quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Revista Banzeiro Textual tem o prazer de apresentar inéditos (em livro) do Poeta Marcelo Vieira Ribeiro, natural de Ouro Preto/MG, que vive no Rio de Janeiro/RJ, desde 1997, onde trabalha como funcionário público federal. Engenheiro civil e advogado, é poeta tardio, tendo começado a escrever regularmente em 2012. Desde então, costuma publicar seus poemas em sua página no Facebook. Foi um dos 15 classificados no Prêmio Off-Flip 2014.



Marcelo Vieira Ribeiro





No cinzeiro




Sobrou no cinzeiro,
a ponta do cigarro.
A memória,
perdeu-se por inteiro
no alcatrão
e na nicotina.
Nada retém
a fumaça da história,
apenas o catarro
e o pulmão,
negro e refém
de sua própria sina.


A crise do poeta


O poeta está em crise:
faltam-lhe o verso e o pão.
Traz na valise
dívidas e nenhum perdão,
e à mão,
ainda mais vazia,
a folha que lhe consome
a noite e o dia.
Para o poeta em crise,
o poema se faz no branco senão
da fome.
Dilema


A mão costura
sobre a folha
as linhas
de mais um poema,
esta urdidura
de tinta e fonema,
que mal umedece
a celulose
e já se coloca em dilema:
pertencerá
a quem a tece
ou se abrirá
à escolha
do que, na leitura,
as linhas,
uma a uma, descose?

 
 O Grau da Escritura

A gota de sal
na página.

Suor
ou ponto final
do poema,

escritura
em grau
de fervura?

Menos
seria palavra fria,
banal:

não salga,
não sua,
não dura.

Não queima.



Não Há Barganha

O inseto
derrotado
na teia

é um feto
preparado
para a ceia.

Barganha
não há
se há fome,

ou a aranha
é má
por que come?


 


O peso da sombra


A sombra pesa o peso
do que lhe grava o chão,
como o verso retesa
na folha o arco da mão.

Sombra é corpo indefeso,
poema preso ao chão,
e em sua palavra pesa
o peso de sua tensão.

O verso adensa a folha
como uma sombra o chão
e entre eles a escolha

do que se ter à mão:
poemas em recolha
ou corpos sobre o chão.

 


Essa voz




Essa voz
no meu ouvido,
antes ruído
atroz,

ganhou sentido
após
eu tê-la assumido.
Vamos nós

agora
na sintonia
mais pura,

como iam outrora
a poesia
e a loucura.