sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Inácio de Loyola Brandão - "De onde vêm esses seres?"

Ignácio de Loyola Brandão - foto by Tribuna de Minas

Beth Brait, no seu livro A Personagem, dedica um capítulo para  ouvir o que alguns escritores contemporâneos têm a dizer sobre os seus personagens: como surgem? de onde vêm, quem são esses seres? Reproduziremos, aqui, ao longo desta semana, tais depoimentos. Hoje, ouviremos o que tem a nos dizer Inácio de Loyola Brandão



Divulgação

Vêm de mim. Sou eu mesmo, uns quarenta por cento. Tem vez que é bem mais: sessenta, cem por cento. Depende da piração. Mas a maior parte das vezes vêm de tudo que me rodeia, das pessoas que estão à minha volta. De gente que vi, observei, convivi, entrevistei, amei. Dizia Hemingway (será que dizia mesmo?) que o escritor não pode ter escrúpulos. Nem com os outros, nem consigo mesmo. Não se confunda falta de escrúpulos com mau-caratismo; são coisas distintas, no caso literário. Se uma pessoa pode fornecer dados ricos para um personagem, por que não utilizá-la?

Bebel foi tirada de uma  estrelinha da tevê Record que tinha sido Miss Luzes da Cidade, um concurso promovido pela Última Hora entre as "beldades" do bairro. Juntei a essa menina as características de uma conhecida estrelinha da televisão paulista, famosa pelas belas pernas e pelo sotaque francês. Inventei umas falas, certas situações, idealizei outras com o conhecimento que tinha dos bastidores da televisão, porque era um dos setores que eu cobria na Última Hora , década de 70. E estava pronto o personagem.

Adelaide, do Não verás país nenhum, foi tirada de uma amiga dona de pensão, onde morei nos princípios de minha chegada a São Paulo. A ela juntei gente de minha família, uma vizinha que era a Adelaide dita e feita. Essa mulher, quieta, tranquila, recatada, "dona-de-casa", fiel cumpridora dos deveres, morreu um dia. E o que apareceu de caso, de romance, de amor, de fofocas! Parece que existiam duas mulheres. Mas será que existiam mesmo? Ou são os mitos populares? Deixo essa ambiguidade no meu romance. Há uma, ou duas Adelaides?

O Souza leva uma carga minha. O meu lado acomodado, apático, o deixa por lá. Tirei-o também de um amigo inteligente e lúcido, mas pessimista. Para que lutar? Misturei num liquidificador, onde botei alguns conceitos meus a respeito da classe média: omissa, reacionária, medrosa, conservadora etc. Acrescentei lampejos de  conscientização e lucidez - estava pronto.

O personagem sem nome do Dentes ao sol foi inteiramente baseado em dois pontos: 1) o meu medo de nunca ter saído de Araraquara; passei a imaginar o que seria a minha vida lá, se eu tivesse ficado, consciente de que não tinha tido coragem; 2) um amigo que realmente ficou e depois tentou até o suicídio.

Disso resultou aquele homem que nunca procurou fazer as coisas que sonhava. E passou a viver na terrível angústia do: "e se eu tivesse tentado?" Tentar e fracassar não é problema. O suicídio, o veneno lento, é a dúvida: teria dado certo?

Anoto falas, frases, tiques, trejeitos, mania dos outros e vou jogando nos personagens. Tento também me ver através deles, me autocriticar. Vivo com uma agendinha no bolso, anoto escondido. Senão esqueço.

Nos meus primeiros livros (Dente ao sol, Bebel que a cidade comeu e Pega ele, Silêncio) o personagem Bernardo (meu alter ego) é constante. Em Zero, ele já aparece rápido, sentado em cima de uma saca de feijão. Meio decadente. Em Dente ao sol, ele é criticado por uma pessoa da cidade de onde veio.

Em Bebel, há um instante em que a personagem vai a um enterro. O enterro de uma atriz de teatro que morreu de acidente. A história da atriz, Ana Maria, veio no livro seguinte e se chama "Túmulo de vidro".

A personagem de "Camila numa semana" (conto do Pega ele, Silêncio) foi baseada numa menina que existiu realmente e tinha até esse nome. Estudante universitária, depois esteve envolvida na clandestinidade, sofreu, acabou se matando. Era uma belíssima menina, que frequentava muito o teatro Oficina no começo dos anos 60, chegou a namorar o Zé Celso. Espécie de paixão de todo mundo. Ela adquiriu no livro o rosto de Jean Seberg, que era o mito da minha geração. A personagem do incrível Acossado, de Godard, que tanto marcou a gente.

Acabo de me lembrar que não falei do José e da Rosa, os dois do Zero. Sabe que tem muito estudante que me pergunta: - Zero vem de Zé mais Ro, abreviatura de Rosa?

Olha que é engraçado.
Os dois foram uma misturada das mais loucas. Punha o que vinha na cabeça, sem preocupações tipo: combina com o personagem? Está dentro da linha psicológica? Ajusta-se? Não está ficando ambíguo? Paradoxal? Contraditório? Acho que este meu "não importar" é que conduziu ao personagem (talvez) melhor acabado, mais brasileiro, "real", típico, modelo do nosso homem em determinado momento. Claro que o fato de minha literatura, não de toda a brasileira. Zé e Rosa foram colagens alucinantes, delirantes, pedaços, segmentos, fragmentos de tudo que rodava vertiginosamente em torno de mim, no final dos anos 60. Mandei ver. Com liberdade mesmo, sem pensar em estrutura, coerências, linhas, porque todo o país andava desestruturado. Andava? Houve até um crítico que passou o tempo todo a perguntar: mas onde está o eixo do livro? Mandei uma carta à revista Escrita dizendo que o eixo do livro poderia ser encontrado
 em qualquer casa de auto-peças.

Zé e Rosa nasceram de um sem-número de histórias que eu tinha prontas na gaveta. Histórias, ideias, anotações sobre personagens. Gente de São Paulo. Sempre escrevo numa agenda, depois datilografo e guardo em pastas. Um dia, apanhei as pastas e comecei a sacar situações e a escrever, montar o livro. Não foi à toa que Zero demorou nove anos a ficar pronto. Anotações e materiais guardados a partir de 64. Sentei à mesa, firme, entre 67 e 69. Entre 69 e 73 fiquei editando, aparando, limando, empurrando, cortando, tentando seguir aquele conselho de Hemingway a um jovem que queria ser escritor: escreve como se estivesse mandando um telegrama pago do seu próprio bolso. Isto é, cada palavra sai cara. E todo mundo entende a linguagem econômica do telegrama, porque lhe diz respeito. Era isto, síntese. E a história dizer "respeito". Acho que a gente lucra ao ler biografia. Era bom o velho!

Assim, é de mim e do que me rodeia que esses seres vêm. Nenhum extraterreno, todos reais, carne e osso. Se é que personagens podem ser carne e osso.  Mas essa é outra história.

In. BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985, p.71-72.

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