sexta-feira, 1 de julho de 2016

Especial Joaquim Cardozo




JOAQUIM CARDOZO


Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu no Recife, no dia 26 de Janeiro de 1897. Poeta, engenheiro, desenhista, topógrafo, dramaturgo, crítico de arte e historiador, só para ficarmos com um pouco da genialidade desse cidadão brasileiro do Recife. Foi responsável  direto pelo mapeamento de parte do litoral nordestino e  pelo cálculo estrutural de inúmeras obras da nossa arquitetura, mais precisamente pelas curvas de Brasília, dando sustentação ao Projeto Arquitetônico de Oscar Niemeyer. Quando jovem fez parte da boêmia recifense, ao lado de grandes personalidades da literatura e das artes em geral.  Em 1939, muda-se para o Rio de Janeiro e lá  convive com  Pedro Nava, Augusto Meyer, Lúcio Costa, Manuel Bandeira e tantos outros. Publicou o seu  primeiro livro Poemas, em 1947, aos 50 anos de Idade. Faleceu no dia 4 de novembro de 1978, em Olinda - PE. 


Poemas (1947)



Poesia da Presença Invisível


Através do quadro invisível iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que tiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
- Todos ele perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
- Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre [as colinas
- A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras [confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave na Noite.



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Velhas Ruas


Velhas Ruas
Velhas ruas!
Cúmplices da treva e dos ladrões,
Escuras e estreitas, humildes pardieiros
Quanta gente esquecida e abandonada!

As varandas se alongam
Num gesto atento e imóvel de quem espreita
Rumor, sombra de passos que passaram,
Tato de mãos ligeiras invisíveis.

Velhas ruas!
Cúmplices da treva e dos ladrões,
Refúgio do valor desviado e da coragem anônima,
Sombra indulgente para os malfeitores,
De quem ocultais os crimes
E a quem dais generosas.

Nos momentos de paz um conselho materno.
Comovida e cristã sabedoria,
Espírito coletivo das gerações passadas,
Estes muros que a ferrugem da noite rói sugerem
O velado esplendor espiritual dos conventos,
O ritmo das coisas imperfeitas,
A volúpia da humildade.

Trêmula, dos lampiões
Desce uma luz de pecado e remorso,
E o cais do Apolo acende os círios
Para velar de noite o cadáver do rio.


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.

Poema dedicado a Maria Luíza



Eu te quero a ti e somente,
Eu que compreendia a beleza das prostitutas e dos portos,
Que sofri a violência da solidão no meio das multidões das grandes ruas,
Que vi paisagens do céu erguidas sobre a noite do mais alto e puro mar,
Que errei por muito tempo nos jardins deliciosos dos amores incertos e obscuros.

Eu te quero a ti sempre e somente.
Eu te quero a ti pura e tranquila
Preciosa entre todas as mulheres
Que como rosas, como lírios, sobre mim se debruçaram,
Entre aquelas que de mim se aperceberam
Ao doce esmaecer das tardes luminosas.
Eu te quero a ti pura e tranquila.
Nos espelhos da memória refletida
Pelas horas do meu tempo transpareces
E o Sol do meu deserto te ilumina
E a noite do meu sono te adormece.
Eu te pressinto no silêncio das verdades que ignoro,
No silêncio e no delírio dos desejos impossíveis:
através de um céu sem nuvens, do céu que é um prisma azul
Eu te revelarei a cor da tempestade
E a refração serena do meu mais íntimo segredo...


Em horizontes de ouro e de basalto
Indicarei o teu caminho
Entre flores de luar...
Farei uma lenda sobre teus cabelos...

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Afasta de  Mim Este Teu Corpo...

Afasta de mim este teu corpo
Mole, triste , violado;
Este corpo que nasceu como uma flor de esponja
Na região sombria das virtudes imperfeitas.
Passaram sobre ele as glórias do mundo
E a força lunática dos destinos incertos.

Passaram como nuvem sobre a batalha,
Como o vento sobre a paisagem,
Como o vento do mar que envolve a minha casa
Nesta manhã de chuva, suave Maria.


Mulher Nua - Edward Hopper


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Tarde no Recife



Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime,
Cais do Abacaxi. Gameleiras.

Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando: — alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos
                                                                                   [holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas
                                                                                     [do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.
                                                       (1925)

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As Alvarengas


                             
                                              "Tous les chemins vont vers la ville"
                                                                                      (VERHAEREN)




As Alvarengas!
Ei-las que vão e vêm; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco acende um farol no zimbório
Da Assembeleia.
As Alvarengas!
Madalena. Deus te guie. Flor de zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas li geiras.
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo, nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona.
O latente rumor das florestas despedaçadas.
A cidade voragem
É o Moloch, é o abismo, é a cadeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas,
As chaminés fumegam e o vento alonga
O passo de parafuso
Das hélices de fumo;
E lentas
Vão seguindo, negras, jogando cansadas;
E seguindo-as também em curvas n'água propagandas,
A dor da Terra, o clamor das raízes.

