hélices de vôos amarrados ao chão. Cinza do que foi orvalho, poema é carta fora do baralho, milharal pegando fogo pelo berro do espantalho. Siron Franco - Vermelho - Pintura  óleo sobre cartão - 1999

Rosana Carneiro Tavares - Ensaio curto

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Duas importantes causas Sempre fui afeita às causas dos Direitos Humanos em nossa sociedade. Principalmente, porque vivemos um processo de desintegração do social, em favor do individualismo e da competitividade cruel, na qual muitos não conseguirão nem ao menos estar na condição de competir, haja vista a grande exclusão em que se encontram inseridos (ou incluídos?). Pois é, agora me vejo diante de duas causas importantes, que coloca em pauta duas categorias sociais, dignas de reivindicação de direitos humanos, que demandam um olhar especial de toda a sociedade: as crianças e os adolescentes; e as pessoas com transtorno mental. A criança e o adolescente já têm garantido em lei o seu pleno desenvolvimento biopsicossocial, sob responsabilização do poder público, bem como de toda a sociedade em geral. As pessoas com transtorno mental, igualmente, têm a garantia de ser tratadas e de circular livremente pela sociedade, com prioridade absoluta para a convivência familiar e participação...

Francisco Perna Filho - Homenagem ao meu filho João Pedro nos seus quinze anos

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Meu filho...       É manhã e eu me vejo com outros olhos, João Pedro, meu filho. Olhos de quem abrasa o mundo: muitas vezes terno, muitas vezes vil, muitas vezes desumano e cheio de dores. Dores que em nós vêm se fundindo nesses tempos todos para que, de uma forma plena, pudéssemos estabelecer o canto do qual farás parte.     No princípio era o verbo: “era”, “eras” e agora, a menos de dez meses, a pessoa se transforma e somos “NÓS” – Nós, que modificou o meu coração e o corpo da tua mãe, que de forma iluminada te tem acalentado os sonos e sonhos e que se transforma para receber-te.      Meu filho, assim posso chamar-te, beijar-te, iluminar-me com a tua luz e chorar com o teu choro, rir com teus gestos e passear com os teus olhos tomados de inocência e inspiração.        Confesso-te iluminado, João Pedro, meu filho, parte minha, que em ti está o meu simples legado: a alegria das manhãs de sol, a tristeza das par...

Antônio Carlos Scchin - Poema

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Sagitário Evite excessos na quarta-feira, modere a voz, a gula, a ira. Saturno conjugado a Vênus abre portas de entrada e armadilhas de saída. Evite apostar em si, mas, se quiser, jogue a ficha em número próximo do zero. Evite acordar o incêndio implícito de cada fósforo. E quando nada mais tiver a evitar evite todos os horóscopos. Imagem retirada da Internet: Sagitário

Bertrand Russell - Ensaio curto

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MINHA VIDA Bertrand Russell Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o desejo imenso do amor, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade. Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminhos caprichosos, para além de um profundo oceano de angústias, chegando à beira do verdadeiro desespero. Primeiro busquei o amor, que traz o êxtase - êxtase tão grande que sacrificaria o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o, também, porque abranda a solidão - aquela terrível solidão em que uma consciência horrorizada observa, da margem do mundo, o insondável e frio abismo sem vida. Procurei-o, finalmente, porque na união do amor vi, em mística miniatura, a visão prefigurada do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer bom demais para a vida humana, foi o que encontrei. Com igual p...

Bandeira Tribuzi - Poema

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ITINERÁRIO DO CORPO A Afonso Felix de Sousa I O pequeno lugar predestinado: cama – lençóis, colchão e travesseiro: objetos banais pousados sobre a armação de madeira para dois. Pequeno apartamento de cidade! Pequenos corpos e cansados despem-se, despem roupas, sapatos, conveniências à pequenina luz que afaga as coisas. Estão nus, lado a lado, sobre o leito e se entrelaçam para desafogo de raivas, lutas, ilusões, sentidos. Talvez não saibam por que assim se prendem, Já cantam sino pelo novo filho! II Entre o campo de neve a vida fende-se barbaramente, para dar passagem à colheita que vem sem estações: bicho da terra que se chama homem. Nove meses guardado e construído com silêncio, carne, sangue e esperança, ei-lo que rasga o ovo e se apresenta disforme, placentário, precioso. Ela está como o campo após a ceifa. De seus peitos já mana o claro líquido onde a vida se côa como um filtro. Olha o pequeno corpo que se deita a seu lado, entre o...

