segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

VALDIVINO BRAZ - SELETA DE POEMAS


Valdivino Braz - Acervo do autor


A TRAVESSIA DAS HORAS: A Poética  do Inexorável.

 


A Revista Banzeiro apresenta a Seleta de Poemas do Escritor Goiano Valdivino Braz. Poeta contemporâneo, um dos mais significativos das nossas Letras, cuja obra se sobressai pela inventividade linguística e o alto teor crítico. Sua obra poética é riquíssima e passeia pela sátira,  a infância, a historicidade, o erotismo e a metalinguagem, sem falar nos aspectos filosóficos, o que, de certa forma, tem contribuído para as várias premiações conquistadas, ao longo da carreira, como O Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Poesia (1992); Bolsa de Publicação Hugo de Carvalho Ramos - UBE-GO; Bolsa de Publicações Cora Coralina - AGEPEL, dentre tantas outras premiações de valor. Além disso, a sua poesia está presente em destacadas antologias, reverenciada nos prêmios que conquistou, obtendo o reconhecimento dos seus julgadores.

Os vários aspectos levantados sobre a obra de Valdivino Braz, desde a sua inserção crítica no mundo em que vive, até os elementos de vanguarda que caracterizam  sua obra poética,  além dos inúmeros livros que escreveu e as premiações que detém, valendo destacar o livro ‘Trompa de Falópio”, poemas (Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Literatura,  em 1992), apontam-no como um dos escritores mais significativos da Literatura Brasileira Contemporânea

Os Poemas, abaixo, foram selecionados pelo Autor, a pedido da Revista Banzeiro. Boa Leitura!



Os homens no Bar(co)


Os homens envelhecem no bar,

bebendo as palavras salobres da noite

e cuspindo o zinabre corrosivo do tédio.



Na longa travessia das horas,

destiladas pelos copos,

sabem o cansaço dos corpos,

os vincos nas faces vulneráveis

e a vida moída pela mó do inexorável.



Sabem nesta hora o íntimo silêncio

em que os gestos se anulam,

os olhos no vazio vagam,

e cada homem diz a si mesmo coisas

uns aos outros indizíveis.



Sabem agora a solidão sozinha

do lobo ferido no ermo do mundo,

e os  inevitáveis borrões vermelhos da sangria

própria do que é vivo e dói.



E morrem os homens, à mesa do bar,

barco de náufragos no mar de espuma

da última cerveja.




 

O Poeta e a Vida


A vida passou,

vestida de azul,         

e ele bebia cerveja

e escrevia versos

à mesa do bar.



Passaram-se anos,

a vida voltou a passar,

vestida de lilás,

e nas mãos trazia flores amarelas.



Debruçado sobre a mesa,

ele parecia dormir,

feito um bêbado, cansado e só,

mas a vida percebeu que ele não dormia,

e ficou triste.



Despiu-se do vestido

e dele fez a mortalha daquele homem,

enfeitou o lilás com pétalas amarelas,

e lá ficaram elas, feito asas soltas,

de mortas borbolet(r)as.



A vida vestiu-se de luto,

e partiu, nunca mais voltou

a passar por ali.



Passou o tempo,

veio o vento e varreu diluídas pétalas

e puída mortalha,

o pó que restou do poeta

e o seu legado:

pálidas palavras,

de um poema inacabado.



 
O Cão Negro dos Signos



Versos ao vento,

folhas secas que se soltam do tempo,

em alvoroço de pássaros,

ou se arrastam feito papel às cambalhotas,

no solo em que descambam.



Folhas que falam

das trilhas em que se perdem os rastros

de quem se perde e arde,

ladra e morde a própria sombra,

nos assombros da tarde.



O cão negro dos signos,

aquele que anda pelo caos,

com a língua longa de seus desígnios;

os dados lançados aos dédalos,

em demanda de dedos absurdos.



Ladra por sua vida de pedras,

e não se larga,

o cão acorrentado em seus medos,

nos arremedos do coração e suas perdas.