                                                   ( 1925)



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Recife de Outubro


Ó cidade noturna!
Velha, triste fantástica cidade!
Desta humilde trapeira sem flores, sem poesia
Alongo a vista sobre as águas
Sobre os telhados.
Luzes das pontes e dos cais
Refletindo em coluna sobre o rio
Da impressão de uma catedral imensa,
Imensa, deslumbrante e encantada,
Onde, o esplendor das noites velhas,
Quando a noite está dormindo,
Quando as ruas estão desertas,
Quando, lento, um luar transviado envolve o casario.
As almas dos heróis antigos vão rezar.

Sinto no meu sangue a caricia da morte.

No silêncio as horas morreram,
E ao saimento
Das horas mortas
Um sino toca

Caminho a passo lento,
Creio que alguém me espia do alto, das cornijas,
Vai passando na sombra a ronda dos meus sonhos.

Toda cidade, eu vejo, está transfigurada;
É um campo desolado, negro, enorme
Onde rasteja ainda,
O último rumor de uma batalha;
E a massa negra dos edifícios,
As torres agudas recortando o azul sombrio,
Cadáveres revoltos, remexidos,
Com braços mutilados
Erguidos para o céu.
Ó minha triste e matéria e noturna cidade
Reflete na minha alma rude e amargurada
Te teu fervor católico, o teu destino, o teu heroísmo.




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Olinda



Olinda,
Das perspectivas estranhas,
Dos imprevistos horizontes,
Das ladeiras, dos conventos e do mar.

Olho as palmeiras do velho seminário,
O horto dos jesuítas;
E neste mar distante e verde, neste mar
Numeroso e longo
Ainda vejo caravelas...

Sábio silêncio do Observatório
Quando à noite as estrelas passam sobre Olinda.

Muros que brincam de esconder nas moitas,
Calçadas que descem cascateando nas ladeiras.

Olinda,
Quandoi o luxo, o esplendor, o incêndio
E os Capitães-mores e os jesuítas
E os Bispos e os Doutores em Cânones e Leis.

E ainda
Com as velhas bicas, os velhos pátios das igrejas:
Amparo, Misericórdia, S. João, S. Pedro,
Nossa Senhora de Guadalupe;
E os Beneditinos e as irmãs Dorotéias
E os padres de S. Francisco.

Neste silêncio, neste grande silêncio,
No terraço da Sé,
Sentindo a tarde vir do mar, tão doce e religiosa,
Como a alma celestial de S. Francisco de Assis.
                                                               
                                          (1925)




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Signo Estrelado (1960)



A Aparição da Rosa e Outros Sonetos



Legenda:

O primeiro destes sonetos d’A Aparição da Rosa procura representar o símbolo da continuação e da beleza da vida, o segundo tenta revelar o momento da criação humana não só material como também espiritual, e o terceiro, da morte irremediável e irredutível, pretende exprimir o mistério.

Apesar de vazados na velha forma do soneto, estes versos contêm rimas à esquerda, rimas interiores, assonâncias e quase-rimas, assim como certos efeitos de halo e de filtro poéticos que, ao meu ver, ainda são rimas, embora já livres do formalismo dos fonemas.


                         I

Não sei se ainda dormia e se sonhava...
Mas era uma visão, uma doçura
Que vinha de nascer da noite escura
E de ouro de carmim se revelava.

Não sei... Mas era um canto, uma voz pura
Que ao crescer toda em cores se banhava
E, às vezes, ascendia ou resvalava
Num vermelho de sangue e de loucura.

Era um nascer assim bem temerário,
Era um cantar solene e solitário,
Fervor, aspirações comuns e raras;

Sombrio de paixões, matriz sagrado;
De alvos seios luar desencantado;
Sobre sangue de amor sol de searas.



                          II

O silêncio da tarde, os bois pastando
E a luz dourando os arcos do aqueduto...
Tão livre a paz do céu se derramando!
Oh flor de ausente e perfumado fruto!

Alguém que ao longe os braços agitando
Configurasse a angústia de um minuto;
Também modulação se transformando
Na eterna voz de um canto irresoluto.

Embora a luz destile, de entre as palmas,
Um aroma, um veneno sobre as almas,
Evoluindo em surdas agonias;
Neste teu fruto esplêndido e vazio
Há um timbre, uma cor, um calafrio
De descobertas e de profecias.


                      III

Nas treliças de ferro de uma ponte,
Das águas sobre o plano movediço,
Há um vôo de sucesso e de horizonte...
- Flor e flor de mistério e compromisso.

O tempo em febre e sede extingue a fonte
Do teu refúgio e do teu claro viço;
Passando vão, vão sós baixando a fronte
Os peregrinos de um sonhar remisso.

 E quando dos espaços espontâneos,
Em rapidez de sopros litorâneos,
De novo a noite vem se aproximando.

O Frio, o Tenebroso, o Corrompido
Vão reduzindo o cálice ferido
E para sempre as pálpebras fechando.