Casimiro de Abreu - Poema

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Amor e medo Quando eu te vejo e me desvio cauto Da luz de fogo que te cerca, ó bela, Contigo dizes, suspirando amores: — "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!" Como te enganas! meu amor, é chama Que se alimenta no voraz segredo, E se te fujo é que te adoro louco... És bela — eu moço; tens amor, eu — medo... Tenho medo de mim, de ti, de tudo, Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes. Das folhas secas, do chorar das fontes, Das horas longas a correr velozes. O véu da noite me atormenta em dores A luz da aurora me enternece os seios, E ao vento fresco do cair cias tardes, Eu me estremece de cruéis receios. É que esse vento que na várzea — ao longe, Do colmo o fumo caprichoso ondeia, Soprando um dia tornaria incêndio A chama viva que teu riso ateia! Ai! se abrasado crepitasse o cedro, Cedendo ao raio que a tormenta envia: Diz: — que seria da plantinha humilde, Que à sombra dela tão feliz crescia? A labareda que se enrosca ao tronco Torra...

Casimiro de Abreu - Poema

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A valsa Tu, ontem, Na dança Que cansa, Voavas Co'as faces Em rosas Formosas De vivo, Lascivo Carmim; Na valsa Tão falsa, Corrias, Fugias, Ardente, Contente, Tranqüila, Serena, Sem pena De mim! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos, Saltavam, Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias, Tremias, Sorrias, P'ra outro Não eu! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Meu Deus! Eras bela Donzela, Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem ?! Quem dera Que sintas As dores De arnores Que louco Senti! Quem d...

Cruz e Sousa - Poema

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DANÇA DO VENTRE Torva, febril, torcicolosamente, numa espiral de elétricos volteios, na cabeça, nos olhos e nos seios fluíam-lhe os venenos da serpente. Ah! que agonia tenebrosa e ardente! que convulsões, que lúbricos anseios, quanta volúpia e quantos bamboleios, que brusco e horrível sensualismo quente. O ventre, em pinchos, empinava todo como réptil abjecto sobre o lodo, espolinhando e retorcido em fúria. Era a dança macabra e multiforme de um verme estranho, colossal, enorme, do demônio sangrento da luxúria! Imagem retirada da Internet: dança ventre

Cassiano Ricardo

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Ficaram-me as penas O pássaro fugiu, ficaram-me as penas da sua asa, nas mãos encantadas. Mas, que é a vida, afinal? Um voo, apenas. Uma lembrança e outros pequenos nadas. Passou o vento mau, entre açucenas, deixou-me só corolas arrancadas... Despedem-se de mim glorias terrenas. Fica-me aos pés a poeira das estradas. A água correu veloz, fica-me a espuma. Só o tempo não me deixa coisa alguma até que da própria alma me despoje! Desfolhados os últimos segredos, quero agarrar a vida, que me foge, vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos. Imagem retirada da Internet: tempo

Cassiano Ricardo

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Rotação a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina          a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina de novo a esperança            na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina          a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança          na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina           a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança           na esfera Imagem retirada da Internet: rolamento

Ronaldo Costa Fernandes - Poema

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Lição de anatomia Sou coisa. Algo assemelhado a lápis ou vela que para existir se consome esgrimindo garatujas ou se queimando no fulgor das palavras ou na luz suicida que ilumina enquanto se imola. O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos geme a mesma voz surda no compasso do tempo das matrizes. A tarde com seu invólucro de nuvens conspira com vozes na liturgia dos alvoroços. A vida é um erro: alguns chegam a ser sentenciados                                      a oitenta anos de vida. In. Andarilho, Rio, 7Letras, 2000) Imagem retirada da Internet: vela

Cassiano Ricardo

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Desejo As coisas que não conseguem morrer Só por isso são chamadas eternas. As estrelas, dolorosas lanternas Que não sabem o que é deixar de ser. Ó força incognoscível que governas O meu querer, como o meu não-querer. Quisera estar entre as simples luzernas Que morrem no primeiro entardecer. Ser deus — e não as coisas mais ditosas Quanto mais breves, como são as rosas É não sonhar, é nada mais obter. Ó alegria dourada de o não ser Entre as coisas que são, e as nebulosas, Que não conseguiu dormir nem morrer. Imagem retirada da Internet: Nebulosa

Gonçalves Dias - Poema

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Louise O´Murphy, de Francois Boucher Sempre ela   Per noctem quaesivi, quam diligit anima mea et non inveni illam, Cant.Cant. Eu amo a doce virgem pensativa, Em cujo rosto a palidez se pinta, Como nos céus a matutina estrela! A dor lhe há desbotado a cor das faces, E o sorriso que lhe roça os lábios Murcha ledo sorrir nos lábios doutrem. Tem um timbre de voz que n'alma ecoa, Tem expressões d'angélica doçura, E a mente do que as ouve, se perfuma De amor profundo e de piedade santa, E exala eflúvios dum odor suave De aloés, de mirra ou de mais grato incenso. E nessas horas, quando a mente aflita, De dor oculta remordida, anseia Desabrochar-se em confidência amiga, "Neste mundo o que sou? — triste clamava; "Pérsica envolta em pó, entre ruínas, "Erma e sozinha a resolver-me em pranto! "Flor desbotada em hástea já roída, "De cujo tronco as outras amarelas "Já rojam sobre o pó, já murchas pendem! "É sentir e...