segunda-feira, 20 de julho de 2015

Francisco Perna Filho - Conto

POR AMOR?



Bullet


Nada arrefece o ódio, principalmente quando ele é de morte. O que vale é a intenção, a vontade de consumar o ato. A certeza de que não vamos falhar. Dependendo da vítima, o projétil pode ser de chumbo, prata ou ouro, mas para ele, como dissera o legista: foi de chumbo mesmo. Um único e exclusivo tiro, à queima-roupa: pá! Assim mesmo, seco, como a batida de uma acha de lenha.

Eu me lembro bem: era sexta feira e eu acabara de deixar a Faculdade do Largo São Francisco, quando ouvi pelo rádio do carro a notícia fatídica. Fiquei atônita, enfiei as mãos na buzina, joguei o carro no acostamento.  Não sabia mais o que fazer e só pensava no pior. Inúmeros os cadáveres, uma verdadeira chacina, não se sabe ao certo quantos os mortos, informava o locutor da Rádio Bandeirantes.

Mesmo que não tivesse sido à bala, uma, duas, não importa a quantidade, o calibre, não importa como, o certo é que ele está morto, sem ninguém para reivindicar a autoria, seria mais digno, mas não, ninguém veio, nenhuma única palavra, nenhum sinal, nunca ouviram falar sobre ele. Foi  o que disseram.

Quando abri os olhos, o ambiente era outro, calmo, as pessoas de branco. Levantei um pouco a cabeça e pude ver a minha mãe que se aproximava, parecia um tanto abatida, quis chorar mas não o fiz, dei-me conta de que estava num hospital, de que havia batido o carro. Ele morreu, o Marquinhos morreu, o seu primo estava entre os mortos do Carandiru, disse a minha mãe. Foi brutalmente assassinado, como qualquer um ali.Tinha apenas vinte e dois anos! Não acreditei! O que era flash foi tomando consistência, lembrei-me da notícia ouvida no rádio do carro. Quis levantar-me, mas fui contida pela enfermeira.

 Talvez se não tivesse sido ele, outro estaria aqui sendo ignorado, um mundaréu de curiosos imaginando a cena, cada um a seu modo: um tapa, uma traição, um tropeção, uma dívida, droga, qualquer coisa, a imaginação humana não tem limite, o que importa mesmo é o espetáculo, neste mundo onde apenas mata-se ou morre-se. Ou você está do lado de cá ou você está do lado de lá. Matar ou morrer pode ser conjugado a qualquer tempo, em qualquer lugar. Pode ser agora, como ele aí, alheio a tudo. Pode ser depois, no futuro, a qualquer tempo.

Ainda era cedo, acabáramos de transar, porque amor mesmo eu não fazia. Eu não trazia este sentimento comigo, até porque eu não estava ali para amar, apesar dos momentos agradáveis que vivemos e dos presentes que ele me dava. Eu já havia me vestido, ele insistira em deitar-se no sofá, falei para ele do recado da secretária eletrônica, da declaração de amor que ficara gravada. Perguntei quem era aquela mulher. Ele gritou comigo, chamou-me de paranóica, ciumenta, que daquele jeito não dava mais para continuar. Pedi explicação, ele se esquivou, gritei que não aceitaria aquela vagabunda entre a gente, ele retrucou.

Ninguém escapa ao destino, ao sucesso, ao infortúnio. Cada coração bate no ritmo das suas sentenças. Assim como ele, todos os outros, centenas deles, caídos, mortificados, desprezados, sem ninguém; todos cumprindo a sorte de estarem ali na hora errada, no pavilhão errado; de estarem do outro lado.

Levantou-se bruscamente, veio em minha direção, dei um passo para trás, peguei a arma que ele guardava na estante lateral, engatilhei-a, ele tentou me conter, pediu por favor, disse que me amava. Naquele momento, só me lembrava do coronel autorizando a invasão ao presídio, talvez ele imaginasse que estivesse fazendo uma limpeza justa. Eram todos bandidos, mesmo, só não pensou nas consequências, pensou que aqueles ali não tivessem família, que ninguém choraria por eles. Mais grave, entre os mortos, muita gente era primária, estava ali por interpretações mal feitas de algum juiz.

Foram 111 presos mortos no pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, um dia para não esquecer:  2 de outubro de 1992.

Lembro-me bem, foi nos Jardins, na casa de um ex-professor da faculdade, que era muito amigo do coronel. A partir dali, ensaiei cada lance, cada jogada. Muitas vezes vacilei, senti vergonha de mim, mas resisti.

Se eu me arrependo? Claro que não, só sinto por não estar atenta às câmeras de segurança. Vacilei, mas quem não vacila?