sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

POEMAS ERÓTICOS DE VALDIVINO BRAZ

Valdivino Braz - Acervo do Autor

De volta a este espaço, Valdivino Braz, que dispensa apresentações, nos brinda, desta vez, com uma Seleta de Poemas Eróticos. Dos poemas aqui apresentados, alguns são antológicos, como As Mangas, outros nem tanto, o que importa é que o Poeta, ao assestar seus penetrantes olhos azuis para o infinito, amplia o universo poético, no qual habitam corpos, desejos, vontades, para compor, pela linguagem, a sua tessitura, nada comportada.  



As Mangas





Entre as mais fibrosas,
de preferência a Sabina,
com suas sardas;
a pele com zinabre de cobre
e ferrugem de lâmina.
O dentro doce quando mordido,
e logo ácido na língua.

O sabor da Sabina se sabe
na primeira lambida,
mas temporã é azeda,
madura demais é urina.

Das menos fibrosas, a Bourbon,
com nome de nobre,
mas que não engana:
o que tem de bom tom,
é um quê de cigana.

A Manga-Rosa, a mais sensual,
escandalosa — Scandal Rose —,
a mais fêmea do mangueiral:
polpa farta, carnal,
um cheiro que excita e reporta
secretas impregnações
na mucosa da boca.
Tem gosto de boca almiscarada,
de beijo obsceno,
e parece peito de mulher inesquecível.

A Coração-de-Boi — que coração!
É a manga das paixões e dos suicídios.
Tudo cabe num coração maior que tudo.

A Manga-Espada, é óbvia: um porte afiado.

E todas essas as mais saborosas,
de melhor essência.
As demais são comuns,
entanto comíveis, ou chupáveis.

A tal de Coquinho, a mais desenxabida,
e muito enxerida no meio da meninada.
Não é à toa o nome que tem:
Coquinho é alcunha de mulher qualquer,

uma de todos e de ninguém.






Os pombos de Bemmal


Vão-se os pombos de Bemmal,
do pombal de Bemmal. Debandam-se,
libertos de ambíguos limites.

Dos revérberos do Verbo e da carne,
vindos de alvorecer, o Ser.
Despir-se o corpo do bem e do mal.
Toda nudez será abençoada
e não castigada —,
na festa desinibida da vida.





A arte de comer o corpo*


O corpo, come-se como se come
o cru. Ato de saber-se
no sabor do nu. Certa parte
come-se com maior requinte,
como se exercita a arte
do banquete. A carne
come-se com a fome mútua,
com a boca e a faca da permuta.
Comendo o que é da outra,
juntas as fomes se matam.


Uma rosa é uma rosa



Abre-se a rosa.
De entrepétalas sedosas,
a pétala negra. Torquês
nascida nos dentro da rosa,
e de si própria: vulva
carnívora e alimento de si mesma.
Lesmolesbos. Coleóptera.

De róseos refolhos,
a voragem secreta: o cerne,
sua carne preta.
Fulvos pistilos de pólen,
cílios de ébano,
pentelhos de Cleópatra.

A rosa-besouro e seu ouro.
O belo egofomífago:
a fome autofágica do ego.




As nádegas de Linda Kozlowski



Lindas! As nádegas de Linda Kozlowski,
como se lapidadas pela língua
de um deus libidinoso, Eros ardente,
ou de quem lhe venha na retaguarda,
com aquela faca de Crocodile Dundee.

O paraíso visto pela porta dos fundos:
oblongas, róseas nádegas de seda ou cetim!

Se uma só mordida na maçã fez o pecado,
a queda nos deu as duas bandas do mundo.






Orgies de Sardanapale - J. Van Winghen Inv. R. Sadeler SC.

























Orgia dos Querubins
(Poema profano)



Aos baldes de vinho bailam
os querubins desnudos
e bêbados e lúbricos possuem as cabras
de brancos balidos entre nuvens
no céu.

Retórica da guerrilha
(Uma transa na academia de malhação)

Hay que endurecer-se
pero sin perder la ternura jamás.
Che Guevara.

E há que emagrecer-se,
não perder a cintura, jamais.
Chega a vara!





Sex Symbols


Bem que se quis um kiss
nos mamilos de Acássia,
mas quem TViu, olhos que só lamberam
alvas mamas sem os caroços do câncer.

Sônia só Braga e não braguilha,
Cláudia foge da raia no vídeo
com os molejos anelídeos,
de sorte que na bruneca não Lombardi.

De sex symbols, o que se tem,
além do que se come com o olhar?
A ilusão do olhar,
o vazio da ilusão,
a solidão do telespectador.

Os seios, porém, sei-os,
que os mamei de mamãe,
e sei os de jasmim,
que floriram para mim.









O Grito Latente

A mesa repleta
farta
de dissabores

O fel nas taças,
os elos diluindo-se
no ácido corrosivo
dos rancores

A frieza dos olhos
feito o aço inoxidável
das facas

(O tempo interposto,
fardo intolerável)

E o garfo irritante
arranhando
feito um tridente
o fundo do prato
atritando o nervo
do grito latente:
Divórcio!






Ipsis Lips


Tu, que a tudo teve bebido,
embebedada a vida,
os olhos obnubilados e bulbos,
olha, que há vida ainda.

Vibre a lesmolíngua,
a lâmbda lambida,
à letra grega.

Scaramouche, espadachine
En garde! Tuché! —,
escaramuce os dédalos úmidomelados,
almíscar de funcho e soft touche rosé.

Escarafunche, caramuje e coma escargots
nos bibilábios vulvos e bordôs.

Bilíngue e beba o salso remanso
de lábios ninfos;
titile a úvida úvula de uma sonata,
e por melhor o soneto, não dê errata:
metam-se quartetos e tercetos
no labirinto de pétalas,
até tê-las trêbadas
nos lençóis de seus cansaços.

Urge, que a fera ruge.
Boca a boca, devore a fera,
lúbrica drósera,
que te morde a boca.

Não durma de touca:
se a vida é uma íngua,
tira-se de letra,
soletra-se a língua.
A morte é linda.


*(Poema duplamente premiado em 1º lugar — texto e ilustração — no I Salão Nacional de Poesia Erótica, realizado em Goiânia/GO, em 1989. Ilustração — pintura e entalhe de um casal desnudo, em suporte de madeira — do artista plástico Alexandre Liah. O poema então concorreu sob o título A arte de comer o outro, posteriormente modificado pelo autor).