Ladra para o seu reflexo na água,

como quem ladra para o inimigo,

senão quando, pela pulga duma vírgula,

rodopia na porfia de perseguir a própria cauda.



Um cão enfermo

no ermo de seu inferno,

a farejar gato por lebre de sua febre,

demente no assombro e alarde de si mesmo.



O sujeito do verbo sem complemento,

o rosto já desfeito e sem conserto.

Ofício canhestro, juntar ossos de esqueleto.

E o que é isto que se busca

além dos ossos do ofício?

A clavícula é o osso da pergunta,

crustáceo o casco seco de lagosta

para o morto sem resposta.



Uivar, rosnar, descarnar-se pelo osso do verso,

a pauta e a flauta do verbo encarnado.

Cão danado que salta e se avulta

de espanto e suplício,

pois que a letra mata e o espírito vivifica

no pirilampo de sílex,

no cinzento silício

e na siringe do silêncio.



O cão poético se descabela de seu desespero

e se desossa pelo osso do seu almoço,

um osso roliço no oco de seus ecos barrocos.

Ou fosse fóssil no poço do calabouço,

ave semiótica que se depena a duras penas,

e não se despena das penas de sua alma,

nem vale a pena bater palmas

se a alma é tão pequena.



E assim o poeta se alimenta, e alimenta,

com a tinta sangrenta de letras mortas,

o cão que se mata por excesso de estimação.

Fiar-se nisso e finar-se por isso o cão sem nome,

devorar-se no que resta de um poema com fome,

uma fome insana e canina,

uma insônia de rastro enorme,

silente noite-serpente que se remorde

e nunca dorme e nunca morre.



Um poema é também isto,

suplício de escuridão e sol,

metalinguagem do cão,

na voragem de sua fome e solidão.
_


 



 A Arte da Morte
(Conjeturas para um final Poético)


um dia nem mais pensarás

no eterno: jogarás

teus signos ao acaso

feito um punhado de dados

lançados ao nada,

sem mais nenhuma ilusão de resultado

— de um ruído atirado ao oco surdo

o eco ventríloquo é tudo



um dia entrarás em eclipse

ou na órbita vertiginosa de uma elipse

talvez te esfaceles com tuas estrelas

e borbolet(r)as mortas

presas com clipes no invisível varal

de um abstrato céu — o real

desfeito em placas de mica



quem sabe louco deixes teu reduto

e a descoberto brinques

com teus espelhos em cacos

e os retratos de teus mortos — espectros

que te acenam de um labirinto



ou armes o fogo e o jogo lúdico

ao feitio de serpente bigume lâmina

— árdega adaga do ambíguo —

e mágico no teu último espetáculo

te evoles ígneo

em público — certamente dirão que a arte

essência vital a consumir-te

terá sido tua sentença de morte

 
 Sobre o Autor

Valdivino Braz Nasceu em Buriti Alegre (GO), em 23 de novembro de 1942. Filho de Valdemar Alves Ferreira e Sebastiana Braz da Silva. Fez o curso primário no Grupo Escolar Coronel José Teófilo Carneiro, em Uberlândia, MG. Supletivo nos institutos Dom Abel e Rio Branco, em Goiânia. Formado em Jornalismo pela UFG (1984). É membro da União Brasileira de Escritores de Goiás. Possui várias premiações literárias, entre elas, o 1º prêmio no Concurso de Literatura José Décio Filho, Goiânia, 1985; Concurso Literário Departamento Estadual de Cultura/SESC – 1º lugar, 1972; 1º Festival “Travessia” de Poesia Falada, Goiânia, 1984; Prêmio José Décio Filho, 1985, com Tessitura do Ser; Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, 1988, com Arabescos num chão de giz; Prêmio Cora Coralina (1990), com As lâminas de Zarb; Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, 1992, com A trompa de Falópio; Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, 2002, com Poema da terra perdida. E, em 1997, recebeu da União Brasileira de Escritores/Goiás o troféu Tiokô de Poesia.