segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Seleta de Poemas - Cássia Fernandes




Cássia Fernandes - Foto by Admilson Ferreira
Revista Banzeiro traz a Poesia de Cássia Fernandes (Lucivânia de Cássia Fernandes). Nascida em Pontalina - GO, muito cedo mudou-se para Goiânia, onde fez seus estudos: Jornalismo-UFG e Letras - PUC-GO. Foi professora na Rede Pública Municipal de Goiânia. Passado algum tempo, estudou Cinema na Faculdade Cambury - GO, o que a motivou  fundar a produtora audiovisual La Lumière. Bem lá atrás, aos 27 anos, Cássia Fernandes publicou o premiado romance Cartas que não te escrevi, que fez muito sucesso por aqui. Morou em Paris, voltou para Goiás, e, aqui, escreve(u) para o jornal o Popular e para o portal de notícias A Redação. Cassia é editora do blog Almofariz e mãe do Fernando. (Fonte Almofariz do Tempo)

Foto by Juliana Corso
Maçã


Eu mordo essa maçã com raiva.
Eu a trituro nervosamente com meus dentes afiados.
Porque me ensinaram tudo errado.
Ensinaram que ela é fruto de um tal pecado,
que sou eu própria esse fruto,
que o resultado do desejo
pelo fruto da sabedoria
é nossa dor originária.
Depois nos ensinaram que há também castigo
por comê-la por curiosidade
e por causa disso
quedaremos adormecidas
até que pelo hálito de um desconhecido
sejamos despertadas.
Basta de castigos,
venenos, feitiços
e despertares mágicos.
Não aceito ser considerada
o fruto podre do cesto,
nem o paradoxo
de que na escola da vida
só quem leva uma maçã para o professor
é aprovado.
Eu mordo essa maçã com raiva.
E desperto.

In.Almofariz do Tempo. Goiânia: Pantheon, 2016, p.31.


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Inversões do Amor nos tempos de Cópula


O homem, a mulher, adentra
bem à vontade,
mas não entra em sua casa,
pois entrar seria
demasiada
intimamente.

O homem conhece a mulher
em sentido bíblico,
mas não sabe
de sua vida laica.

O homem come a mulher
com garfo e faca
e até dorme de colher,
mas comer juntos um prato de sal,
ah, isso
ele não quer!

Da mulher, o homem desfruta,
mas deles não brotam frutos.
E depois ainda se queixa
do absurdo
de que só há no pomar
mulher desfrutável

Idem. p.39


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Pacote Completo

Quando a gente ama,
compra o pacote completo:
o bilhete de ida sem volta,
a ex-sogra,
o mau hálito quando acorda,
o mau humor
o mau amor.

A gente ama,
a gente compra
o pacote com tudo o que vem dentro:
um trem, uma família, um cachorro,
um papagaio, um sofrimento.
O feijão com caruncho,
a pedra...
A gente quase quebra um dente
quando morde.

A gente não pode
comprar uma meia mãe,
uma meia sola,
só o seio esquerdo
e deixar na loja
uma só alça
do sutiã meia calça.

Comer só o miolo do pão
e do sonho de valsa;
a laranja e a couve;
e fingir que não houve
nem escravidão, nem fome, nem chicotada,
nem o pé de porco
na feijoada.

O amor não se vende avulso
nem picado,
para um pé atrás,
de um só lado.
Se bem que é preciso
começar com o pé direito,
dar ao menos um braço a torcer
e de vez em quando estender
a roupa no arame
e a outra face.

Porque a qualidade e o defeito
são irmãos siameses.
E o cachorro se senta
sobre o próprio rabo.
Bicho de goiaba e goiaba,
exceto para quem está
de barriga lotada.

Quando a gente ama,
não pode escolher
se tem aleijão
ou se é perfeito.
Tem que aceitar a barriga, a remela,
o cabelo negro,
o presente grego,
a mão em que sobra ou falta
um dedo,
e que é a pimenta da vida
e que dá tempero à comida.

Não há amor que se venda a granel,
como fiado.
Só no armazém ao lado.
E se é verdade
que a galinha da vizinha
é sempre mais gostosa e mais gordinha,
é verdade também
que não se faz omelete sem quebrar uns ovos
chocos,
e que todo ofício,
mesmo o de você comer
e de eu comer você,
tem seus ossos.

