quarta-feira, 8 de maio de 2013

Luis Augusto Cassas Poema




BRECHÓ DO PÓ


existem duas cidades
(ou nenhuma)
unidas por razão alguma
em uma


uma sente saudade
a outra piedade
uma olha pra longe
a outra se esconde
uma se espelha
a outra se destelha


duas costelas
do mesmo barro
duas mulheres
do mesmo sarro
duas plantas
do mesmo jarro


uma é suja
a outra mal lavada
uma tem o céu no muro
a outra o incerto futuro
uma é made in portugal
a outra from pasárgada


o cordão umbilical
que as liga é o mar
cadeia parental
que costura uma a outra
igual duas ostras
temperadas de sal


irmãs siamesas
de igual natureza
uma vive de rendas
outra de prendas
uma está tombada
a outra desmoronada


uma quer exílio
a outra auxílio
mas na embaixada do meu peito
meu coração em beleza
põe mesa
e lhes dá asilo



2

vista pelo alto
não se veem as crenças
brechada por baixo
não se sabem as rendas
e mesmo o povo
que dorme nos mirantes
acordando de repente
confundirá os poentes


uma é oficiosa
a outra é oficial
uma tem a rua da Manga
outra a rua Dr. Fulano de Tal
uma vai a Mântua
a outra é menstruada
uma olha Alcântara
a outra é alcantarada


a ruína-barbárie
de uma acareação em série
redundará às duas
uma procissão de cáries
uma está entrevada
até os ossos
a outra tem penhorada
as veias do pescoço


uma quer exílio
a outra quer auxílio
mas na embaixada do meu peito
sem ferir-lhes os vincos
meu coração abre os trincos
e oferece asilo



3
agora as empoladas vovós
para completar as obras
convocaram as sogras
para um simpósio do oh
nessa concorrência rococó
abriram um pós-moderno brechó
juntaram todas as sobras
e vendem orgulho em pó


In. A Poesia Sou Eu - Poesia Reunida
Volumes 1 e 2 - Imago Editora.