quarta-feira, 12 de março de 2014

Marja Perna - Conto

A ALMA DA MINHA MÁQUINA DE LAVAR






Quando a mulher se casa, ela traz consigo vários desejos, guardados a sete chaves, os quais lhe proporcionarão muitas felicidades, além da economia de seu tempo para usufruir das pequenas futilidades femininas.

Talvez não seja do conhecimento de todos, mas a mulher só adquiriu sua independência quando surgiu a máquina de lavar, e é nesse contexto que o fato se desenrola: a história de uma mulher de meia idade e sua máquina de lavar, que tinha alma.

Há alguns anos, mais ou menos cinco anos, uma jovem esposa, trabalhadora de instituição pública,  durante seis horas, e, no restante do dia, mãe, doméstica, lavadeira, amante, cozinheira, dentre várias outras profissões inerentes às mães, resolveu, para economizar tempo nas tarefas domésticas,  adquirir uma máquina de lavar, comprada via internet, em 10 prestações, com um prazo de vinte dias para entrega.

Finalmente, a grande aquisição chega ao domicílio. Um misto de alegria e tristeza  toma conta do ambiente. Alegria, por que tudo era lavado, sem muito esforço (só da máquina, claro!); tristeza, por que  a conta de água aumentou assustadoramente. Nem isso tirou a felicidade daquela mulher.

O tempo foi passando, um, dois, três, quatro...cinco anos,  quando a grande companheira começou a mostrar-se cansada, e, num belo dia, de repente, parou sem avisar à sua dona, deixando-a muito aflita, o que a fez, imediatamente, procura  um técnico, que deu o seguinte diagnóstico:

- O  coração da máquina queimou!
-Coração?
- Ah, desculpe-me,  a placa da máquina.
Após o diagnóstico, a facada:
-  Para eu consertá-la, a senhora terá de pagar R$ 120 reais!
- Nossa!, não faz mais barato?
- Infelizmente, não!

E assim foi feito, Cobrou cento e vinte reais, arrumou algumas peças, e a grande companheira voltou a funcionar, a passos bem mais lentos, mas sempre na ativa.

Após três meses de um relacionamento alegre, de confiança mútua, a estimada amiga, mais uma vez, deu sinal de cansaço. Mais uma vez, chama  o técnico. Diagnóstico? O mesmo, só que, desta vez, R$ 60 reais mais caro, com garantia de três meses.

Os meses se passaram, e a grande amiga continuava firme e forte, lavando tudo, desencardindo o mundo dos tecidos. Num dado momento, num dia como outro qualquer, fora tomada pelo desânimo,  vira o seu  ritmo diminuir, e já não mais respondia ao comando de sua dona, que impacientemente bradou:

- Da próxima vez,  não lhe mando mais para o conserto, vou comprar uma novinha, pelo menos terei certeza de que ela não me trará  surpresas desagradáveis.

Dito e feito, o grande dia chegou! A velha máquina, depois de bufar repetidas vezes, parou. Várias tentativas para reanimá-la, foram em vão. Por cinco dias as roupas  se  acumularam, ficaram encarunchadas, mas, mesmo assim,  a dona, sem querer trocá-la, insistia em ligá-la várias vezes por dia, até que, no quinto,  desistiu de vez, e saiu para comprar uma nova companheira. E isto realmente se concretizou. Comprou uma mais potente, 10 quilos, turbo, todo o sonho de uma dona de casa. Quando chegou em casa, com a nova aquisição, foi até à velha amiga, alisou o seu vidro, e falou:

- Minha velha amiga, tentei tantas vezes, pedi para você não parar e você me deixou na mão, com o cesto cheio de roupas sujas e uma conta bem salgadinha para pagar, tudo culpa sua; mas, agora, não tem mais jeito, você dançou, pois já adquiri uma nova companheira, linda e  branquinha. 

Neste momento,  num último gesto de amizade e gratidão, a dona, bem devagar, passa o dedo no botão “liga/desliga” e, num último sentimento de amor à velha companheira,  aperta o botão verde:  de repente,  acende-se uma luzinha, a morta renasce depois de cinco dias, começa a funcionar, jorrando água, com toda a força, com todo amor à sua companheira de velhos tempos.


A jovem senhora deixa cair uma lágrima, grita de felicidade, coloca a roupa suja na máquina, deixando-a trabalhar mais uma vez. A Máquina nova, na sua imponência, a tudo assistia, mas de nada adiantou, valeu a experiência da mais velha, a amizade devotada. A sua dona, com o coração apertado,  esqueceu a máquina nova em um canto, coberta, e continua com sua grande companheira, em uma estreita relação de amor:  homem e máquina. Toda vez que pensa em deixá-la, ou melhor, aposentá-la, o seu coração  dói.