Idem, p.22-24

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A Doença do Mundo

Os homens antes saíam pra beber e se matar nas
guerras e nas ruas,
enquanto as mulheres,
ficávamos em casa,
matando a si mesmas e entre nós
de tripas, laços e tintas
de silêncio, ciúme, solidão e culpa.
Foram séculos assim.
Foram séculos de fogueiras, conventos,
caldeirões ferventes de santas e bruxas,
de mulheres nas cruzes!
Raiva mastigada, sangrenta e burra.
Vitórias apenas de serpentes
ciciando nas alcovas
e cozinhas -
cheirando colarinhos
e cestos de roupa suja -
temperos e venenos
nas tigelas de sopa
de batatas, asas de morcego,
amor traído e desassossego.

Escondendo absorventes, seios e cios.
A boca aberta,
enfiados na garganta
os dedos para o vômito,
o gardenal e outras pílulas e pauas
calmantes.

Até que dissemos: chega!
Ou disseram para nós as fábricas inglesas.
E colocamos nossa vozes agudas e finas
e desagradáveis nos microfones e nas urnas!
Primeiro queimamos sutiãs.
Contraímos sífilis.
Transamos com cães.
Voltamos pra casa,
de saco cheio,
viola no saco,
a alma e a racha partidos ao meio.
Desertamos.
Tivemos filhos e mais uma vez,
diante do espelho,
madalenas arrependidas
de longos cabelos,
abrimos mão de nossas próprias vidas,
nos subúrbios americanos,
condomínios horizontais brasileiros,
aparando grama
e cultivando nostalgias.

E agora estamos aí de novo,
nos matando de novo
de sida, de histeria,
vaidade plástica e de magreza,
velozes e bêbadas,
porque o mundo e os estilistas ainda nos odeiam.
Porque a gente ainda se culpa pelos males do mundo.
Pobres pandoras!
Pobres mães de cristo e de todos os pecados!
Pobres virgens suicidas!
Mas aqui está o irreversível:
poluímos o planeta com nossa beleza,
com a gula esfaimada
de quem antes não podia sentar à mesa
da Santa Ceia.
Porque agora, além dos vasos de flores,
somos vorazes, perfeitas, descabeladas,
vitaminadas, absolutas.
Ganhamos o Big Brother,
que nem por isso se chama Big Sister a partir de agora.
nadamos, nadamos e morremos na praia.
Consumimos tudo.
Fumamos charuto,
cercadas de quem
nos atira confetes e vestidos
mas no fundo faz fita.
Puderam. Quiseram
amputar nossos clitóris
com a ferrugem das giletes,
cacos de garrafas de cerveja
e sua inveja do útero.
Estamos por cima da carne seca
e queremos ainda ficar por baixo,
receber, dar leite...
Mas a vingança está feita.
E a profecia se cumpre. Apocalipse.
Ou a justiça divina.
O mundo agora sofre dos nervos!
Chora e arranca os cabelos,
porque confusamente deseja
e esqueceu o que seja
em paz estar
com a própria natureza.

Idem, p. 25-28.


Picasso - 1962, Tête de femme (Jacqueline):
Pablo Picasso - 1962 - Tête de femme

























Camisa de Força


Não posso abrir a boca,
que sou louca.
Não posso tirar a roupa,
que sou louca.
Não posso abrir as pernas,
que menina mal comportada.
Não posso fechá-las,
que santinha do pau oco,
víbora dissimulada.
Não posso ficar calada,
que sou sonsa,
nem amável nem romântica.
Não posso ser carinhosa,
que melosa.
Não posso queixar-me,
que faladora e reclamona.
Não posso negar-me,
que sou fria.
Não posso desejar,
que sou vadia.
Não posso ser forte,
que sou homem.
Não posso ser frágil,
que é ser mulherzinha.
Não posso comer
nem morrer de fome.
Não posso vestir essa roupa,
que é camisa de força
que só se veste
em gente louca.

Idem, p.29-30.



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Foto by Pós-Quim














Realidade

Antes eu era bem mais dramática.
Dava grandes festas de melancolia
e convidava todo mundo
a comparecer à minha dor.
Hoje, me limito,
no começo do dia,
a ir-me embora pra Pasárgada,
mas olhe só quanta bobagem:
no final da tarde,
lembro que não tenho grana
nem pra passagem.