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CONGRESSO DOS VENTOS



Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto
Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;
Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão
                                                       [cingida,
Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre
                                                       [lentos telhados,
Chegaram os mais famosos, os mais ilustres ventos da Terra:
– Mistral, com seus cabelos de agulha, e os seus frios de dedos
                                                         [finos,
– Simum, com arrepiadas, severas e longas barbas de areia
                                                       [quente,
– Harmatã, em fúrias gloriosas e torvelinhos, trazidos da Costa
                                                       [da Guiné,
Representante das margens do Nilo credenciou-se Cansim,
E Garbino, enviado das praias catalãs.

Vieram as Monções das margens do Oceano Índico,
Os ventos da Tundra siberiana vieram. . .
E os Alísios desceram do Equador, clandestinos,
Num grande transatlântico.

Chegaram ainda os ventos da América:
– Barinez, respirando doçuras de rios azuis, afluentes do
                                                [Orenoco,
– Pampeiro, eremita e solidão de horizontes sub-andinos,
– Minuano, assobiando longamente a tristeza ritmada das
                                                [coxilhas..

Também os ventos nordestinos se acharam presentes:
O Nordeste e o Sudeste; os ventos Banzeiros,
O Aracati das praias cearenses,
O vento Terral, velho boêmio das madrugadas.
Ventos, muitos e todos, ventos de todos os desertos,
De tempestades selvagens, de escuramente outonos. . .
Nesse congresso em tantas veemências se afirmaram
Quanto em glória e rebeldia se exprimiram. . .

Com açoites e eloqüentes rajadas falou Harmatã;
Com citações de Esopo e de La Fontaine
Comparou as vantagens da energia do sol e a do vento,
Descreveu com minúcia os modernos fornos solares
E admitiu o emprego futuro de ventos magnéticos.

Depois que Cansim relembrou o seu feito guerreiro
Envolvendo em altas nuvens de areia as legiões do rei Cambises
– Isto, há mais de dois mil anos –
Garbino repetiu com sopros noturnos e vagarosos
A velha história do abandono e desprezo dos ventos
Agora, solitários, vagando por todos os quadrantes.

A assembléia inteira levantou-se amotinada;
Um vendaval sem freio, um furacão,
Percorreu aquelas instâncias de planície tranqüila;
Uma onda de revolta se ergueu contra os motores,
Contra os ventiladores e os túneis de vento.

Mas apesar daquele tumultuoso debater de línguas meteóricas
Podia-se ouvir muito bem a voz lamentosa do Nordeste:
– Eu que, há trezentos anos, desembarquei das velas do almirante Loncq

Na praia de Pau Amarelo,
Que tremulei nas flâmulas e nas bandeiras das naus de D. Antônio de Oquendo

Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos:
Hoje vivo ensinando a empinar papagaios. . .

Voltando a calma, em alentos de aragens murmuradas,
Terral contou como ajudava as plantas nos amores:
– Levando nas dobras do seu manto o pólen das anteras,
Velivolvendo e suspirando entre ramagens.

Por fim, sucederam-se festas, danças de roda. . .
Músicas e cantos de longes mares tempestuosos,
Rodopios, volteios, caprichos, remoinhos, piões e parafusos. . .
– Com sestros de capoeira exibiram-se o vento Banzeiro e o Sulão.

Barinez leu uma mensagem de Romulo Gallegos,
Minuano disse um poema de Augusto Meyer.

E já pelos dias finais daquele mês todos partiram. . .
Erguendo o seu vôo sobre as nuvens varzinas
Regressaram, um após outro,
Para as noites e as tormentas das suas terras natais.

O último que se pôs a caminho foi o vento Aracati:
– Cortou uns talos de chuva
Com eles fez uma flauta
E se foi, tocando e dançando,
E se foi pela estrada de Goiana.





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 Elegia Para Maria Alves


Trago-te aqui estas flores
— Filhas que são, modestas, de um sol de outubro —
São flores das velhas cercas, flores de espinheiros,
São verbenas e perpétuas, bogaris e resedás;
Têm as cores do céu nos crepúsculos longínquos
E a transparência e a limpidez das tardes em que sonharam
                                                   [moças

Nos mirantes dos antigos jardins de arrabaldes.

As frutas que deposito no chão, no teu chão, dentro desta folha
                                                 [de aninga ...
— Filhas, também, de um sol que tu não viste —
São araçás silvestres, cajás de cercas nativas,
Pitangas, macarandubas, corações de rainha;
São vermelhas, são cheirosas e amarelas
Como se fossem . . . como se flores ainda . . .

As terras que espalho sobre o terreno do teu corpo vazio
— De muito distante vieram —
São areias do Rio Doce e da Piedade
Barros vermelhos das ribanceiras do Mar
Argilas das "Ruinas de Palmira" com as suas cores
De arco-íris naufragado entre os morros de Olinda.

Assim, Maria, trago-te flores, frutos e terras . . .
E para que se conservem sempre frescas e puras
Sobre elas derramo estas águas
Que são doces e claras, que são mansas e amigas:
Água da Levada de Apipucos
Água da Bica do Rosário
— Relíquias de chuvas antigas —
Águas por mim, por ti, por todos nós choradas.


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.